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REPENSANDO RELIGIÕES E MITOLOGIAS

FILMES/VE FC E RELIGIÃO

autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data12/9/2018
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Algumas obras de ficção científica apresentam religiões e mitologias tradicionais da Terra em nova versão, com explicações alternativas para eventos ou com a recriação das mesmas em outros ambientes.

(Foto: FreeImages.com/ Brett Jephson).

Uma das mais interessantes “recriações” de religiões terrestres na ficção científica certamente é a do livro O Senhor da Luz (Lord of Light, 1967), de Roger Zelazny. A recriação, aqui, é a do panteão de deuses hindus em um planeta alienígena para o qual viajaram aqueles que se acredita serem os últimos habitantes da Terra.

(Capa: Howard Bernstein/ Doubleday).

Os terrestres chegaram a um planeta que já era habitado e, para sobreviver aos nativos hostis à sua presença, utilizaram tecnologia muito avançada para criar um ambiente propício. Assim, com tratamentos químicos e eletrônicos, conseguiram aumentar suas capacidades físicas e psíquicas, passando a possuir atributos como os dos deuses hindus, além de serem capazes de transferir suas almas, ou atman, para novos corpos, como se reencarnassem em novos avatares.
Eles se tornam imortais e desenvolvem um sistema de castas como o que havia na Índia terrestre, além de dominarem as raças nativas, que consideram como demônios. E, mais do que poderes e características, também assumem os nomes das divindades hindus.

                                                                                                                      (Capa: Fred Gambino/ Millennium-Orion).

Um dos personagens centrais, Sam, está em oposição aos “deuses”, e é visto como o Buda, o Iluminado, ou Siddhartha. Ele já havia morrido anteriormente quando combateu os deuses e perdeu, com sua alma sendo transferida para a grande nuvem magnética que circunda o planeta. Quando é finalmente trazido para um novo corpo por Yama, Senhor da Morte, ele passa a ser oficialmente um avatar de Vishnu, cujos ensinamentos foram mal interpretados por alguns de seus seguidores. Segundo o próprio Sam, ele foi um dos primeiros a ir para aquele mundo e se fixar no planeta. E ele consegue conversar com os demônios, os Rakasha, vistos como criaturas maléficas com grandes poderes e vida muito longa, além de terem a capacidade de assumir temporariamente qualquer forma.

(Capa: Steven Stone/ Eos-HarperCollins).

Na verdade, eles são os habitantes originais do planeta e são seres de energia; segundo a tradição, em outros tempos eles também possuíram corpos e habitaram em cidades, mas descobriram uma forma de se perpetuarem como campos magnéticos estáveis, abandonando seus corpos para viverem eternamente como turbilhões de energia. Por muito tempo, vagaram sem objetivo pelo mundo, mas a chegada dos humanos despertou-os de sua letargia e eles revestiram as formas dos pesadelos dos humanos, a fim de atormentarem-nos.
É interessante notar a forma como Roger Zelazny introduz elementos de ficção científica aos poucos, em uma história que, ao princípio, parecia ser uma narrativa de fantasia. Assim, ele vai trazendo o material mítico e religioso para uma dimensão mais real, palpável e cientificamente explicável – claro, cientificamente do ponto de vista da narrativa de ficção.
Não é exatamente uma narrativa fácil de ser seguida; além de abranger um largo período de tempo, é repleto das idas e vindas próprias da mitologia hindu, com deuses aliando-se uns aos outros para, em seguida, seguir em outra direção. Ainda assim, é um livro sensacional.

 

(Capa: Wolfgang Rudelius/ S. Fischer).

Uma impressionante recriação, ou reinterpretação, de antigas de antigas religiões e mitologias humanas na ficção científica pode ser vista na série Canopus em Argos, de Doris Lessing, iniciada com Shikasta (Shikasta, 1979. Ler também o ensaio O Bem e o Mal na Literatura e no Cinema). Além de rever momentos bíblicos, Doris Lessing também passeou por temas desenvolvidos pelos cultos, seitas e religiões da chamada Nova Era, além de tocar em pontos fundamentais dos estudos ligados à suposta presença de seres alienígenas no passado longínquo da Terra. Na verdade, o tema “deuses extraterrestres” – que se tornou comum e popular após a publicação de Eram os Deuses Astronautas? (Erinnerungen an die Zukunft: Ungelöste Rätsel der Vergangenheit, 1968), de Erich von Däniken – pode ser considerado o ponto central da trama, uma vez que o livro propõe que ao longo de toda a história do planeta Terra – conhecido como Rohanda e, depois, como Shikasta – seres extraterrestres estiveram agindo por aqui, alguns a favor de nosso desenvolvimento, outros apenas como usurpadores ou aproveitadores de uma situação desfavorável em que o planeta se encontrou após ocorrer um desalinhamento cósmico que privou o planeta do fluxo de uma energia renovadora. Os extraterrestres envolvidos são os de Canopus, de Sirius e de Puttiora.
A relação com a religião já começa a ser apresentada pela forma como os enviados de Canopus chegam ao planeta: além de utilizarem naves, também podem chegar por meio de passagens dimensionais; ou ainda podem nascer de seres humanos cuidadosamente escolhidos, desenvolvendo-se normalmente como humanos até o momento em que possam alcançar posições importantes na sociedade e, assim, cumprirem suas missões no planeta, quase sempre relacionados com a intenção de fazer com que a humanidade retome caminhos esquecidos devido à atuação do Mal entre nós, representado tanto pelo desalinhamento cósmico como pela presença dos enviados de Shammat, um planeta rebelde pertencente ao Império de Puttiora. Assim, esses enviados nascidos no planeta podem ser vistos como os avatares citados em religiões como a hindu, ou mesmo a cristã.

                                                                                                                                            (Capa: Catherine Denvir e George Snow/ Flamingo).

Outra aproximação com a religião está no conceito de que existem diversos níveis de existência dispostos em camadas concêntricas ao redor do planeta, seis ao todo, pela qual alguns emissários chegam até nós. Lembra certas noções a respeito da vida após a morte, tanto de religiões orientais quanto de religiões mais recentes, como o Espiritismo e algumas posturas da Nova Era.
Segundo um dos relatórios de emissários, a natureza da Zona Seis, a mais próxima da Terra, “resume-se em uma poderosa emoção – nostalgia, como eles chamam – que significa uma saudade do que nunca existiu, pelo menos na forma imaginada. Quimeras, fantasmas, aparições, os semicriados e os insatisfeitos vagam nessa zona (...)”. As demais zonas são mais agradáveis e habitadas por aqueles que abandonaram e ultrapassaram as tensões contraditórias de Shikasta/Terra, e estão fora do alcance dos miasmas da Zona Seis.
Lessing faz referência à existência dos gigantes, citados tanto na Bíblia quanto em diversas mitologias do planeta. Aqui, eles são apresentados como uma raça introduzida no planeta no Primeiro Tempo, nos primórdios da vida na Terra, na época batizada de Rohanda, que significa “fértil, cheio de vida”. A ideia dos canopianos era introduzir os colonos, os Gigantes, para causar alterações favoráveis, para ensinar a espécie já existente no planeta, que seriam os humanos primitivos. Nessa época, os humanos podiam viver até 500 anos, enquanto os Gigantes, que, em seu planeta natal, viviam de 12 a 15 mil anos, em Rohanda chegavam a viver de 4 a 5 mil anos. Mais uma vez, isso lembra as narrativas antigas, inclusive as bíblicas, a respeito de pessoas que viviam centenas de anos.
Com o desenvolvimento de Rohanda, prepara-se para o momento de União que deverá ser feita com Canopus, o que significa “o fluxo de pensamentos, ideias, informação, crescimento entre planetas da nossa Galáxia”. No entanto, as lendas e histórias contadas pelos nativos falam a respeito de “espiões” surgidos entre eles, seres com um comportamento estranho que indica a presença da “Doença Degenerativa” que caracteriza a presença de Shammat, um planeta que só tem sucesso onde existe o desequilíbrio, o desalento. De qualquer modo, Rohanda passa por um período de cerca de 10 mil anos em União, em equilíbrio, que é então rompido por um desastre – palavra de Lessing apresenta como significando “des-astre”, ou seja, uma “falha nas estrelas”. Shammat aproveita-se do enfraquecimento da conexão entre Rohanda e Canopus para interferir e sugar a força do planeta, que, então, tem seu nome modificado para Shikasta, significando “a magoada, a danificada, a ferida”. Mesmo não podendo salvar o planeta desse momento, Canopus deve mantê-lo o mais preparado possível para o momento em que nova mudança se processe nas forças cósmicas, o que deverá ocorrer em milhares de anos.

(Capa: Paul Gamarello/ Alfred A. Knopf).

Estamos diante do conceito cristão básico da Queda e do Dia do Julgamento. A Terra antes do “desastre” lembra a noção do Paraíso, o Éden, com humanos, gigantes e animais convivendo pacificamente. A ideia é a mesma: uma queda, quando sob a ação de Shammat; uma evolução, quando sob influência da União. Antes da queda, as cidades eram construídas segundo planos determinados, com linhas, círculos e combinações específicas, que também valiam para os outros planetas e que eram a base para os sistemas de transmissão da União entre Canopus e Rohanda. Os sinais místicos e esotéricos envolvendo linhas e círculos traçados com precisão são uma constante nas religiões.
Quando ocorre a quebra da União, Canopus decide retirar os gigantes, que já estavam sentindo os efeitos da Doença Degenerativa. A dor e as doenças se instalam nas cidades, que passam a vibrar em desarmonia. O enviado de Canopus e principal narrador dos eventos, Johor, surge então como a única pessoa consciente do planeta, apesar de ele próprio sentir a ação do Mal. Sob sua orientação, as pessoas abandonam as cidades, fugindo da dor intensa que elas lhes causam; mas aqueles que sentiram suas emanações durante mais tempo sentiam-se ansiosos por senti-las novamente. Os humanos passam a viver em acampamentos fora das cidades, esquecidos de sua vida anterior, de seu período de tranquilidade, lembrando-se vagamente dos gigantes, agora identificados como deuses, que os tinham ensinado a fazer tudo o que sabiam e que iriam voltar algum dia. A partida dos gigantes nas naves cristalinas de Canopus permanece como uma lembrança tênue, surgindo em cantos e lendas com inclinação religiosa.
Também é citada a substância conhecida como SOWF, “a substância do sentimento de comunhão”, ou o “ar” rico e saudável com que Canopus alimentava Shikasta; era o conhecimento do SOWF que fazia os humanos diferentes dos outros animais.
A narrativa estende-se até os tempos atuais, quando Shikasta entra no período conhecido como os Últimos Dias, após o século da Destruição, que, é claro, é o século 20. O conceito aqui é que a Segunda Guerra Mundial nunca acabou, estendendo-se até o momento da destruição final, ou a Terceira Guerra Mundial, quando apenas um por cento da população do planeta sobrevive. Em menor número, a humanidade poderá novamente compartilhar o SOWF, que antes não era suficiente para todos, e tornar-se novamente saudável. Os sobreviventes, tendo acesso à substância, perguntam-se o que haviam feito, como aquilo havia sido possível.
A abordagem a mitologias do planeta continua quando a história faz referência ao surgimento de uma nova raça no norte, conhecida localmente como “pequeninos”, provenientes de experiências realizadas por Sirius no hemisfério sul, e que migraram quando as calotas polares congelaram e deixaram terras secas ligando os continentes. “São de vários tipos”, diz o texto, “entroncados, pesados e fisicamente muito fortes, ou esbeltos, bem feitos e belos (...)”. Os primeiros geralmente habitam cavernas e subterrâneos, sendo hábeis em mineração; os outros, mais delicados, vivem dentro e com a vegetação, conhecem o uso de plantas, são adaptados à água e conhecem suas propriedades; ou são criaturas do fogo. A referência é, evidentemente, aos anões, elfos, duendes e fadas, além de outros seres lendários, representantes dos quatro elementos. É explicado, também, que essas raças já se transferiram para as zonas Um e Dois, o que explicaria sua existência nas lendas e mitos de várias culturas, além do fato de, hoje em dia, algumas pessoas afirmarem que podem entrar em contato com seres semelhantes por meio de uma capacidade psíquica fora do comum.
Outra referência aos mitos da Terra fala sobre o período em que ocorreu uma inclinação do eixo do planeta, provocando terremotos e enchentes, assim como a submersão de várias ilhas e de uma “cultura promissora”, que vinha sendo preparada por Canopus, à qual chamavam de Adalanterland. Lembra as histórias sobre a Atlântida.
Os relatórios de Canopus citam missões que tinham como objetivo regular as uniões entre as raças, o que foi feito dirigindo-se especificamente às mulheres. Deixaram-nas pensar que “seres sagrados” tinham vindo das “regiões mais elevadas” e, assim, realizaram o cruzamento com homens trazidos de outros planetas. Um trecho do texto diz: “Fizemos questão de que as duas mulheres observassem a partida de nossa espaçonave, pois falariam ao seu povo sobre os carros celestiais”. Na época à qual Johor se refere, essa era a única forma do povo do planeta entender e receber as mensagens, acatando-as por temor e respeito. A Bíblia e outros textos religiosos do Oriente Médio e Ásia, em particular da Índia, referem-se aos “cruzamentos” entre seres angelicais e mulheres terrestres, assim como aos carros celestiais, carros de fogo, os vimanas dos hindus, etc.
As farsas elaboradas pelos enviados de Canopus sempre têm como objetivo manter a humanidade o mais afastada possível da influência poderosa de Shammat. É assim com o Dilúvio, quando um enviado conversa com o chefe da nova raça aperfeiçoada pelos cruzamentos (que é Noé) sobre o que está para acontecer e, depois, faz com que ele acredite que o dilúvio foi um castigo. Há uma referência à narrativa bíblica sobre as cidades de Sodoma e Gomorra, nas quais o mal já estava em estado adiantado e naves espaciais as destroem, transformando os locais em desertos.
Esse período da história é conhecido como “Período dos Acauteladores Públicos”, no qual os enviados de Canopus propiciam, por meio de seus avisos, o surgimento de uma série de religiões baseadas em suas vidas e em suas palavras.
No período imediatamente anterior à Terceira Guerra Mundial, o enviado Johor deverá nascer em uma família que ele escolheu como sendo a ideal para ele realizar sua tarefa. Ele entra na Zona Seis, a partir da qual deverá entrar em Shikasta pelo nascimento. Os gigantes já estão tão fracos que aparecem apenas por alguns instantes, transparente, e depois somem. Johor explica que “circundando as fronteiras de Shikasta, em um certo nível, agrupam-se fantasmas ávidos”; são “as almas que não conseguiram desfazer os laços que os ligavam a Shikasta quando a deixaram. Muitas vezes nem sabem que a deixaram”, ou desejam retornar a ela sem entender como saíram ou como poderão entrar. Esses “fantasmas” agrupam-se em qualquer ponto de Shikasta, sendo que algumas cenas, locais e ocasiões os atraem irresistivelmente, principalmente as cenas violentas. Muitas vezes, ficam ao lado dos orgulhoso e amantes do poder, tentando compartilhar as coisas que eles almejam; ou são vingativos e amargos. E entre essas multidões fascinadas de espectros ainda existem seres horríveis, os íncubos e súcubos, as diversas variedades de vampiros, aqueles que aprenderam a se alimentar com as energias de Shikasta.
Nos momentos próximos do fim, a influência perniciosa de Shammat cresce, mas o próprio Mal já estava dividido, ele mesmo sofrendo as influências do planeta, sofrendo a influência do Mal que ajudaram a causar e do qual se alimentavam. Naves de Sirius e Canopus patrulhavam os céus de Shikasta afastando as máquinas de Shammat, e grande número de naves de outros planetas vinham realizar observações, esperando o momento em que o planeta seria livrado do Mal e restabeleceria o fluxo de SOWF e a União com Canopus.
A série Canopus em Argos teve sequência com os livros: Os Casamentos Entre as Zonas 3,4 e 5 (The Marriages Between Zones Three, Four and Five, 1980); As Experiências de Sirius (The Sirian Experiments, 1980); O Planeta 8 – Operação Salvamento (The Making of the Representative for Planet 8, 1982); Agentes Sentimentais no Império Volyen (The Sentimental Agents in the Volyen Empire, 1983).


Veja também:

A GUERRA DOS DEUSES (The Book of Ptath, 1947)
A.E. Van Vogt.

MARÉ DE SANGUE (Bloodtide, 1999)
Melvin Burgess.

CANTIGA DE SANGUE (Bloodsong, 2005)
Melvin Burgess.

MARIONETAS CÓSMICAS (The Cosmic Puppets, 1957)
Philip K. Dick.
(Ver também o ensaio O Bem e o Mal na Literatura e no Cinema)

POSSUÍDA PELO DIABO
(Ver a matéria Os Primeiros Extraterrestres)

PRÍNCIPE DAS SOMBRAS
(Ver a matéria Demônios Ancestrais)

MATRIX
(Ver as matérias Matrix e o Mundo de Verdade e Siga o Coelho)