Crédito: Nanne Tiggelman/ Pixabay.
Procurar encontrar definições do que seja a ficção científica e, por consequência, tentar classificar as obras em segmentos específicos do gênero, parece ser uma das principais diversões, tanto de escritores quanto de fãs. É uma atividade que, hoje em dia, muita gente já considera ultrapassada e inútil, e talvez realmente o seja, mas que continua capaz de movimentar as pessoas e, em alguns casos, até mesmo exaltar os ânimos.
E, discussão ultrapassada ou não, de fato parece que as definições mais conservadoras ou ortodoxas limitam demasiadamente o gênero, nesse sentido agindo mais contra do que a seu favor. Entendo que, mesmo que não haja a necessidade de se procurar definir novamente a literatura de FC – entre outras razões porque seria apenas mais uma definição entre centenas – é extremamente proveitoso para o gênero que se procure uma discussão em que novas possibilidades de interpretação e leitura se apresentem.
Alguns dos melhores especialistas em ficção científica já se estenderam sobre o assunto; John Clute, Brian Stableford e Peter Nicholls dedicaram um espaço considerável ao tema na excelente The Science Fiction Encyclopedia; o primeiro capítulo do volumoso livro A Verdadeira História da Ficção Científica, de Adam Roberts, é “Definições”; inúmeros escritores apresentaram suas definições para a ficção científica.
Isaac Asimov. Foto: Phillip Leonian/ New York World-Telegram & Sun/ United States Library of Congress (antes de 1959).
Uma das respostas às iniciativas no sentido de se definir a FC foi a de Isaac Asimov, ao afirmar que as definições do gênero serão provavelmente tantas quantos foram os definidores. É verdade que essa é apenas uma das visões de Asimov sobre o assunto, e em outros momentos ele foi bem mais restritivo, o que nos dá a impressão de que a frase foi elaborada em sentido pejorativo. Seja como for, é um conceito próximo ao apresentado pelo também escritor Norman Spinrad, que disse que “Ficção científica é qualquer coisa publicada como ficção científica”. Por outro lado, a frase de Spinrad me faz pensar nas obras não publicadas como ficção científica, mas que o são, e posso citar como exemplos alguns livros de Doris Lessing ou de Margaret Atwood, que, aliás, sempre insistiu em afirmar que O Conto da Aia (originalmente publicado no Brasil como A História da Aia) não é ficção científica, com o que muitos dos definidores discordam.
Capa de H. R. Van Dongen (Science Fiction Publications, Inc., 1952).
Os citados Stableford, Clute e Nicholls disseram que “Infelizmente, as definições mais claras (ou mais agressivas) são frequentemente as menos definitivas, embora muitos céticos tenham sido atraídos pela citação de Damon Knight”, querendo dizer que a ficção científica é aquilo que dizemos ser. É uma opinião próxima à de Spinrad, e foi publicada na revista Science Fiction Adventures, na edição de novembro de 1952. Knight iniciava uma seção de crítica a livros do gênero, The Dissecting Table, explicando os critérios que utilizou. O texto completo dizia “Que o termo ‘ficção científica’ é um nome impróprio, e que tentar fazer com que dois entusiastas concordem com uma definição só leva a brigas; que rótulos melhores foram criados (a sugestão de Heinlein, ‘ficção especulativa’, é a melhor, eu acho, mas estamos presos a esta); e que não nos fará mal nenhum se lembrarmos que, como ‘The Saturday Evening Post’, ele significa aquilo que apontamos quando o dizemos”.
Os autores citados em The Science Fiction Encyclopedia dizem que as definições de Knight e Spinrad apresentam um ponto a ser considerado seriamente: seja lá o que for a FC, ela certamente é uma categoria de publicação e “(...) no mundo real, isso é de importância mais pragmática do que qualquer coisa que os teóricos tenham a dizer a respeito”. E eles continuam lembrando que, por outro lado, “(...) o rótulo FC em um livro é totalmente sujeito aos caprichos dos editores, e o rótulo certamente apareceu em alguns livros bem improváveis. Uma complicação adicional surge porque alguns escritores lutam muito para evitar o rótulo, talvez sentindo que possa afetar suas vendas e reputações de forma prejudicial”. E eles citam o caso de Margaret Atwood, que comentamos acima, e de Kurt Vonnegut Jr. “Os editores aplicam medidas de precaução semelhantes a potenciais best-sellers”, eles dizem, que raramente são rotulados como ficção científica, mesmo quando é exatamente isso que eles sejam. E, só para lembrar, a série Canopus em Argos, de Doris Lessing, iniciada com Shikasta, foi apresentada como “ficção espacial” no Brasil (mais sobre o livro e outros do gênero no ensaio O Bem e o Mal na Literatura e no Cinema). Entende-se que um livro rotulado como ficção científica, mesmo quando tenha boas vendas, raramente entra na classe dos mais vendidos.
Alguns podem considerar esse tipo de definições como sendo exageradas, mas de alguma forma elas se aproximam bastante da verdade. E, de certa forma, essa posição pode ser estendida às classificações das obras, uma vez que as definições é que irão determinar o rumo que as classificações vão seguir. Os definidores e classificadores têm inclinações diferentes, colocando uma mesma obra às vezes no campo da fantasia, outras no campo do terror ou fantástico e, por vezes, no da ficção científica.
Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Julia Phillips and Michael Phillips Productions/ EMI Films).
Um exemplo claro de diferenças de ponto de vista dos definidores é o fato envolvendo o filme Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977), de Steven Spielberg. Na época da estreia do filme, o escritor Isaac Asimov afirmou que o filme se tratava de uma imensa bobagem e que não se poderia jamais afirmar que fosse um filme de ficção científica, por não ter nada de científico e ser péssima ficção. Comprou uma bela briga com Spielberg e com boa parte dos fãs.
Arthur C. Clarke. Foto: Mamyjomarash/ Wikipedia (2005).
Já o igualmente famoso escritor Arthur C. Clarke, em uma listagem realizada especialmente para a The Encyclopedia of Science Fiction Movies, de Phil Hardy, classificou o filme entre os 10 melhores da FC de todos os tempos. Mais do que isso, incluiu King Kong em sua lista, um filme que o próprio autor não incluiu em sua enciclopédia. Nessa mesma enciclopédia, o renomado escritor e crítico de FC, Brian Aldiss, cita o filme O Ano Passado em Marienbad (L'année dernière à Marienbad, 1961), de Alain Resnais, entre os 10 melhores da FC; é outro filme que não está listado na enciclopédia e raramente é mencionado por alguém como pertencente à FC. E o que ressalta o caráter subjetivo das definições é o fato de que tanto Arthur C. Clarke quanto Isaac Asimov geralmente serem apresentados como pertencendo à mesma classificação “hard” na literatura de FC.
Essas classificações de obras em um ou outro gênero não ocorrem por acaso e parece que são fruto muito mais de diferenças na forma como cada um define a ficção científica do que de diferenças na estrutura interna das obras. As definições mais amplas, mais abertas, podem incluir O Ano Passado em Marienbad, enquanto que aquelas mais restritivas não aceitam sequer Contatos Imediatos. Ainda que a qualificação “péssima ficção” proposta por Asimov possa ser entendida e discutida enquanto visão crítica, a afirmação de não ter “nada de científico”, além de ser discutível não tem qualquer relação com a classificação da obra, uma vez que a relação do gênero literário conhecido como ficção científica com a ciência propriamente dita – ou, pelo menos, com o que se considera ciência ortodoxa – nem sempre é elemento essencial na elaboração das obras.
Crédito: Gordon Taylor/ Pixabay.
A presença da ciência nas histórias não é um fator determinante para a classificação ou definição, se é que algum momento o foi. Ao falar sobre o tema de forma mais restritiva, como falamos antes, Asimov escreveu: “Existe um ingrediente extra, exigido pela ficção científica, que faz com que as virtudes literárias e dramáticas não sejam suficientes, por si mesmas. Cumpre haver, além disso, certos sinais de que o autor entende de ciência”. Segundo esse ponto de vista, qualquer obra com enredo situado no futuro e, portanto, lidando com uma tecnologia e uma ciência mais avançada (ou inexistente, nos casos das destruições planetárias, viagens no tempo e tantos outros temas), precisaria ser escrita por alguém com conhecimento científico para que pudesse ser considerada FC. Parece mais uma regra para se pertencer a um clube ou um grupo seleto e escolhido a dedo, o que é um absurdo. É nesse sentido que me parece que uma definição conservadora pode ser desfavorável à FC. Essa postura certamente afastaria definitivamente da categoria FC alguns escritores e obras bem conhecidas, além de não conferir ao gênero algumas de suas mais autênticas qualidades: a capacidade de imaginação e especulação.
Muitos autores sem conhecimentos científicos gostam de pesquisar na área, mas isso nem sempre acontece. Especular sobre uma situação hipotética, em um futuro ou universo qualquer, é uma prerrogativa da imaginação do autor. O próprio Asimov reconhece a dificuldade em delimitar o gênero, chegando a entender que a FC e a fantasia poderiam ser reunidas sob o nome de ficção surrealista, e que essa dificuldade em se encontrar duas definições iguais constitui, na verdade, uma prova de riqueza do gênero. Ele separa a FC da fantasia dizendo que “(...) os acontecimentos suprarreais da história, na ficção científica, podem ser concebivelmente derivados do nosso próprio meio social, mediante adequadas mudanças ao nível da ciência e da tecnologia”. É uma proposta bem mais aberta do que a citada anteriormente, mas ainda assim parece insuficiente.
Estamos falando de literatura, de fantasia e do fantástico, e a ciência funciona na FC como um dos elementos a serem considerados, e não como a base dela. Quando é apresentada como uma das formas de se tentar entender o presente e o futuro, ou os possíveis futuros, a literatura pode considerar a ciência. Ciência e tecnologia são a base de quase tudo o que se faz hoje em dia, mas não são tudo. Existem temas que ultrapassam em significação a simples existência da ciência e tecnologia nas histórias de FC. O que ocorre é que os definidores se deixam levar pelo próprio termo “ficção científica” – um batismo quase que casual para um gênero literário, e hoje praticamente impossível de ser modificado, no mínimo por questões de mercado. Léo Godoy Otero observou essa questão, em Introdução a Uma História da Ficção Científica, e escreveu: “Ciência e arte serão sempre divergentes, no campo do domínio da realidade, o que proíbe comparações muito estreitas entre si. Não obstante, sob amplo ângulo filosófico, comum a ambas será o desvendar de novas facetas da realidade, clareando o obscuro, traduzindo o ininteligível”.
Capa de Frank R. Paul (Experimenter Publishing Company, 1926).
Na já citada The Science Fiction Encyclopedia é possível perceber como as primeiras definições do gênero estavam distantes das discussões mais recentes. John Clute, Brian Stableford e Peter Nicholls lembram que aquela que deve ter sido a primeira definição do gênero foi apresentada por Hugo Gernsback, exatamente o editor que inventou o termo, então conhecido como “scientifiction”, que ele apresentou no primeiro número da revista Amazing Stories, em abril de 1926, da seguinte forma: “Por ‘scientifiction’ eu quero dizer o tipo de histórias de Jules Verne, H.G. Wells e Edgar Allan Poe – um romance encantador misturado com fatos científicos e visão profética. (...) Esses contos maravilhosos não trazem apenas leitura imensamente interessante – eles também são instrutivos. Eles fornecem conhecimento (...) de uma forma palatável. (...) Novas invenções apresentadas para nós na ‘scientifiction’ de hoje não são de jeito nenhum impossíveis de se realizarem amanhã. Muitas grandes histórias destinadas a serem de interesse histórico ainda estão para serem escritas. (...) A posteridade vai apontar para elas como tendo anunciado um novo caminho, não apenas na literatura e na ficção, mas também no progresso”.
Capa de Frank R. Paul (Stellar Publishing Corporation, 1929).
O termo foi modificado e passou a ser utilizado como “science fiction”, sendo que uma das primeiras vezes que surgiu foi no editorial, mais uma vez de Hugo Gernsback, da revista Science Wonder Stories, em junho de 1929, tornando-se comum ao longo dos anos 1930. Com o surgimento de diversas outras revistas e escritores abordando as histórias desse tipo, também começaram a surgir mais discussões a respeito do gênero.
Também em The Science Fiction Encyclopedia, os autores dizem que “Essa noção da FC como uma literatura didática e progressiva, com uma base sólida no conhecimento contemporâneo, foi logo revista quando outros editores abandonaram algumas das pretensões de Gernsback, mas a ênfase na ciência permaneceu”. Foi assim que uma nova tentativa de definição surgiu com John W. Campbell Jr., um dos editores mais conhecidos na área, responsável pela revista Astounding Stories (a partir de 1938, Astounding Science Fiction), que propôs que a FC deveria ser considerada como uma mídia literária próxima da própria ciência, explicando que “A metodologia científica envolve a proposição de que uma teoria bem construída não apenas irá explicar fenômenos conhecidos, mas também irá prever fenômenos novos e ainda não descobertos. A ficção científica tenta fazer o mesmo – e faz um relatório, na forma de uma história, de como os resultados parecem quando aplicados não apenas às máquinas, mas também à sociedade humana”.
Capa de Ronald Clyne (Argus Books).
Essa ênfase no papel da ciência prosseguiu com o que Brian Stableford e seus colegas consideraram o primeiro grande estudo sobre as obras antepassadas do gênero, apresentado em Pilgrims Through Space and Time (1947), do professor de literatura J. O. Bailey, onde ele dizia que “Uma peça de ficção científica é uma narrativa de uma invenção ou descoberta imaginária nas ciências naturais e as aventuras e experiências consequentes. (...) Ela deve ser uma descoberta científica – algo que o autor pelo menos racionalize como possível ciência”.
Outras tentativas de definições surgiram, inclusive a já citada do escritor Robert A. Heinlein, um dos mais conhecidos do gênero, que propôs a alteração do nome para “ficção especulativa”. A escritora Judith Merril utilizou o termo em sua definição de FC, entendendo que ele abrangia histórias cujo objetivo era explorar, descobrir e aprender algo sobre a natureza do universo, do homem ou da realidade. E explicou que utilizava o termo “ficção especulativa” especificamente para descrever o modo que faz uso do método científico tradicional – observação, hipótese, experimento – para examinar alguma aproximação postulada da realidade, introduzindo uma série de mudanças imaginárias ou inventivas no campo comum dos “fatos conhecidos”, criando um ambiente no qual as respostas e percepções dos personagens vão revelar algo a respeito das invenções, dos personagens, ou de ambos. No entanto, como já sabemos, o termo “ficção especulativa” não pegou, e a ficção científica continuou sendo conhecida pelo nome original.
A ficção científica possui inúmeras relações com a literatura fantástica e, consequentemente, com a fantasia e o terror. Nos períodos iniciais da FC moderna, talvez até fosse mais fácil fazer a separação entre as categorias do fantástico em FC, fantasia e terror, mas essa tarefa tem se tornado cada vez mais complicada. Parece haver uma tendência crescente à união de temas, por parte de um número cada vez maior de autores.
Apesar de obedecerem certas regras em comum, em cada uma das categorias existem pequenas diferenças estruturais internas, diferenças de convenções, que vêm sendo transformadas em novas convenções e formas de narrar, de modo a dar preferência ao fantástico como um todo, e não a uma das categorias em particular. Existem inúmeros exemplos desse tipo de literatura (e de cinema), ainda que algumas das mais importantes definições de fantástico as colocariam em uma espécie de limbo; nem fantástico, nem FC. Não me parece que seja nenhum exagero afirmar que a FC seja, juntamente com o terror, a forma mais conhecida do fantástico dos séculos 20 e 21.
Brian Stableford, John Clute e Peter Nicholls destacaram a mudança de rumo pela qual o gênero passou a partir dos anos 1960, em particular com o que ficou conhecido como a “new wave” da ficção científica, “(...) uma nova linha de pensamento, originária em grande parte do Reino Unido”, que viu a FC sendo apresentada como uma literatura global com raízes no século 19, e não apenas um fenômeno puramente dos EUA criado nas revistas pulp a partir dos anos 1920. E essa nova forma de escrever ficção científica minimizava o componente de ciência e tecnologia.
Brian Aldiss. Foto: Szymon Sokol/ Wikimedia (2005).
O escritor inglês Brian W. Aldiss foi um dos que começou a recuar a origem do gênero, inclusive rejeitando o termo “ficção científica”, dizendo que a FC não é escrita para cientistas mais do que histórias de fantasmas são escritas para fantasmas. Em 1973, Aldiss publicou seu estudo Billion Year Spree: The True History of Science Fiction (em 1986 revisto como Trillion Year Spree: The History of Science Fiction, com David Wingrove), no qual disse que a ficção científica é a procura por uma definição do homem e de seu status no universo que permanecerá em nosso avançado, mas confuso, estado de conhecimento (ciência), e tem suas origens nos romances góticos ou pós-góticos. Foi assim que ele definiu o livro Frankenstein (1818), de Mary Shelley, como a vanguarda dessa tradição. John Clute disse que, ao apresentar essa noção, Aldiss “(...) efetivamente (e influentemente) argumentou que a FC era uma criança gerada no romance gótico pela revolução industrial e científica do início do século 19”.

Billion Year Spree (Capa de David November/ Doubleday, 1973); Trillion Year Spree (Capa de Peter Letts/ Gollancz, 1986).
Pontos de vista posteriores chegaram a recuar a origem do gênero ainda mais, e um dos estudos mais profundos a esse respeito foi apresentado por Adam Roberts em A Verdadeira História da Ficção Científica (The History of Science Fiction, 2016. Editora Seoman), e vale a pena conhecer. Roberts, assim como Peter Nicholls, cita a definição de Darko Suvin, o acadêmico e crítico de ficção científica que, segundo Nicholls, foi um dos principais responsáveis pelo interesse acadêmico pela FC nos Estados Unidos, ainda que muitas vezes seus textos tenham sido repudiados por leitores do gênero por serem muito difíceis. Sua definição dá uma ideia dessa dificuldade, ao afirmar que a FC é “(...) um gênero literário ou construto verbal cujas condições necessárias e suficientes são a presença e interação de distanciamento e cognição, e cujo dispositivo principal é uma moldura imaginativa alternativa ao ambiente empírico do autor”.
Nicholls diz que foi Suvin que introduziu a palavra “cognição” na crítica de FC, assim como também criou o termo “novum” que, segundo Roberts, é “(...) o dispositivo, artefato ou premissa ficcionais que põem em foco a diferença entre o mundo que o leitor habita e o mundo ficcional do texto de FC. Esse novum pode ser algo material, como uma espaçonave, uma máquina do tempo ou um dispositivo de comunicação mais-rápido-que-a-luz; ou pode ser algo conceitual, como uma nova versão de gênero ou consciência”.
Em The Science Fiction Encyclopedia, Stableford, Clute e Nicholls dizem que, aparentemente, Suvin entendia o termo “cognição” como a procura pelo conhecimento racional e, por distanciamento, algo próximo ao que Bertold Brecht chamou de Verfremdungseffekt, o “efeito de estranhamento”, ou seja, uma representação que nos permite reconhecer seu sujeito, mas ao mesmo tempo faz com que pareça não familiar. Parte das críticas à definição de Suvin vem do fato de que esse “estranhamento” ou “distanciamento” tem pouco a ver com a tradição da FC produzida nos Estados Unidos, na qual a nostalgia pelo que é familiar é um componente importante, inclusive o que é familiarmente novo, de modo que esse distanciamento está ausente de forma significativa. Na verdade, John Clute disse que grande parte da FC procura criar exatamente o oposto de distanciamento, ou seja, pretende fazer com que o incrível pareça plausível e familiar.
Crédito: Gordon Taylor/ Pixabay.
Em Introdução à Literatura Fantástica (Introduction à la Littérature Fantastique, 1970. Ed. Perspectiva) Tzvetan Todorov indica três condições que devem ser preenchidas para uma definição do fantástico.
Primeiro, é preciso que o texto obrigue o leitor a considerar o mundo dos personagens como um mundo de criaturas vivas, e o faça hesitar entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural para os acontecimentos evocados. A seguir, essa hesitação pode ser igualmente experimentada por um personagem; dessa forma, o papel do leitor é, por assim dizer, confiado a um personagem e, ao mesmo tempo, a hesitação se encontra representada, se torna um dos temas da obra; no caso de uma leitura ingênua, o leitor real se identifica com o personagem. Enfim, é importante que o leitor adote certa atitude para com o texto: ele recusará tanto a interpretação alegórica quanto a interpretação poética. Essas três exigências não têm valor igual. A primeira e a terceira constituem verdadeiramente o gênero; a segunda pode não ser satisfeita.
O fantástico, para Todorov, talvez não tenha o mesmo significado que tem para o leitor moderno, uma vez que ele centra a existência do gênero nos séculos 18 e 19, tendo se transformado, no século 20, em outro tipo de literatura, que ele exemplifica com os textos de Franz Kafka. Uma narrativa que, ao contrário do fantástico dos séculos anteriores, “parte do acontecimento sobrenatural para dar-lhe, no curso da narrativa, uma aparência cada vez mais natural”. Antes, preparava-se o leitor para o acontecimento sobrenatural, e agora o processo é ao contrário, adaptando o leitor ao inexplicável desde o início. Todorov apresenta a ficção científica de forma semelhante: “Os dados iniciais são sobrenaturais: os robôs, os seres extraterrestres, o cenário interplanetário. O movimento da narrativa consiste em nos obrigar a ver quão próximos realmente estão de nós esses elementos aparentemente maravilhosos, até que ponto estão presentes em nossa vida”.
É um ponto de vista bem diferente daquele apresentado por Muniz Sodré em A Ficção do Tempo (Editora Vozes, 1973), para quem a FC não pode ser encarada e definida por seu conteúdo, uma vez que na literatura só há formas, a literatura é só linguagem, considerando que a FC é produto da indústria cultural, no que ele não está totalmente errado. Ele escreve: “(...) não tem nenhum sentido falar de uma literatura ‘nova’ pelo seu conteúdo ‘escandaloso’, como se faz com a fc. Em arte literária, só existe escândalo na letra. A fc não é, portanto, literatura nova e, muito provavelmente, nem sequer arte literária”.
J.G. Ballard, outro grande escritor do gênero, na brilhante introdução ao seu livro Crash (Crash, 1973. Companhia das Letras), ressaltou: “A característica dominante da literatura moderna é o seu sentido de isolamento individual, sua atitude de introspecção e de alienação, uma disposição mental sempre indicada como sendo a marca registrada da consciência do século XX... Longe disso. Ao contrário, parece-me que esta é uma psicologia que pertence inteiramente ao século XIX”. E ainda: “(...) Exceto pela tendência marcadamente retrospectiva, e pela obsessão com a natureza subjetiva da experiência, os seus verdadeiros temas são a racionalização da culpa e o estranhamento. Seus elementos são a introspecção, o pessimismo e a sofisticação. Se alguma coisa caracteriza o século XX é o otimismo, é a iconografia do merchandising de massa, a ingenuidade e o prazer isentos de culpa diante de todas as possibilidades da mente”.
Para Ballard, o romance tradicional negligenciou a dinâmica das sociedades humanas e o lugar do homem no universo, tendendo a retratar a sociedade como se fosse estática e se preocupando de modo cada vez mais exclusivo com as nuances das relações humanas. Para ele, essa situação da literatura se torna quase impossível de ser sustentada diante de um mundo em que “(...) o equilíbrio entre a ficção e a realidade alterou-se significativamente...”, e isso a partir da década de 1960. Os papéis se inverteram e vivemos em um mundo, ele diz, governado por ficções de toda espécie, transformando nossa vida em uma grande novela. Segundo Ballard “(...) O mais prudente e efetivo método de lidar com o mundo ao nosso redor consiste em assumir que ele é uma ficção completa e, inversamente, que o único e pequeno núcleo de realidade que nos resta está no interior das nossas próprias cabeças”. São mudanças radicais na sociedade e “(...) Ainda que de modo cruel ou ingênuo, a ficção científica, pelo menos, tenta estabelecer uma moldura filosófica ou metafísica em torno dos mais importantes eventos de nossas vidas e de nossas consciências”. Ballard ainda escreve: “Na verdade, acredito que se pudessem esquecer toda a literatura existente e fossem obrigados e recomeçar sem qualquer conhecimento do passado, todos os escritores se veriam, inevitavelmente, produzindo algo muito próximo da ficção científica”.
Não se trata aqui, portanto, de separar a arte literária, com sua forma de narrativa do século 19, da literatura de massa, popular, em que estaria incluída a FC, mas sim de perceber que – como diz Ballard – a ficção científica, na realidade, representa a principal tradição literária do século 20, uma vez que “(...) poucas literaturas parecem estar melhor equipadas para lidar com seus temas do que a ficção científica. Nenhuma outra forma de ficção tem o vocabulário de ideias e imagens necessário para abordar o presente, muito menos o futuro”. A FC representa, nesse contexto, uma alteração na forma de se fazer literatura, seja ela considerada arte literária ou não.
O conceito de Ballard abre uma série de possibilidades para o fantástico em geral, e para a FC em particular. As definições tradicionais teriam dificuldade em situar certas obras no campo da FC, como no caso de O Homem do Castelo Alto (The Man in the High Castle, 1962), de Philip K. Dick, ou O Sonho de Ferro (The Iron Dream, 1972), de Norman Spinrad, e tantos outros situados em universos alternativos ou paralelos. O livro de Philip K. Dick, por exemplo, estaria muito de acordo com a leitura de Todorov para o fantástico do século 20 – uma narrativa que, partindo do insólito, do inexplicável, adapta o leitor a esse ambiente.
O fantástico moderno também circula frequentemente pelos mesmos caminhos. Nesse fantástico, a hesitação do leitor nem sempre existe. Ele pode não ser levado ao ponto de ter de escolher entre uma explicação natural ou sobrenatural. Ele simplesmente é adaptado ao ambiente em que certa realidade é aceita como a única possível. O cinema, algumas vezes obtendo suas histórias da literatura, tem alguns exemplos disso. Um filme como A Fúria (The Fury, 1978, dirigido por Brian De Palma) é um dos que tem sua classificação às vezes incluída na FC, outras no terror: Phil Hardy lista o filme em sua enciclopédia de filmes de horror, mas não na de FC; já os autores alemães Ronald M. Hahn e Volker Jansen incluem-no em Lexikon des Science Fiction Films, um livro que, pela variedade de títulos oferecidos, deve seguir uma definição de FC mais ampla.
Crédito: Adis Resic/ Pixabay.
Porém, mesmo seguindo as definições mais restritas do gênero, A Fúria ainda poderia ter uma chance de ser considerado como tal. O tema básico se refere a poderes mentais extremamente desenvolvidos, que é um tema constante na FC. Além disso, a trama ainda apresenta uma agência governamental poderosa e fora de controle, que captura um dos personagens com capacidades mentais fora do comum para treiná-lo, ampliar suas capacidades e utilizá-lo para seus fins muito particulares e perversos. A ligação com o tema de Frankenstein é bem evidente. Criam o monstro, que acaba se revoltando contra seus criadores. A perda do controle da criação é uma característica de grande parte da FC, e não vejo porque A Fúria, como tantas outras obras, não possa ser considerado desse ponto de vista. Ou do ponto de vista da busca pelo poder; especular sobre a função do poder, no presente e no futuro, nos seres humanos, em grupos de seres ou em governos, mudando a estrutura das relações no planeta, também é um tema constante e importante na FC.
Um filme como o excelente Sete Dias em Maio (Seven Days in May, 1964), de John Frankenheimer (com roteiro de Rod Serling, o criador da série de TV Além da Imaginação), é mais um exemplo de histórias desse tipo, mostrando como poderia ocorrer um golpe militar nos Estados Unidos e, de certa forma, como nosso futuro é incerto e se encontra na dependência de fatores que pouco ou nada têm a ver com a ciência em si, mas apenas com a busca por posições de poder.
E mais. Fala-se muito da especulação na FC, mas quando ela surge em determinados casos, é desconsiderada. No entanto, trata-se de especulação e imaginação, ou seja, a realidade de nossas mentes, sendo utilizadas como uma forma narrativa para examinar o presente e o futuro. Só que parece haver por parte de alguns definidores uma tendência a determinar até que ponto a especulação é válida e quando deixa de ser, o que nos leva de volta à posição de Isaac Asimov, de que para se escrever FC seria preciso possuir conhecimento científico. A ideia que permanece é a de que apenas o cientista teria o bom senso de saber onde deter a sua especulação.
Stableford, Clute e Nicholls disseram que, na verdade, não há uma boa razão para esperar que uma definição viável de ficção científica jamais seja estabelecida, uma vez que, até agora, nenhuma foi. Para eles, na prática, existe um consenso sobre como a FC parece em seu ponto central, e é apenas com relação às suas margens que as discussões ocorrem. “E ainda não é possível descrever a FC como uma forma de escrita homogênea. A FC indiscutivelmente não é um gênero no sentido estrito da palavra – e por que deveria ser? Historicamente, ela cresceu da mescla de muitos gêneros distintos, de utopias a aventuras espaciais. No entanto, instintivamente, podemos sentir que se a FC perder seu sentido da fluidez do futuro e a excitação de nossas tentativas científicas de entender o Universo – resumindo, como fãs mais conservadores colocariam com entusiasmo, mas com imprecisão conceitual, seu sentido de maravilha – então pode não valer mais a pena lutar por ela”.
Resumindo, encontrar uma definição mais ou menos viável para a ficção científica não parece ser possível e, talvez, não seja tão importante. Mais interessante é o que as discussões e pontos de vista apresentados pelos mais variados estudiosos do assunto podem trazer para o entendimento de um gênero (mesmo que não o seja no sentido estrito da palavra, como disseram Stableford, Clute e Nicholls) que é constantemente atacado e/ou menosprezado pela crítica literária, e frequentemente pouco entendido por essa mesma crítica.