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SEXO, DROGAS E FICÇÃO CIENTÍFICA

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autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data23/2/2016
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O livro A Vida de Philip K. Dick aborda as obras e as experiências místicas de um dos maiores autores do gênero.
Além das inúmeras informações e suposições interessantes do livro A Vida de Philip K. Dick – O homem que lembrava o futuro, também devemos considerar que ele foi escrito por Anthony Peake, um sujeito diretamente envolvido nas pesquisas sobre as experiências de quase morte. Além, é claro, da apresentação do escritor e roteirista Lúcio Manfredi, um dos nomes importantes do universo da ficção científica brasileira. É muito legal ler Manfredi escrever: “Tornou-se um clichê dizer que, enquanto a ficção científica estava preocupada com impérios galácticos, espaçonaves e invasões alienígenas, a obra de Philip K. Dick inovou ao tomar como tema as grandes questões filosóficas e religiosas, como a natureza da realidade, o que é o ser e o que distingue um humano de uma máquina. Esse tipo de bobagem, claro, só pode vir da boca de críticos e jornalistas que não têm a menor familiaridade com o gênero. Não porque esses não fossem os temas que obcecavam PKD, mas porque eles já eram moeda corrente, se não desde o início da ficção científica, pelo menos desde a Golden Age dos anos 1940 e 1950, com autores como Frederic Brown, Alfred Bester, Robert A. Heinlein e, principalmente, A.E. Van Vogt, o principal precursor de Philip K. Dick, que considerava o autor canadense, que escreveu obras como O Mundo de Zero-A, como sua principal influência dentro do gênero”.
Quem conhece e estuda a ficção científica – como é o caso de Lúcio Manfredi, entre outros especialistas em nosso país – reconhece essa tendência que parte da crítica e jornalistas tem de tentar “tirar” o maiores autores do gênero do próprio gênero. Quando uma escritora prêmio Nobel como Doris Lessing escreve livros de ficção científica, eles são apresentados como pertencendo a alguma categoria “além da ficção científica”.
Como Philip K. Dick foi ganhando um status cada vez maior entre críticos em geral, nada mais comum do que atribuir a ele algo que não fez, ou tentar colocá-lo à parte do gênero.
Mas isso não é possível.

Manfredi também diz que existe uma diferença entre os livros de PKD e outros da literatura fantástica tradicional. Nesta última, “(...) o estranhamento se encerra quando chegamos ao último parágrafo do livro – o que muitas vezes faz com que ela seja utilizada como um instrumento para reafirmar a suposta estabilidade do que costumamos considerar real”. Em PKD, “(...) a sensação de irrealidade vaza para fora das páginas, continua nos obsedando mesmo quando fechamos o livro, nos persegue em cada reentrância de nossa casa, de nosso trabalho, de nossa cabeça”.
E é isso mesmo. Eu ainda me lembro da impressão que Ubik – o primeiro livro dele com o qual tive contato – teve em mim e em amigos que também o leram, lá pelos anos 1980, e nossas tentativas de descobrir o que havia por trás da nossa realidade aparente.
Ninguém consegue saber com exatidão de onde vieram as ideias do autor, uma vez que mesmo antes de tomar drogas ele já tinha visões e passava por estranhos episódios que marcaram sua vida e sua obra, com o ponto alto nos eventos de 1974, que o livro de Anthony Peake aborda em profundidade.
E Peake não apenas faz uma análise, ou propõe alguns caminhos para se entender PKD, mas o faz acompanhando sua vida e sua obra com muitos detalhes e informações interessantes.
Não é possível embarcar em todas as propostas apresentadas por Anthony Peake, e em alguns momentos ele até mesmo se torna tedioso. Mas, ainda assim, o livro é um trabalho delicioso, em especial para quem quer conhecer melhor as experiências de PKD.

A VIDA DE PHILIP K. DICK – O HOMEM QUE LEMBRAVA O FUTURO
Anthony Peake
Editora Seoman
312 páginas