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ELES QUEREM NOSSOS CORPOS

FILMES/VE ALIENÍGENAS NA TERRA

autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data15/6/2018
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Eles chegam de todos os recantos da galáxia só para tomar conta de nossos corpos, de um jeito ou de outro. E, claro, querem dominar e copular à vontade.

(Metro-Goldwyn-Mayer).
Natasha Henstridge fazendo das suas com Alfred Molina em A Experiência.

Não é de hoje que os alienígenas invasores malvados mantêm uma relação de amor e ódio com os terrestres. Se por um lado estão sempre tentando nos conquistar, às vezes podem ser movidos apenas por necessidades fisiológicas básicas, sejam de procriação ou desejo mesmo. Pode-se entender: realmente existem muitos humanos deliciosos para se procriar.
E para fins sexuais, eles nem precisam se parecer conosco, porque eles sempre são capazes de alterar sua aparência. Por exemplo, podem ficar como Tom Tryon, de Casei-me Com um Monstro (I Married a Monster From Outer Space, 1958), título e filme deliciosos, numa produção que tanto já foi considerada como exemplo da paranoia anticomunista da época quanto uma tentativa surrealista de observar o casamento e as relações sexuais. E quanto ao título, quantas mulheres não podem dizer o mesmo de seus casamentos com malditos terráqueos…

Tom Tryon, em sua forma humana, e a esposa Gloria Talbot, em Casei-me Com um Monstro (Paramount Pictures), e em sua forma alienígena.

Os extraterrestres chegam à Terra na surdina, disfarçam-se de americanos bonitões para se casarem com americanas gostosas e procriar, evitando que sua raça moribunda sucumba. Entende-se a intenção dos invasores, mas invasão é invasão, e as mulheres terrestres têm de ser preservadas; como o filme se passa nos anos 1950, elas tinham de ser preservadas para serem boas donas de casa e carregarem os rebentos dos próprios terráqueos malditos.
A história foi refilmada para TV em 1998 com o título Os Possuidores (I Married a Monster), mas não chega nem nas patas do original.


E é claro que os sempre presentes marcianos não poderiam ficar de fora. Em Os Marcianos Raptores (Mars Needs Women, 1966), eles raptam mulheres terrestres utilizando raios de teletransporte, já que precisam repovoar o planeta. O tal do teletransporte não funciona muito bem, pois as mulheres chegam em Marte deformadas, então eles precisam vir à Terra e resolver a coisa no tapa. Tommy Kirk é o alien encarregado da missão, mas ele se apaixona por Yvonne Craig, também conhecida como a Batgirl da série Batman da TV. Resumindo, os marcianos voltam para casa sem mulheres.

Tommy Kirk e Yvonne Craig, em Os Marcianos Raptores (Azalea Pictures).

 

(Sagittarius Productions).

No chatíssimo Sequestradores do Espaço (The Body Stealers, 1969), os aliens também pretendem repovoar seu planeta agonizante, mas desta vez copiam corpos humanos de paraquedistas que, provavelmente, devem ser mais copiáveis; e fazem isso pegando os corpos em plena queda livre, o que é, no mínimo, uma técnica estranha. O que poderia ser uma invasão é resolvido amigavelmente entre eles e os terrestres.

 

 

 

Veja a seguir mais algumas tentativas dos alienígenas em possuir corpos humanos.

 

A HOSPEDEIRA (The Host, 2013)
Direção de Andrew Niccol.

(Chockstone Pictures/ Nick Wechsler Productions/ Silver Reel/ Imagem Filmes).

Depois de assistir a A Hospedeira – e, desculpem, totalmente desavisado do que se tratava – cheguei a ler alguns comentários afirmando que é um daqueles filmes para se amar ou odiar. Não! É um daqueles filmes para se odiar mesmo.
Desavisado porque não me informei sobre o que se hospedava no filme, e só percebi quem era a autora da história ao final, ao ler os créditos. A porcaria indizível é mais uma adaptação de um livro de Stephanie Meyer, A Hospedeira (The Host, 2010. Ed. Intrínseca), mais conhecida como a autora da xaropada enjoativa da série Crepúsculo. Ela disse que desenvolveu o livro para um público adulto. Certamente não quaisquer adultos, mas aqueles que gostam de, digamos, uma xaropada enjoativa.
Não traz nada de novo e repete clichês até o ponto de dar vontade de socar a tela. É um lodaçal onde residem lugares comuns, frases imbecis, situações manjadíssimas e, é claro, os olhares e suspiros trocados entre os personagens, porque o amor é a suposta mensagem central da trama.
É muito mal elaborado, com cortes de cena mal feitos, com os atores parados olhando sem falar coisa alguma, esperando que a edição conserte quaisquer problemas que ali habitem, o que não acontece.
É quase inacreditável que tenha sido dirigido por Andrew Niccol, o mesmo de Gattaca – Experiência Genética, o roteirista de O Show de Truman, filmes tão distantes deste no que diz respeito à qualidade que fica difícil imaginar como uma queda dessas seria possível. Até mesmo O Preço do Amanhã (In Time, 2011), cujo roteiro ele escreveu, e inferior aos dois filmes citados acima, está muito além da babaquice que aqui se amoita.
Está entre as várias produções mais recentes apresentando invasões alienígenas à Terra. Esses aliens não têm corpos como os nossos e invadem a Terra ocupando os corpos materiais. Uma garota rebelde que é capturada também recebe um alienígena em seu corpo, mas ao contrário do que se imaginava, ela mantém suas memórias e consegue convencer o alien dentro de si a não revelar a localização dos demais rebeldes. Mais do que isso, o alienígena incorporado apaixona-se pelo humano por quem a garota também se apaixona.
Ou então não é nada disso, mas quase...
É uma confusão imensa, sem sentido, mal feita, e provavelmente entre os piores filmes de 2013. E um desperdício do talento de Saoirse Ronan.

 

ESTRANHAS METAMORFOSES (Xtro, 1982)
Direção de Harry Bromley Davenport.

                                                                                                                                           (Amalgamated Film Enterprises).

Produção inglesa bem fraquinha, que inicia mostrando um homem e seu filho brincando numa fazenda, quando o homem é abduzido por alienígenas. Ele retorna três anos depois, renascendo após ser “plantado” pelos aliens, com uma aparência mista de humano e monstro extraterrestre. Para encurtar a história, o monstrengo ataca uma mulher e a estupra; ele fica grávida imediatamente e ele renasce com a aparência humana que tinha anteriormente e vai atrás do filho que ficou por aqui, dotando-o com poderes mentais elevados e levando-o embora para o planeta extraterrestre desconhecido.
Como disse, o filme não é grande coisa, mas tem algumas imagens bem perturbadoras.
Duas sequências foram produzidas, ambas dirigidas por Davenport: Extro II – O Reencontro (Xtro: The Second Encounter, 1990) e XTRO 3 – O Massacre (Xtro: Watch the Skies, 1995), mas não têm relação com o primeiro filme.

 

A EXPERIÊNCIA (Species, 1995)
Direção de Roger Donaldson.

Natasha Henstridge, a alienígena em sua forma adulta (Metro-Goldwyn-Mayer).

O Programa SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence) finalmente recebe uma transmissão alienígena com uma informação de uma forma fácil de produzir um combustível não poluidor e renovável. Assim, as autoridades e cientistas terrestres não desconfiam quando recebem uma segunda mensagem com informações para combinar DNA alienígena e humano. Assim, a equipe liderada por Ben Kingsley consegue criar a criatura que recebe o nome de Sil, que cresce rapidamente para se transforma em Natasha Henstridge. Mas o comportamento da humana-alien faz com que os cientistas fiquem com medo e resolvam matá-la, acabando com a experiência. Só que ela não é fácil, e consegue escapar, iniciando sua procura por um macho com o qual reproduzir; e, vamos falar a verdade, não foi nada difícil encontrar um macho para reproduzir com Natasha Henstridge aos 21 anos.
A versão monstro alienígena de Sil foi desenhada pelo artista suíço H.R. Giger, o mesmo que desenhou o ser extraterrestres de Alien, O Oitavo Passageiro (Alien, 1979), para não falar da capa do disco Brain Salad Surgery (1973), de Emerson, Lake & Palmer. E a criatura tem algumas das características do ser de Alien: ágil, veloz, difícil de matar e com a ideia fixa de reproduzir-se para manter a espécie e colonizar a Terra.
No entanto, apesar dos bons efeitos e de um elenco muito bom que ainda inclui Forest Whitaker, Marg Helgenberger e Michelle Williams, o filme é apenas mediano.
Foram produzidas três sequências: Experiência 2 – A Mutação (Species II, 1998), dirigida por Peter Medak; A Experiência III (Species III, 2004), dirigida por Brad Turner; A Experiência 4: O Despertar (Species: The Awakening, 2007), dirigida por Nick Lyon, a única sem a presença de Henstridge.

 

OS BÁRBAROS INVADEM A TERRA (Chikyu Boeigun, 1957)
Direção de Ishiro Honda.

(Toho).

Também conhecido pelos títulos The Mysterians e Earth Defense Force. A história é absolutamente comum. Alienígenas do planeta Mysteroid, os Mysterians do título inglês, chegam à Terra em seus discos voadores e robôs, incluindo um pássaro-robô que dispara raios dos olhos, e pretendem encontrar mulheres sadias para acasalarem com sua raça, uma vez que seu planeta foi destruído por uma guerra nuclear. Instalam uma base na Lua e iniciam seus ataques com raios mortíferos e mais o robô metálico Moguera. Os terrestres, defendendo suas vidas e, mais do que isso, sua própria necessidade e intenso desejo de acasalarem com as mulheres terrestres japonesas, conseguem derrotá-los. Com todos os clichês possíveis, o filme apresenta alguns dos melhores efeitos especiais do cinema japonês de FC, inspirador de muitos filmes posteriores.

                                     O robô Moguera, ajudando os mysterians a dominar a Terra. Não conseguiram.

Ishiro Honda foi um dos principais, senão “o” principal diretor dos filmes de ficção científica do período, e vinha de dois trabalhos que renderam grandes dividendos a ele e à produtora Toho, juntamente com o especialista em efeitos especiais Eiji Tsuburaya: Godzila (Gojira, 1954) e Rodan (Sora No Daikaiju Radon, 1956).
Segundo se diz no filme, os extraterrestres escolheram o Japão porque os japoneses representam as melhores qualidades da humanidade.
Em The Encyclopedia of Science Fiction Movies, Phil Hardy escreve que o filme revela alguns dos elementos de fantasia que sustentam todo o gênero, referindo-se aos filmes de monstros e alienígenas do cinema japonês. “Inicialmente”, ele diz, “os monstros representam uma tentativa de mitificar e, assim, de alguma forma absorver a experiência cultural de ter sido vítima de uma agressão nuclear. Esse elemento está presente nesse filme no instrumento que os alienígenas enviam ao Japão e que irá roubar suas forças vitais básicas”.

 

FRANKENSTEIN CONTRA O MONSTRO ESPACIAL (Frankenstein Meets the Space Monster, 1965)
Direção de Robert Gaffney.

Marilyn Hanold, como a princesa alienígena, e Lou Cutell como seu assistente Nadir (Futurama Entertainment Corp./ Vernon-Seneca Films).

Também conhecido pelos títulos Duel of the Space Monsters e Mars Invades Puerto Rico. Mas que título, ein? Michael Weldon, autor do livro The Psychotronic Encyclopedia of Film, escreveu: “Não percam. É o pior”.
Uma princesa alienígena vem ao nosso planeta para conseguir algumas mulheres para seu planeta agonizante que precisa ser repovoado, como muitos aliens já haviam feito antes e fariam depois, sem muito sucesso. Ela traz consigo um monstro chamado Mull, e ambos são combatidos pelo piloto espacial Reilly, na verdade um androide cuja nave cai próximo dos aliens, em Porto Rico, e tem uma espécie de curto-circuito, ficando bem doidão.
E, é claro, não tem absolutamente nada a ver com Frankenstein, que foi simplesmente jogado no título para chamar a atenção.

 

UNEARTHLY STRANGER (1963)

(Independent Artists).


Produção inglesa com direção de John Krish. O filme apresenta semelhanças com o mais conhecido Casei-me com um Monstro, mas com papéis invertidos; John Neville interpreta um cientista que se casa com uma alienígena (Gabriella Licudi). Dessa vez os aliens não estão querendo procriar, mas apenas dominar o planeta, plano que acaba falhando porque ela se apaixona pelo maldito terráqueo.

 

A GAROTA DIABÓLICA DE MARTE (Devil Girl From Mars, 1954)
Direção de David MacDonald.

                                                    Patricia Laffan e o robô (Gigi Productions/ Danziger Productions Ltd.).


Outra produção inglesa na qual, dessa vez, a invasão alienígena é realizada por uma mulher que atende pelo nome de Nyah (Patricia Laffan). Ela vem de Marte, é claro, planeta governado por mulheres e que necessita de homens para ajudar em seu repovoamento. Ela é ajudada em sua tarefa por um robô bem feinho e ridículo que o autor Michael Weldon descreveu como uma torradeira branca com uma luz de carro de polícia no topo. Ela se estabelece numa hospedaria, a qual cerca com um campo de força invisível. O problema é que os homens não desejam ir para Marte procriar, e Peter Reynolds, no papel de um criminoso que se escondia no local, acaba sendo o herói que acaba com a invasora e sua nave espacial, de forma não explicada.
Talvez seria muita maldade dizer que ela foi procurar homens no país errado, então não vou falar nada.

 

THE NIGHT CALLER (1965)
Mais um da Inglaterra, com direção de John Gilling.

(Armitage Films Production).

Também conhecido pelos títulos Blood Beast From Outer Space e The Night Caller From Outer Space. Um alienígena de Ganimedes, uma das luas de Júpiter, vem ao nosso recanto procurando mulheres para experiências genéticas, ou seja, para providenciar crianças para os aliens. Espertinho, publica anúncios na revista Bikini Girl procurando modelos jovens. Claro que todas que atendem ao anúncio desaparecem, uma vez que são enviadas diretamente para Ganimedes. Os cientistas interpretados por John Saxon e Patricia Haines investigam a situação.
Segundo Phil Hardy, trata-se de um thriller de ficção científica bem inteligente, apesar de ter sido realizado com baixíssimo orçamento.

 

LIQUID SKY (Liquid Sky, 1982)

 

BREEDERS, A AMEAÇA DE DESTRUIÇÃO (Breeders, 1986)
Direção de Tim Kincaid.

(Beyond Infinity/ Entertainment Concepts/ Tycin Entertainment/ Wizard Video).

Também conhecido pelo título Galeria dos Alienígenas e, originalmente, Rapists From Outer Space. Alienígenas chegam à Terra, sabe-se lá como, e escondem-se nos subterrâneos de Nova York, pensando em proliferar e conquistar o planeta. Para tanto, pegam mulheres virgens e as estupram. Depois, elas entram numa espécie de transe e se dirigem para seu esconderijo sexual subterrâneo no metrô. Numa das cenas no antro extraterrestre, várias mulheres humanas participam do que parece ser uma orgia feminina dentro de uma concha gigante e disforme repleta de uma gosma meio esbranquiçada. Entenderam?
Um tema que, em 1986, já era ultrapassado, e ainda foi prejudicado por uma péssima direção e atuações horríveis. Rodado em oito dias, teve produção executiva de Charles Band, que sequer teve seu nome creditado. Tim Kincaid também ficou conhecido por dirigir produções pornô. No Brasil, o filme chegou a ser lançado em VHS (Top Tape) e exibido na TV.

 

SOB A PELE (Under the Skin, 2013)
Direção de Jonathan Glazer.

Scarlett Johansson como a alienígena, levando mais uma vítima para alimentar seu mundo (BFI/ Film4).


O filme foi baseado no livro Sob a Pele (Under the Skin, 2000. Ed. Record), de Michel Faber, que é um pouco mais explícito quanto à missão da extraterrestre que chega ao nosso planeta. No livro, ela se chama Isserley e é enviada à Terra por uma corporação muito rica com a missão de obter corpos masculinos e enviá-los ao seu planeta. Lá, eles são transformados num alimento muito apreciado pelos aliens. Originalmente, ela tem uma forma semelhante à dos cães, mas foi geneticamente alterada para parecer humana e poder capturar os caronistas que encontra pelo caminho, mas aos poucos sua atitude com relação ao seu trabalho e com relação aos humanos vai se alterando.
O filme, dirigido por Jonathan Glazer e provavelmente mais conhecido do que o livro, tem Scarlett Johansson no papel da alienígena, aqui sem um nome, mas igualmente capturando os corpos de homens pelas estradas da Escócia e levando-os para a sua casa, onde eles desaparecem no que pode ser uma passagem direta para seu planeta natal.
Provavelmente também é verdade que muito marmanjo quis assistir ao filme para ver as cenas com Johansson nua, mas o filme traz muito mais do que isso. Quase sem diálogos ou quaisquer explicações sobre o que a alienígena está fazendo, o filme tem um clima opressivo e misterioso, com excelentes filmagens e a atuação perfeita de Johansson, inicialmente como a alienígena minimalista, realizando seu “trabalho” de forma quase mecânica, depois com as surpresas ao começar a descobrir algumas coisas sobre o corpo que está utilizando.
O filme não foi bem nas bilheterias, mas teve recepção excelente com a crítica.