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autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data20/5/2015 19:05:59
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resumoAlgumas obras se destacam por apresentarem a vida na Terra milhares de anos após uma hecatombe, seja nuclear, seja de outra natureza.


Um dos principais livros a apresentarem um futuro longínquo do planeta após o “fim do mundo”, e um dos maiores clássicos do gênero, é Um Cântico Para Leibowitz  (1959), de Walter M. Miller Jr., recentemente relançado no Brasil. Além de tratar do tema da reconstrução da civilização após uma guerra nuclear, é um dos mais importantes trabalhos a abordar a religião.
O enredo também tem uma certa relação com o que alguns chamam de “história alternativa da Terra”, uma postura que procura nas ruínas do passado evidências de que civilizações ainda desconhecidas por nós, e bastante desenvolvidas, tenham existido na Terra, talvez há dezenas de milhares de anos. Essas pesquisas procuram por objetos ou relatos lendários e mitológicos, assim como a presença de antigas civilizações em locais onde, supostamente, elas não deveriam estar.

E o mundo foi destruído novamente, e a história pula para milhares de anos no futuro, em O Planeta dos Macacos (La Planète des Singes, 1963), de Pierre Boulle, o mesmo autor de A Ponte Sobre o Rio Kwai.
Claro que, hoje em dia, todos já conhecem a história, mas o impacto da primeira revelação, para quem leu o livro na época, ou para quem viu o filme com Charlton Heston, em 1968, foi marcante. Para falar a verdade, o filme é mais impactante do que o livro, e alterou bastante a história original, ainda que o livro seja mais irônico.



Ainda que sem avançar no futuro tanto quanto A Longa Tarde da Terra, o filme Vinte Milhões de Léguas a Marte (World Without End, 1956), vai até o ano de 2508, além de apresentar uma péssima adaptação de título em português. É verdade que Marte está no cardápio, mas só por acaso. Não chega a ser um filme tremendamente inspirador, ou particularmente bom. Mas... é legalzinho.
Uma expedição com quatro astronautas dirige-se a Marte e acaba atravessando algo como uma torção no espaço-tempo, surgindo no futuro da própria Terra. Descobrem que o planeta passou por uma destruição nuclear que deu origem a uma raça de mutantes, que dominaram a superfície; os não mutantes vivem em instalações subterrâneas, mas estão em vias de desaparecer, pois não conseguem mais procriar; não exatamente por falta de vontade, mas por serem estéreis.



Claro que os efeitos especiais não são grande coisa, e o destaque fica para os figurinos, desenhados por Alberto Vargas, um dos mais famosos ilustradores de modelos, as pin-ups, em particular as que desenhou para as revistas Esquire e Playboy.


As mulheres de Vinte Milhões de Léguas a Marte (Allied Artists), nos figurinos de Vargas.

Na mesma época surgiu o filme Teenage Caveman (1958), dirigido e produzido por Roger Corman, que recebeu avaliações diferentes da crítica; em épocas mais recentes passou a ser cult, no caso, um daqueles filmes tão ruins que as pessoas passam a assistir para dar risada. Robert Vaughn, o ator principal (que mais tarde seria o agente Napoleon Solo, do seriado O Agente da U.N.C.L.E.), já foi citado como tendo dito que este é o pior filme já realizado, e também como tendo dito que era o melhor pior de todos os tempos.
Quando o nome de Roger Corman está envolvido, geralmente as críticas são mais amenas, uma vez que ele conseguia fazer milagres com quase nada, com orçamentos ridículos. Também é engraçado ver Vaughn como o “adolescente das cavernas” do título original, uma vez que, em 1958, ele tinha 26 anos.
Seja como for, na época em que foi apresentado o filme oferecia uma virada interessante na história, que começa apresentando uma sociedade aparentemente pré-histórica, mas que na verdade é a tentativa de reconstrução da sociedade humana, milhares de anos após um holocausto nuclear. Vaughn é o sujeito que descobre a verdade sobre o mundo em que vive ao encontrar um livro que fala sobre a vida das maiores cidades do século 20.


Robert Vaughn, como o "adolescente" das cavernas, em Teenage Caveman ().

A viagem mais distante no tempo ocorre no clássico A Máquina do Tempo (The Time Machine, 1960), dirigido por George Pal e baseado no livro de H.G. Wells, publicado em 1895, e um dos marcos dos primórdios da ficção científica.



Em The Encyclopedia of Science Fiction Movies, Phil Hardy diz que o filme traz pouco da visão original de Wells. “O romance reflete as divisões de classes na sociedade vitoriana e as coloca no futuro, onde os Eloi e Morlocks são caricaturas rudes dos decadentes aristocratas e a brutalizada classe trabalhadora da época de Wells. O filme também omite a visão pessimista de Wells acerca do processo evolucionário que encerra o livro”.



Os malvadões morlocks e a eloi Weena, em A Máquina do Tempo (Warner).





Bom, estamos falando de Hollywood, e as alterações parecem ser inevitáveis. Seja como for, o livro é excepcional, e o filme delicioso, mesmo hoje, quando seus efeitos especiais ficaram para trás. Mas a máquina do tempo em si é uma construção que se tornou um ícone.
Ao longo de sua jornada, o viajante vê a guerra que destruiu o planeta, e chega até o ano futuro de 802.701, encontrando a estranha e dividida sociedade. No livro, após escapar dos Morlocks, ele ainda viaja milhões de anos no futuro, para ver o fim dos tempos, a Terra e o Sol esfriando até morrerem.


Rod Taylor, prestes a realizar a viagem numa das máquinas do tempo mais legais do cinema.

A refilmagem de 2002, com o mesmo título e direção de Simon Wells, só tem como destaque o fato do diretor ser bisneto de H.G. Wells, o que talvez só aumente a vergonha de ter alterado tanto e tão pobremente um clássico.


A MORTE DA TERRA

O livro A Máquina do Tempo muitas vezes é citado como pertencendo ao subgênero conhecido como “Dying Earth”, ainda que o termo só tenha surgido muito depois.
Ao contrário das histórias apocalípticas, nas histórias dessa subcategoria da ficção científica não ocorrem eventos catastróficos súbitos, sejam guerras nucleares ou colisões cósmicas. As histórias situam-se num futuro tão distante que a Terra, o Sol, nosso sistema solar, estão chegando ao fim de suas existências. Também apresenta como eventual característica a mistura de gêneros – no caso, a ficção científica e a fantasia – de modo que esses mundos às vezes apresentam a magia como uma possibilidade. O termo passou a ser utilizado a partir de 1950, quando Jack Vance publicou a coletânea de histórias The Dying Earth, nas quais ocorre exatamente essa situação: a magia convive com a ciência.
Um dos primeiros livros citados sobre o tema é A Casa Sobre o Abismo (The House on the Borderland, 1908), de William Hope Hodgson, muitas vezes citado entre as principais criações da literatura fantástica. Juntamente com Arthur Machen, Hodgson é apontado como um dos que influenciaram a obra de H. P. Lovercaft, e um dos precursores da ficção científica e do terror.
No livro, ele narra não apenas encontros aterrorizantes com seres fantásticos saídos das profundezas da terra, mas também uma viagem de milhões de anos no futuro. Na casa do título, em ruínas, os personagens encontram um livro que fala sobre as últimas aventuras do morador. E, mais do que isso, a própria casa parece ter propriedades únicas, funcionando como uma espécie de portal, uma ligação com outros mundos ou dimensões.
O próprio Lovecraft comentou o livro, em seu ensaio O Horror Sobrenatural na Literatura, afirmando que talvez seja a melhor criação de Hodgson. Ele diz que “As viagens do espírito do narrador através de incontáveis anos-luz de espaço cósmico e de ilimitados ciclos de eternidade, e de como ele assiste à destruição final do sistema solar, constituem algo de quase único na literatura corrente. E por toda parte manifesta-se o poder do autor de sugerir vagos terrores emboscados no cenário natural”. Ele complementa dizendo que “Não fossem alguns toques de sentimentalismo vulgar, o livro seria um clássico de primeira água”.
No livro Horror: 100 Best Books (1988-1992), editado por Stephen Jones e Kim Newman, o escritor Terry Pratchett, ao comentar A Casa Sobre o Abismo, diz que “Em sua obsessão com a entropia e o infinito, aqui Hodgson parece estar desenvolvendo de forma mística os temas apresentados racionalmente em A Máquina do Tempo, de H.G. Wells”. E ele também não gostou do “sentimentalismo vulgar” ao qual Lovecraft se referiu, mas preferiu ignorá-lo. “Os pequenos toques Tennysonianos de romance são nauseantes. Isso não importa. São apenas cascas na ferida; ignore-os”.
A semelhança com a obra de H.P. Lovecraft não está tanto na forma como Hodgson trabalha o terror, ou nos seres que apresenta, uma vez que Lovecraft foi mais longe do que qualquer outro até então, mas sim na visão do que seja o terror. Para ele, o que causa mais espanto, o que é capaz de deixar as pessoas sem voz e com os cabelos brancos, é a vastidão do espaço, o infinito, o vazio onde nada pode existir e que, ao mesmo tempo, é a fonte de toda a vida; é o tempo que só pode ser medido em milhões ou bilhões de anos, diante do qual nossa rápida existência nada representa. O terror é saber que, diante desses espaços, tempos e forças incomensuráveis, a única coisa que podemos fazer é sentar, observar e esperar que sejamos poupados.
É uma surpresa que o livro tenha sido publicado no Brasil, pois o mercado editorial aqui geralmente ignora essas obras mais antigas, por mais importantes que sejam. E ainda por cima, foi distribuído para as bancas de revista, o que talvez torne mais difícil adquirir um exemplar hoje em dia.
Em 1912, William Hope Hodgson retornou ao gênero com The Night Land, que narra a vida na Terra bilhões de anos no futuro, a partir das visões ou sonhos de um homem no século 17; sua mente de alguma forma se funde com a de uma encarnação futura. O Sol não mais existe como fonte de calor e energia e os últimos remanescentes da raça humana vivem numa gigantesca pirâmide de metal, a última fortaleza da humanidade, ameaçada por forças desconhecidas.
Lovecraft também comentou o livro, dizendo que ele “Desenvolve-se de modo bastante desastrado”, e que a narrativa “é seriamente afetada por uma verbosidade cansativa, cheia de repetições, por um sentimentalismo romântico artificial e enjoativamente piegas, e por uma tentativa de linguagem arcaica (...)”.
Apesar disso, ele também disse que “Descontadas todas essas falhas, ainda assim é uma das mais poderosas peças de imaginação macabra até hoje escritas. A imagem de um planeta morto, envolto em noite perpétua, com os remanescentes da raça humana concentrados numa enorme pirâmide metálica e acossados por desconhecidas e monstruosas forças híbridas das trevas, é algo que o leitor jamais esquecerá”.

Outro escritor favorito de Lovecraft, e de 9 entre 10 escritores de terror, fantasia e ficção científica – é Clark Ashton Smith, que começou a desenvolver sua série Zothique em 1932, com o conto O Império dos Necromantes (The Empire of the Necromancers).
Zothique é o nome de um continente num futuro longínquo, no qual moram os últimos habitantes da Terra. As máquinas e o conhecimento científico já foram esquecidos, assim como as atuais religiões do planeta, e novas formas de culto desenvolveram-se, assim como a magia.
O autor elaborou uma geografia para Zothique, assim como elaborou inúmeros deuses e religiões, ainda que a história da civilização propriamente dita não seja exatamente linear. Muitos reinos desaparecem e tornam a aparecer, sendo reconstruídos. E é um local em que os mortos superam os vivos em número.

Em sua extensa e excepcional mitologia, H.P. Lovecraft apresentou seres que habitaram a Terra há milhões de anos, mas ele também escreveu pelo menos uma história que é citada como pertencente ao subgênero Dying Earth. E, ao que se sabe, inédita em português. Trata-se do conto Till A’the Seas (para quem quiser ler em inglês: http://www.hplovecraft.com/writings/texts/fiction/tas.aspx), escrita em colaboração com R. H. Barlow, em 1935. Na primeira parte do texto são descritos os eventos de milhões de anos no futuro, quando o clima da Terra muda radicalmente e os oceanos desaparecem, levando inevitavelmente ao fim da civilização.
A série que realmente abriu caminho para o surgimento de mais histórias do gênero foi, sem dúvida, The Dying Earth (1950), de Jack Vance, um dos excelentes escritores de ficção científica e, no caso, também de fantasia.
O livro, inédito em português, é uma coletânea com seis contos: Turjan of Miir; Mazirian the Magician; T’sais; Liane the Wayfarer; Ulan Dhor; Guyal of Sfere.
Todas as histórias situam-se numa Terra futura, com o Sol chegando ao final de sua existência. O número de habitantes do planeta diminuiu e a maioria vive nas ruínas de civilizações anteriores, já desaparecidas e esquecidas. Utilizam-se da tecnologia que restou, e que não entendem, assim como da magia, e não existe muita diferença entre as duas, uma vez que a magia, aparentemente, também pode criar tecnologia de algum tipo.
Em 1966, Vance voltou a escrever histórias ambientadas nesse mundo, com The Eyes of the Overworld, com sete contos, seis deles publicados originalmente em The Magazine of Fantasy & Science Fiction, entre 1965 e 1966, e um conto inédito. Em 1983, ele publicou Cugel’s Saga; e, em 1984, Rhialto the Marvelous. É uma pena que os livros continuem inéditos no Brasil.










Um dos melhores livros de Arthur C. Clarke, um dos gigantes da ficção científica, A Cidade e as Estrelas (The City and the Stars, 1956) é frequentemente citado entre as obras que podem ser consideradas como pertencendo ao subgênero Dying Earth, ainda que essa não tenha sido a intenção do autor. E também não apresenta a característica de misturar magia com ciência.




O livro é uma extensão e uma revisão de seu conto Against the Fall of Night, publicado em 1948 na revista Startling Stories. Em português, o conto surgiu no livro Anti-Crepúsculo (The Lion of Comarre and Against the Fall of Night. Panorama, coleção Antecipação nº 29; e Europress, coleção Bolso Noite nº 46).
A história situa-se 1 bilhão de anos no futuro, quando quase todo o planeta é um deserto, com exceção da cidade de Diaspar, com uma população praticamente imortal e extremamente conservadora. Ninguém quer saber se ainda existem outras cidades no planeta ou qualquer coisa que não se refira à sua própria existência.
As pessoas vivem por milhares de anos e, então, são recolhidas em bancos de memória, cuidadas por um computador, que também é responsável por cada átomo da cidade, providenciando para que nada se estrague ou se perca. Depois de mais alguns milhares de anos, as pessoas renascem em corpos adultos perfeitos e, depois de alguns anos de vida, recuperam as memórias das vidas anteriores, desde que essas memórias tenham sido selecionadas para serem guardadas nos arquivos.
Os habitantes têm todo o tempo livre para seguirem quaisquer estudos ou atividades que desejarem, uma vez que o computador cuida de tudo mais, mas essa situação não funciona como um elemento impulsionador da sociedade. As pessoas tremem à simples menção dos espaços fora da cidade, uma memória que vem de tempos passados, de histórias que falam de seres alienígenas conhecidos simplesmente como Invasores, que teriam expulsado os seres humanos das estrelas, que haviam conquistado e colonizado com sua tecnologia.
De tempos em tempos, surgem seres humanos conhecidos como os Únicos, com quase nada em comum com os demais habitantes, como se fossem rebeldes especialmente elaborados pelo computador para agitar essa civilização extática. A história ainda apresenta um Único diferente de todos, que resolve explorar o planeta e tentar encontrar outras pessoas, o que leva a conhecimentos importantes sobre o passado da raça humana e sua colonização espacial.
Arthur C. Clarke elaborou uma imagem de poder e longevidade incalculáveis para a humanidade e, ao mesmo tempo, reduz essa imagem à sua insignificância quando comparada a seres de poder imensamente superior. Ao mesmo tempo em que se baseia praticamente apenas na ciência para elaborar sua história, Clarke também apresenta o conceito do Bem e do Mal, em confronto no universo, na figura de dois seres construídos pelos humanos; o primeiro, uma inteligência criada que ficou totalmente fora de controle, louca e destruidora, que começa a demolir o universo; outro, um ser que é pura amizade e carinho, ainda que seja apenas uma criança, que deverá crescer, evoluir e, segundo é dado a entender, irá se encontrar com a outra criação, numa época tão distante que isso nada significará para os humanos, porque provavelmente não mais existirão, ou então já serão outra coisa que não humanos.

No clássico A Longa Tarde da Terra (Hothouse, 1962), de Brian W. Aldiss, sem dúvida entre as histórias mais criativas da ficção científica, não é apresentada uma data exata para os eventos, mas sabe-se que é num futuro tão distante que o eixo de rotação da Terra já foi alterado e a Lua se aproximou.
Originalmente, foi publicado em forma de 5 contos, recebendo o Prêmio Hugo de 1962. Só em 1976 a versão completa foi apresentada. A história situa-se num futuro tão distante que a Terra apresentada já não tem qualquer semelhança com o planeta em que vivemos hoje, mais parecendo um ambiente alienígena.
O excelente texto de abertura relaciona a forma de narrativa com o épico A Epopeia de Gilgamés. Além das características da aventura em si, é ressaltado que A Epopeia de Gilgamés pode ser considerado o primeiro livro de literatura fantástica conhecido, com uma estrutura narrativa centrada na construção paulatina de um herói, ao longo de sua jornada. A Longa Tarde da Terra reproduz essa jornada, com momentos que mais parecem ter saído de uma mitologia, uma vez que os elementos fantásticos sobrepõem-se aos científicos. De fato, muitos críticos deram destaque ao fato de os elementos apresentados no livro terem pouco ou nenhum respaldo científico, esquecendo-se de que, no caso, isso não tem a menor importância. Aldiss apresenta a sua história como uma narrativa mitológica, com tudo o que isso implica.
Apenas como uma informação curiosa, e ridícula, o título original, Hothouse (estufa), foi alterado na edição norte-americana para The Long Afternoon of Earth, porque os editores temiam que o livro fosse colocado na seção de horticultura, nas livrarias. Parece até a história do estudante de arte sendo preso no período da ditadura militar porque tinha um livro sobre Cubismo. Acontece.







Um dos bons livros de John Brunner é A Estrela do Apocalipse (Catch a Fallen Star, 1968), com história igualmente situada num futuro distante, quando o planeta beira a absoluta estagnação. Ainda existem sociedades, mas elas vivem isoladas umas das outras e não têm qualquer desejo de progredir, sem qualquer interesse pelo conhecimento ou novas informações. Basicamente, estão esperando que o tempo da Terra chegue ao fim.
A situação começa a mudar quando um homem se destaca dos demais, querendo mais do que observar as Árvores de História, uma espécie de arquivo do passado, muito acessado pelos demais habitantes, mas que não leva a qualquer realização efetiva, antes servindo como uma espécie de droga, uma forma de entorpecer as pessoas com relação ao seu futuro.
O que esse homem descobre, observando o céu com um telescópio, é que uma estrela está em curso de colisão com nosso Sol, o que deverá ocorrer em 300 anos, acabando de vez com a humanidade. Caberá a ele descobrir informações importantes sobre a humanidade e o futuro que aguarda todas as sociedades do planeta.
Um dos destaques do livro é a elaboração dos detalhes dessa civilização futura, tão distante do que se tem hoje em dia que mais parece a vida de uma sociedade alienígena, um outro mundo. E também apresenta uma visão otimista com relação ao futuro da humanidade, propondo uma solução para o “fim dos tempos”.

A série de livros de Gene Wolfe, O Livro do Novo Sol, abordando a vida na Terra num futuro muito distante, está entre as obras mais importantes da ficção científica e fantástico modernos. Iniciou com A Sombra do Torturador (The Shadow of the Torturer, 1980), seguindo com A Garra do Conciliador (The Claw of the Conciliator, 1981), A Espada do Lictor (The Sword of the Lictor, 1982) e A Cidadela do Autarca (The Citadel of the Autarch, 1983). A série foi complementada com Urth do Novo Sol (The Urth of the New Sun, 1987), e com duas novas séries de livros: The Book of the Long Sun (quatro volumes, 1993-96) e The Book of the Short Sun (três volumes, 1999-2001), estes últimos inéditos no Brasil.

         
         


Não são poucos os críticos e fãs que citam Gene Wolfe como “o” autor da ficção científica, e a série entre as principais criações do gênero. No livro The Ultimate Guide to Science Fiction (1990), de David Pringle, ela é citada como “uma obra-prima, densa, complexa, possivelmente alegórica, uma obra fundamental no gênero Dying Earth”. E a excepcional escritora Ursula K. Le Guin diz que “Wolfe é tão bom que me deixa sem palavras”. E para deixar Le Guin sem palavras é preciso muito, mas muito esforço mesmo.
A história situa-se em Urth, que nada mais é do que uma distorção linguística de Earth, a Terra, num futuro tão distante que o Sol já está esfriando e todo o conhecimento dos tempos atuais já se perdeu ou surge como lendas e mitos. É narrada por Severian, um membro da Ordem dos Torturadores, um dos personagens mais complexos da ficção científica.
As pessoas vivem em cidades gigantescas, numa organização que lembra a da Idade Média, sendo dirigida com rigor pelo Autarca e dividida em classes sociais facilmente identificáveis, em particular as ordens, como a de Severian. Ele narra sua história, gabando-se de sua memória infalível, e ao longo dos acontecimentos ficamos conhecendo os pormenores desse mundo, com animais estranhos e uma flora já modificada, seja pelo tempo, seja por mutações forçadas.
Os livros compõem uma narrativa deslumbrante, interessante do começo ao fim, com um mistério a ser resolvido a cada passo de Severian, ao mesmo tempo em que se percebe, como é comum ocorrer nas histórias de fantasia, o crescimento interior do personagem, aprendendo a conhecer o mundo, as pessoas e a si mesmo. Não é exatamente o herói das fantasias, mas sua capacidade de observação, de penetrar no caráter dos outros e de realizar pesadas autocríticas, assim como a capacidade de criticar até mesmo os dogmas mais elevados de sua Ordem, faz com que ele seja capaz de enfrentar os inúmeros perigos que surgem.