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EM BUSCA DO CRIADOR

FILMES/VE FC E RELIGIÃO

autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data12/9/2018
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A FC imaginou várias maneiras pelas quais os humanos tentam encontrar algum sentido no universo, inclusive procurando por uma inteligência superior.

O Ancião dos Dias (William Blake, 1794).

Além do conto The Creator, citado na matéria FC e Religião, Clifford D. Simak também abordou a religião em outros trabalhos muito interessantes, em particular nos livros O Deus Impassível e Projeto Papa (ler mais sobre eles na matéria Quase Humanos e no ensaio Os Mundos de Clifford D. Simak). Mas em 1956 ele já começava a delinear o conceito básico apresentado nesses livros com o conto O Van Gogh do Espaço (The Spaceman's Van Gogh). Além de apresentar a ideia da existência da fé como algo objetivo, com uma existência física em algum lugar do universo, ele mescla o tema com o dos seres como duendes e gnomos, que seriam presença frequente em muitos de seus livros.

(Capa: Ed Emshwiller).

O conto apresenta o personagem Anson Lathrop, que está em uma viagem em busca de conhecimento, mas também de iluminação, outro tema que surgiria com bastante frequência na obra de Simak. Lathrop quer saber mais a respeito do artista chamado Reuben Clay para completar sua monografia e, para tanto, consegue se teleportar a um planeta distante no qual se diz que Clay teria falecido. No planeta, encontra um povo alienígena semelhante aos gnomos das histórias terrestres, e um deles lhe fala sobre um quadro inacabado, mas que seria o seu principal trabalho, com qualidades mágicas.
Lathrop quer saber mais sobre o período em que Clay simplesmente desaparecera, e segue a pista de suas andanças pela galáxia, imaginando se o pintor perseguia ou fugia de algo. O fato é que Clay tinha morrido por sua própria escolha, crucificado, e era visto como um homem de fé em um universo onde ela praticamente não mais existia. O que Lathrop imagina é que a fé poderia residir num local como o que Clay havia pintado.

(Capa: Davis Meltzer/ Ace Books).

Enquanto Simak desenvolvia o conceito de robôs mantendo a religião dos humanos e tentando construir um papa computador, Robert Silverberg apresentou um papa robô, no conto Good News from the Vatican (1971), originalmente publicado na antologia Universe 1, editada por Terry Carr. O conto venceu o Prêmio Nebula de 1972, e narra os momentos finais do Conclave que está para escolher o novo Papa; como os dois candidatos mais cotados não conseguem maioria, é escolhido um robô, que assume o nome de Papa Sisto VII.

 

(Capa: Ed Emshwiller).

Em 1956, Isaac Asimov buscou uma aproximação distinta ao tema religioso no conto A Última Pergunta (The Last Question), publicado originalmente na revista Science Fiction Quarterly e, posteriormente, nos livros Nove Amanhãs (Nine Tomorrows, 1959), Sonhos de Robô (Robot Dreams, 1986) e outras coletâneas.
Na história, a “última pergunta” do título foi formulada pela primeira vez em 2061, quando dois técnicos perguntam ao computador Multivac se “uma vez extinto o Sol por velhice, a humanidade será capaz de restaurar seu vigor total”; e ainda uma questão referente à morte térmica do universo, ou como pode ser diminuído o montante líquido de entropia do universo. O computador responde apenas com a frase “dados insuficientes para uma resposta significativa”.
A partir daí, Asimov apresenta uma série de saltos na história, em momentos espaçados no desenvolvimento da humanidade, ocupando cada vez mais planetas e galáxias, até preencher todo o espaço. Vai até o ponto em que o universo morre e, com ele, os humanos, que já haviam deixado a existência material. Juntamente com esse desenvolvimento, desenvolve-se também o Multivac, passando pelas fases Microvac, AC Galáctico (analog computer), AC Universal e AC Cósmico. Em todas as fases, os humanos repetem a mesma pergunta, a “última pergunta”, e o computador sempre responde da mesma forma. Até que as estrelas e galáxias se apagam, matéria e energia se extinguem, e o AC continua existindo “apenas em função desta última pergunta”. Até que ela fosse respondida, ele não poderia liberar sua consciência, de modo que permanece correlacionando todos os dados conhecidos até chegar à resposta. E, como já não existiam seres humanos aos quais fornecê-la, ele dá a resposta por meio da demonstração. E o AC fala: “Faça- se a Luz”. E a luz surge.

                                                                                                                                                                                            (Capa: Chris Foss).

O excelente livro de J.G. Ballard, Aparelho Voador a Baixa Altitude (Low-Flying Aircraft and Other Stories, 1976), traz o conto A Vida e a Morte de Deus (The Life and Death of God), com bastante humor negro e mostrando a incapacidade dos seres humanos de viverem em paz e harmonia uns com os outros. Cientistas descobrem que todas as radiações eletromagnéticas contêm um sistema de vibrações que permeia todo o espaço e tempo e uma estrutura matemática complexa com as características de vida inteligente, capaz de reagir aos humanos.
A descoberta revoluciona o planeta, entendendo-se que se trata de um ser vivo e inteligente que permeia o universo, que está em todas as coisas. Os diferentes credos religiosos mundiais unem-se em uma única fé, as guerras e crimes acabam, e a mentira é afastada da vida diária. Mas, como disse, trata-se de um conto de humor negro, de modo que essa situação não dura muito, uma vez que a produção mundial caiu drasticamente e as pessoas sentem-se apáticas. Religiosos e políticos criam uma grande confusão com relação ao conceito da existência de um Deus passivo, nem bom, nem mau, e tudo volta a ser como antes.

O escritor Arthur C. Clarke também transitou muitas vezes por temas religiosos, ainda que fosse um autor relacionado à chamada FC hard, mais preocupada com os aspectos técnicos e científicos das histórias.
Brian Stableford (em The Science Fiction Encyclopedia) disse que um fenômeno notável associado ao crescimento acentuado das histórias baseadas na possibilidade da destruição atômica do planeta foi o ressurgimento de imagens que eram claramente análogas a noções religiosas, mas que eram desconectadas de doutrinas religiosas. Ele cita como exemplo o fato de Arthur C. Clarke ter afirmado que qualquer simbolismo ou imagem religiosa no livro O Fim da Infância (Childhood’s End, 1953) era inteiramente acidental. “E, mesmo assim”, explica Stabeford, “a cadeia de eventos descrita é visivelmente similar ao esquema evolucionário formulado pelo jesuíta Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), e publicado postumamente (após a publicação de O Fim da Infância)”.
“De forma semelhante”, ele prossegue, “não existe doutrina religiosa evidente no livro de Clifford D. Simak, Guerra no Tempo (Time and Again, 1951), apesar de que os simbiontes alienígenas desse livro, infestando todas as coisas vivas, são análogos às almas”.

(Capa: Richard Powers/ Ballantine Books).

Outra história muito comentada de Arthur C. Clarke é o conto Os Nove Trilhões de Nomes de Deus (The Nine Billion Names of God), publicado originalmente no livro Star Science Fiction Stories, editado por Frederik Pohl, e depois nas coletâneas de Clarke, O Outro Lado do Céu (The Other Side of the Sky, 1958) e Sobre o Tempo e as Estrelas (Of Time and Stars, 1973). Por alguma razão misteriosa, a tradução brasileira transformou os bilhões de nomes em trilhões.
A história apresenta a tentativa de lamas budistas de procurar e listar os nove bilhões de nomes de Deus. Eles entendem que esse é o propósito da criação do universo e, quando conseguirem completar a tarefa, o universo chegará ao seu fim. No entanto, eles imaginam que escrever todas as combinações possíveis dos nomes de Deus, cada um deles com não mais do que nove caracteres, levará mais 15 mil anos, de modo que resolvem utilizar um computador para realizar a tarefa, e contratam dois especialistas ocidentais. Terminada sua tarefa, os dois estão se dirigindo para o aeroporto para retornar às suas vidas, lamentando que, ao terminar de imprimir a lista com os nomes de Deus e nada acontecer, os lamas ficarão arrasados. Mas então eles olham para o céu noturno e vêm as estrelas apagando-se.