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FILMES/VE Viagens no Tempo

autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data5/10/2017
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É provável que as histórias de viagens do tempo utilizando as mais variadas máquinas sejam as mais conhecidas, mas existe uma variação do tema bem legal, na qual os próprios viajantes é que possibilitam o deslocamento temporal. As formas utilizadas também são variadas, mas, no geral, a viagem no tempo depende exclusivamente de uma capacidade inata ou desenvolvida pela pessoa, ou de um conhecimento que adquire de alguma forma. De repente, a pessoa percebe que é capaz de se deslocar no tempo, às vezes, até mesmo sem desejar que isso ocorra.
Uma das primeiras histórias desse tipo levada ao cinema foi Romance Antigo (Berkeley Square, 1933), filme dirigido por Frank Lloyd, com Leslie Howard e Heather Angel. O roteiro foi baseado numa peça de John L. Balderston, que, por sua vez, foi baseada no romance inacabado de Henry James, The Sense of the Past. O escritor Baird Searles disse (em Films of Science Fiction and Fantasy) que o filme poderia ser descrito como comovente, “o que pode ser ou não exatamente o que James tinha em mente”. David Pringle (em The Ultimate Encyclopedia of Fantasy) também entende que o filme não apenas complementa a história, mas também a torna mais sentimental.

Leslie Howard e Heather Angel, em Romance Antigo (Fox Film Corporation).

A ação se passa em 1933 e em 1784, com Howard interpretando Peter Standish, ancestrais com o mesmo nome. O Peter de 1933 está lendo obsessivamente o diário de seu ancestral de 1784 e, quando está tomando chá com o embaixador americano, diz a ele de que está convicto de que será transportado no tempo, para 1784, e que para isso basta seguir os eventos descritos no diário de seu ancestral. Quando ele volta para casa e abre a porta, ele de fato retorna no tempo. Ele está disposto a não modificar o passado que ele já conhece, mas começa a mudar de ideia ao conhecer Helen (Heather Angel), e eles acabam se apaixonando. A jovem fica sabendo que ele não pertence àquela época, e ele retorna a 1933.

Tyrone Power e Ann Blyth em Jamais Te Esquecerei (Twentieth Century Fox Film Corporation).

Em 1951, a história foi refilmada com o título Jamais Te Esquecerei (I’ll Never Forget You; também com o título The House in the Square), com direção de Roy Ward Baker, e com Tyrone Power e Ann Blyth nos papeis principais. O filme utiliza a mesma técnica de O Mágico de Oz, com a abertura e o final em preto e branco, e o restante do filme em cores.
Uma versão para a televisão já havia sido apresentada pela BBC inglesa em 1948, com Manning Wilson como Peter Standish e Isabel Dean como Helen.
Outra versão inglesa surgiu em 1959, na série BBC Sunday Night Theatre, com David Knight e Daphne Slater.


Um deslocamento no tempo realizado por força da própria vontade surge também no clássico da ficção científica, Tigre! Tigre!, ainda que as viagens no tempo não sejam o foco da obra. A história se passa numa época em que se descobriu a capacidade de teleportação utilizando o poder da mente; a capacidade ficou conhecida pelo termo “jauntar”, em homenagem ao cientista Charles Fort Jaunte, o primeiro que conseguiu realizar a teleportação em circunstâncias passíveis de observação científica. O personagem central, Gully Foyle, em determinado momento, prestes a morrer, consegue “jauntar” para o passado e para o futuro.


Semelhante ao deslocamento temporal de Gully Foyle é o do personagem Shepherd Blaine, do livro Viajantes do Tempo (Time is the Simplest Thing, 1961), de Clifford D. Simak. Ele também, ao sentir-se ameaçado, consegue utilizar sua mente para viajar para o passado.

Capa da primeira edição (Doubleday, 1961).

Entre inúmeros temas interessantes que Simak apresenta no livro, destaca-se, nesse caso, seu conceito sobre o passado. No passado, Blaine se vê numa cidade vazia, e percebe que não existe vida em lugar algum. Quando percorre uma estrada, vê sua mão atravessar as tábuas de uma ponte, entendendo que se encontra num mundo de ilusão, ou o passado morto. Para ele, tudo ali era como sombras de coisas que existiram; não há nada no passado, pois a vida está mais à frente, no presente. Ele pensa que a vida “tinha de ocupar um só ponto no tempo, e quando o tempo avançava, a vida avançava com ele”.
Depois, sentindo-se igualmente ameaçado nesse mundo de sombras, irreal, ele retorna ao presente. Da mesma forma, ele consegue fazer com que outra personagem se desloque para o futuro, onde também nada existe, uma vez que coisa alguma aconteceu ainda.
No livro Criptozoica (1967), de Brian W. Aldiss, os deslocamentos a temporais também são feitos com o uso da mente, mas nesse caso com a ajuda de uma droga específica, a CSD, talvez uma referência ao LSD, o que não seria de se estranhar, considerando a época em que o livro foi publicado.

A capacidade de se deslocar no tempo utilizando poderes da mente também foi tema do livro A Casa da Praia (The House on the Strand, 1969. Publicado por algumas editoras portuguesas, às vezes com o título A Casa na Praia), de Daphne Du Maurier. E, como em Criptozoica, também envolve o uso de uma droga específica.
O personagem Richard Young vai morar numa casa que lhe é oferecida pelo amigo Magnus Lane, um biofísico, que também o convence a testar uma droga que ele desenvolveu. E a droga faz com que Young consiga visualizar o ambiente à sua volta como ele era no século 14. Ao penetrar na vida das pessoas daquela época, Young vai se aprofundando cada vez mais na experiência, tornando-se viciado no uso da droga, e cada vez que retorna ao presente, sua mente está mais confusa. Pior do que isso, sua atuação no passado tem reflexos no presente, uma vez que apenas sua mente viajou; seu corpo continua no presente, respondendo às ações dele no passado.

Já o personagem John Havig, de Viagem no Tempo Impossível (1972), de Poul Anderson, não apenas consegue controlar muito melhor seus deslocamentos temporais como, quando criança, ainda é auxiliado por uma versão mais velha dele mesmo, que retorna do futuro para orientá-lo.

Capa da primeira edição (Doubleday).

A história começa em 1933, quando Havig nasce. Ao longo de sua infância, ele surpreende as pessoas com as histórias incríveis que conta, viagens que realiza com seu “tio Jack”, que todos consideram ser um amigo imaginário. Com o passar do tempo, Havig entende que sua capacidade de deslocar-se no tempo é uma alteração genética, ou seja, ele seria um mutante.
Havig quer realizar pesquisas no tempo e também tentar descobrir se existem mais pessoas como ele no mundo. Assim, ele consegue ficar rico, deixando para ele mesmo uma herança, que recebe em 1964. E, ao explorar seu próprio passado, durante vários meses assume o papel do “tio Jack”.
Ele acaba sendo contatado por um grupo de viajantes do tempo, vindos de diferentes períodos da história. Eles têm uma espécie de escritório central no século 21, controlado por uma força militar que, Havig percebe, tem tendências aristocráticas, racistas e preconceituosas, que pretende interferir no curso da História. A forma de atuação do grupo entra em choque com o que Havig pensa, e ele se desliga deles, querendo utilizar sua capacidade para ajudar as pessoas.
Por outro lado, Havig desenvolve a ideia de que é impossível modificar o passado; trata-se de uma impossibilidade lógica, “da mesma forma que é logicamente impossível a uma mancha colorida uniformemente ser verde e vermelha ao mesmo tempo”. Ele começa a formar seu próprio grupo de viajantes do tempo, e acaba entrando em choque com o grupo fascista, impedindo suas realizações futuras.

Uma viagem no tempo que ficou bastante conhecida foi a do livro Em Algum Lugar do Passado (Bid Time Return, 1975), de Richard Matheson, posteriormente adaptada para o cinema (publicado por várias editoras no Brasil: Editora Nova Cultural; Editora Record; Editora Círculo do Livro; Bestbolso).
Segue a aventura do escritor Richard Collier que, aos 36 anos, é diagnosticado com um tumor inoperável no cérebro, e resolve passar seus últimos dias no Hotel del Coronado. Lá, fica impressionado e obcecado com a imagem de uma atriz famosa que se apresentou no local nos anos 1890. Ele pesquisa sobre a vida da atriz, cada vez mais interessado por ela, e o que lê o leva a pensar que ela teve um caso com um homem misterioso, quando ela esteve hospedada no hotel em 1896.
Collier se convence de que seu destino é viajar no tempo, para o passado, e encontrar com ela, tornando-se seu amante misterioso. A forma de viajar para o tempo que ele descobre é pelo uso de sua mente, utilizando-se de auto-hipnose para “convencer” sua mente de que está, de fato, no passado.

Capa da primeira edição (Viking Press).

Ele se encontra com a atriz, Elise, e eles se apaixonam – ela também estava esperando o surgimento de um homem misterioso, conforme lhe haviam dito duas pessoas com capacidades paranormais. E, ainda que ele acredite que, com o tempo, irá se esquecer de que veio do futuro, por acaso ele pega uma moeda de seu bolso e percebe que é dos anos 1970, e sua mente volta para o presente. Ele morre em seguida, e o médico que encontram seu diário entende que a viagem no tempo ocorreu apenas na mente de Richard.
O filme, Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980), dirigido por Jeannot Szwarc, teve Christopher Reeve e Jane Seymour como o casal apaixonado, seguindo basicamente a mesma história, porém com um final meloso que colocou o casal apaixonado novamente junto, numa espécie de local atemporal no qual os dois podem coexistir. Fora isso, não teve a recepção esperada de bilheteria e mesmo da crítica, bastante dividida entre a história interessante e o exagero das cenas finais.


Richard Collier (Christopher Reeve) observa o retrato de Elise (Jane Seymour), em Em Algum Lugar do Passado (Rastar Pictures/Universal).

Uma forma interessante de viajar no tempo é apresentada em O Tempo dos Mastodontes (1978), de Clifford D. Simak. Inicialmente, passagens no tempo são abertas num local da Terra por um alienígena cuja nave caiu no planeta. Por acaso, ou não, um homem, Asa, compra uma fazenda próxima ao local e acaba encontrando a passagem, surgindo no período Pleistoceno. Eventualmente, ele entra em contato com o alienígena cuja nave caiu há 50 mil anos e que continua por aqui. Ele se diz um “engenheiro do tempo”, capaz de fazer estradas para qualquer época do planeta, e que está disposto a construir passagens no tempo para Asa e sua esposa, Rila, que começam a fazer planos para abrir um negócio de viagens no tempo. Daí para a frente, a vida deles se transforma, com as complicações legais e o interesse não apenas da imprensa e curiosos, mas também de organizações religiosas e governos.
Depois de enfrentar inúmeros problemas causados pelo conhecimento das viagens temporais, que também transformam as sociedades em todo planeta, repentinamente surge na mente de Asa o conhecimento da equação apropriada para a abertura de uma passagem para o Mioceno – uma vez que o alienígena já saiu de cena. Dentre todos os envolvidos nas ações, Asa é o menos preocupado ou interessado em dinheiro e nas implicações políticas que as viagens trazem. Preocupa-se mais com a harmonia que deve existir em todas as situações; é o que está mais conectado à terra e a seus sentimentos, uma noção presente em boa parte da obra de Clifford D. Simak. E é exatamente devido a esse desprendimento das necessidades da sociedade moderna que Asa tem uma compreensão melhor de tudo o que o alienígena lhe disse. Ele capta o sentido geral de sua fala, e compreende. O que permite a abertura das passagens temporais é, em última análise, o conhecimento da equação matemática referente à função de “abrir os caminhos”. Lembra bastante a noção presente no conto Os Sonhos na Casa das Bruxas, de H.P. Lovecraft, e também tem ligação com o pensamento de Simak quanto à união entre natureza e tecnologia, as duas formas existindo não como opostas, mas como complementos.
Assim, a história começa com Asa, em sua simplicidade absoluta, inclusive no modo de viver; passa por uma série de transformações, enredando-se em complicações sociais, religiosas, políticas, econômicas e morais, com as quais ele pouco ou nada tem a ver; e retorna a ele, ainda para sua simplicidade, porém agora acrescida de uma complexidade de pensamentos matemáticos que adquiriu enquanto os demais pensavam em outras coisas, em assuntos que, no final de tudo, mostraram ser irrelevantes para a situação. O que realmente importou foi saber como realizar as passagens no tempo.
Asa é mais do que o ponto central do livro, o personagem principal. Ele é o único elemento íntegro na história, no sentido de que sua personalidade básica não é alterada em função dos acontecimentos. O que ocorre, como o próprio personagem diz, é que ele se deixa levar pelos acontecimentos, mas sem nunca pensar verdadeiramente em alguma vantagem quer possa obter da situação, aceitando o que possui no momento.
O conceito que permanece é o de que não se trata de evitar o conhecimento, no caso o conhecimento das viagens no tempo, que podem causar problemas; mas trata-se, isso sim, de uma modificação profunda que deve ocorrer no ser humano, em sua estrutura de vida e de sociedade, e nada mais.
O livro também lida, ainda que indiretamente, com o conceito dos paradoxos temporais. O ponto de vista básico, aqui, é o de que, sendo os paradoxos impossíveis de acontecer – ou, pelo menos, impossíveis de se imaginar sendo solucionados – eles, evidentemente, não existem, não são possíveis. Assim, entende-se que, de alguma maneira, a estrutura do tempo já traz em si mesma as possíveis alterações que deverão ocorrer. Ou seja, os dinossauros desapareceram da Terra, no passado, porque em determinado momento os seres humanos conseguiram realizar viagens no tempo e retornar ao passado, dizimando os dinossauros. Por outro lado, isso não significa que os humanos possam alterar o passado se deixarem de matá-los. Se eles não forem caçados, morrerão de outra forma que igualmente já é parte da estrutura do tempo. Se alguém recuar no tempo até o momento da morte de Jesus Cristo, não conseguirá evitar o evento e, talvez, até mesmo seja o responsável por ele.
Essas não são considerações apresentadas explicitamente no livro de Simak, mas estão implícitas, assim como a suposição de que os seres humanos imigraram para o período Mioceno e, talvez, até mesmo para outros períodos de tempo, formando povos desenvolvidos, sociedades complexas, cujos relatos chegaram até nós em forma de lendas sobre povos antigos e fabulosos, misteriosos, que impressionaram os antigos habitantes da Terra.
O livro tem algumas semelhanças com o conto Um Pátio Enorme (The Big Front Yard, 1959) – que recebeu o Prêmio Hugo, publicado originalmente em Astounding Science Fiction, e que pode ser lida também na coletânea A Revolta das Máquinas.


Quem teve muitos problemas com deslocamentos temporais foi o personagem Henry DeTamble, do livro A Mulher do Viajante do Tempo (Time Traveler’s Wife, 2003), obra de estreia de Audrey Niffenegger. A história ficou mais conhecida depois que foi adaptada para o cinema em Te Amarei Para Sempre (The Time Traveler’s Wife, 2009), dirigido por Robert Schwentke, com Eric Bana no papel principal e Rachel McAdams como sua esposa.
Henry tem a capacidade de se transportar no tempo sem a necessidade de utilizar qualquer máquina, mas suas viagens não são nada agradáveis; elas ocorrem de forma aleatória, sem que ele tenha qualquer controle seja sobre o momento em que elas vão ocorrer, ou para que época irá se deslocar; além disso, ele sempre surge em outro período sem suas roupas. O pior é que os deslocamentos provocam uma deterioração em seu corpo que, inevitavelmente, irá levar à sua morte. Eventualmente, ele fica sabendo que se trata de uma alteração genética, e que os momentos de tensão, de estresse, ajudam a provocar os deslocamentos temporais, geralmente para momentos de sua vida gravados em seu subconsciente.
A história é, basicamente, um romance, com toques de fantasia, mais do que de ficção científica. Os deslocamentos de Henry De Tamble e seu relacionamento com Clare Anne Abshire em diferentes épocas são muito bem elaborados, uma vez que diferentes versões dele encontram com ela em diferentes épocas.
No início da história, ele encontra Clare na Biblioteca Newberry, onde ele trabalha, e apesar dele nunca tê-la visto antes, ela já o conhecia desde pequena, uma vez que outras versões futuras dele haviam feito viagens ao passado para encontrá-la. Só a partir desse primeiro encontro (para ele) é que Henry começa a viajar ao passado, encontrando Clare quando ela era criança e adolescente, inclusive fornecendo a ela uma lista de datas nas quais ele deverá aparecer.
O relacionamento entre eles avança e eles se casam. Depois de muitas dificuldades para terem um filho, ela engravida de uma versão de Henry do passado, e a filha, Alba, também tem a mesma capacidade do pai.
O filme teve algumas pequenas mudanças com relação ao livro, em particular no final, mas basicamente seguiu a história, mantendo a narrativa romântica, pela qual recebeu algumas críticas. Mas o fato é que a história funciona bem, o filme é muito bonito, e os dois atores são excelentes, o que justifica o grande sucesso de bilheteria.



Outro filme muito interessante sobre um sujeito que consegue viajar no tempo por conta próprio é Efeito Borboleta (The Butterfly Effect, 2004), dirigido por Eric Bress e J. Mackye Ruber, com Ashton Kutcher no papel principal. Na época, alguns críticos entenderam que Ashton Kutcher não era a pessoa ideal para o papel, especialmente por ser conhecido do seriado humorístico De Volta aos Anos 70 (That ‘70s Show), no qual interpreta o burrão Kelso. Mas o resultado foi mais do que satisfatório, num dos melhores e mais interessantes filmes de ficção científica do período.


Evan (Ashton Kutcher) e seu diário, em Efeito Borboleta (FilmEngine/ BenderSpink/ Katalyst).

Desde criança Evan (Kutcher) tem estranhos desmaios, após os quais não consegue se lembrar do que aconteceu. A mãe teme que ele tenha herdado a doença do pai que, segundo dizem os médicos, foi o que o enlouqueceu e o mantém internado. O médico aconselha Evan a manter um diário, escrevendo todos seus pensamentos e experiências.
Ele e seus amigos são profundamente marcados por eventos traumáticos na infância, quando o pai (Eric Stoltz) de Kayleigh (Amy Smart) e de Tommy (William Lee Scott) faz um filme pornográfico com as crianças. Os eventos transformam Tommy numa criança perturbada e violenta, o que os leva a outro evento trágico, quando explodem uma caixa de correio com uma bomba, matando um bebê. Seu outro amigo, Lenny (Elden Henson), também se transforma radicalmente, quase incapaz de se comunicar com as pessoas.
Já adulto, na faculdade, Evan começa a ler um trecho de seus diários, e percebe que consegue viajar no tempo, para a época relatada no texto. Mais do que isso, consegue alterar o passado e, assim, modificar o presente. Ele não apenas recupera as lembranças apagadas dos momentos trágicos como tenta consertar esses erros e modificar para melhor a vida de seus amigos. Os momentos de sua infância em que ele simplesmente esquecia correspondem exatamente aos momentos em que, viajando ao passado, tentou modificar os acontecimentos.
Só que toda transformação que ele tenta realizar provoca outras alterações, tão ou mais trágicas quanto as anteriores. Ele descobre que seu pai tinha a mesma capacidade de se transportar no tempo, e que ele pode seguir pelo mesmo caminho, sendo considerado insano. Suas viagens no tempo são aterrorizantes, especialmente devido à sua incapacidade de compreender o que está acontecendo e de alterar o rumo das vidas das pessoas da melhor maneira possível.


Kutcher e Amy Smart, em cena de um dos finais possíveis para o filme.

Ao final, consegue realizar uma alteração em que todos ficam bem, retornando ao momento de sua infância em que conheceu Kayleigh. Ele evita o contato, e todos podem seguir suas vidas da melhor maneira possível, menos ele, que permanece com a memória de seu amor, mas incapaz de voltar a encontrá-la.
Foram filmados quatro finais diferentes para o filme, incluindo um da “versão do diretor”.
Ainda foi produzido um Efeito Borboleta 2 (The Butterfly Effect 2, 2006), diretamente para DVD, com direção de John R. Leonetti, mas sem qualquer relação com o primeiro filme, e imensamente inferior. A proposta é basicamente a mesma, com um sujeito descobrindo que pode viajar ao passado e tentar modificar o presente, mas o resultado é medíocre.
Não acreditando no insucesso do segundo filme, produziram um terceiro, Efeito Borboleta 3: Revelação (The Butterfly Effect 3: Revelations, 2009), dirigido por Seth Grossman e, mais uma vez, sem relação com o original e com resultados igualmente medíocres.

Em Camisa de Força (The Jacket, 2005), o viajante do tempo é Jack Starks (Adrien Brody), um veterano da Guerra do Golfo que retorna aos EUA com sérios problemas de amnésia. Em um de seus “apagões”, ele acaba sendo acusado de um crime, sendo julgado e condenado, mas levado a uma instituição psiquiátrica, onde é submetido a um tratamento controverso; ele é imobilizado numa camisa de força, tem drogas experimentais injetadas em seu corpo e é trancado numa gaveta para cadáveres. E é aí que sua mente consegue se libertar e transportá-lo para o futuro.
Como em A Mulher do Viajante do Tempo e, em menor grau, Efeito Borboleta, o relacionamento de Starks com a mulher chamada Jackie (Keira Knightley) é parte fundamental da trama, e em deslocamentos subsequentes, ele tenta mudar o destino dela e o dele mesmo.
Alguns críticos referiram-se à semelhança entre essa história e a de Jack London em O Andarilho das Estrelas (1913), mas a única parte em comum é o fato de o personagem central estar preso em uma camisa de força.

Em 2008 surgiu outro viajante do tempo, dessa vez na televisão, com o seriado Journeyman, apresentado no Canal Fox. Criado por Kevin Falls, trazia o personagem Dan Vasser, interpretado por Kevin McKidd, um repórter de São Francisco que descobre que consegue deslocar-se no tempo, ainda que ele não saiba como isso acontece; as viagens temporais começam de repente, e logo ele percebe que está se deslocando para o passado, sempre encontrando pessoas que ele, aparentemente, precisa ajudar.


(Left Coast Productions/ 20th Century Fox Television).

Claro que as constantes idas e vindas no tempo complicam sua vida particular e profissional; além disso, em uma de suas viagens ele encontra uma ex-noiva, que também é uma viajante do tempo.
A série durou apenas 13 episódios, sendo cancelada pela NBC devido à baixa audiência.

A linha de livros conhecidos como sendo para “jovens adultos” não deixou passar as viagens no tempo. É o caso da trilogia escrita pela alemã Kerstin Gier: Rubinrot (2009), Saphirblau (2010) e Smaragdgrün (2012); ou pelos títulos em inglês, Ruby Red, Sapphire Blue e Emerald Green.
Conta a história de uma jovem, Gwyneth Shepherd, que possui o gene de viagem no tempo, que vai sendo passado por gerações.
Os livros foram um sucesso de vendas em todo o mundo, mas ainda não foram publicados no Brasil; pelos menos os dois primeiros foram publicado em Portugal (Contraponto). Também geraram três adaptações para o cinema: Rubinrot (2013), com direção de Felix Fuchssteiner; Saphirblau (2014), com direção de Fuchssteiner e Katharina Schöde; e Smaragdgrün (2016), com os mesmos diretores. Os filmes também não chegaram por aqui.

Capacidades herdadas também estão no centro dos eventos do filme Questão de Tempo (About Time, 2013), dirigido por Richard Curtis. Aqui, a capacidade de voltar no tempo é herdada pelos homens da família, como o pai (Bill Nighy) explica ao filho Tim (Domhnall Gleeson), quando ele completa 21 anos. Eles só podem se transportar para locais e momentos que eles já viveram, revendo e alterando as situações em que estiveram envolvidos.


Domhnall Gleeson e Rachel McAdams, em Questão de Tempo (Translux/ Working Title Films).

Aparentemente, aqui não existem quaisquer preocupações envolvendo paradoxos, e as modificações alteram apenas a vida do próprio viajante. E Tim resolve que irá utilizar sua capacidade para melhorar sua vida amorosa, que não vai nada bem. É assim que ele consegue se envolver e apaixonar por Mary, interpretada por Rachel McAdams, curiosamente mais uma vez envolvida com um viajante do tempo, ainda que dessa vez sua personagem não tenha conhecimento das habilidades de Tim.
A história tem muitos furos e situações não explicadas; aliás, não há qualquer tentativa de explicar as viagens no tempo, o que seria uma bobagem, uma vez que se trata, basicamente, de uma história romântica, lidando não apenas com as dificuldades iniciais de relacionamento do jovem Tim, mas também do relacionamento muito aberto e amoroso entre os membros da família.
Seja como for, o filme é uma delícia e foi muito bem recebido pelo público, ainda que nem sempre pela crítica.