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NOVAS RELIGIÕES

FILMES/VE FC E RELIGIÃO

autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data12/9/2018
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As histórias de ficção científica inventaram inúmeras religiões, às vezes baseadas em religiões terrestres conhecidas, outras vezes algo totalmente novo.

Duna (Milk & Honey Pictures/ Evision/ New Amsterda

Em The Visual Encyclopedia od Science Fiction, os autores dizem que alguns escritores de ficção científica são particularmente adeptos de criar novas religiões, assim como têm habilidade de imaginar cenários alienígenas bizarros. Às vezes, essas religiões existem na Terra; outras vezes, em mundos alienígenas. E às vezes também são variações de religiões conhecidas.
O texto da enciclopédia também reflete sobre os problemas que podem surgir quando uma dessas religiões inventadas é, de fato, adotada em nosso mundo atual, como foi o caso da religião desenvolvida por Robert A. Heinlein no livro Um Estranho Numa Terra Estranha (Stranger in a Strange Land, 1961), uma obra que se tornou muito popular, em particular entre as comunidades hippies dos anos 1960.
Chegaram a circular rumores de que a obra teria inspirado Charles Manson, o infame líder de um culto responsável por vários assassinatos nos EUA. Mas o que há de certo é que a Igreja de Todos os Mundos (Church of All Words) que surge no livro gerou uma versão no mundo real, com o mesmo nome, fundada em 1962 por Oberon Zell-Ravenhearl (cujo nome de nascimento era Timothy Zell), e sua esposa, Morning Glory Zell-Ravenheart (nome de nascimento: Diana Moore).
O livro geralmente é citado entre os clássicos do gênero, mas é inferior ao que Heinlein escreveu de melhor, especialmente seus contos. Foi “adotado” pelos universitários norte-americanos na década de 1960, quase como um exemplo de liberdade sexual e de costumes e, pela mesma razão, chegou a ser proibido no currículo de algumas escolas.
Um dos problemas que se pode identificar hoje em dia é, talvez, o tamanho excessivo do livro, além de falhas na narrativa, com personagens que falam para si mesmos, interminavelmente. Ainda que repleto de ideias interessantes, elas acabam se perdendo nos diálogos.

                                                                                                                                                                                          (Capa: Neil Boyle/ Avon).

A história gira basicamente em torno de dois personagens principais: Valentine Michael Smith, ou apenas Mike, um humano nascido em Marte, de pais terrestres, porém criado pelos marcianos, com os quais aprende a desenvolver dons que, hoje, podem ser chamados de paranormais, como o de fazer desaparecer pessoas e objetos, enviando-os para outra dimensão; e Jubal Harshaw, personificando uma figura paterna presente em vários livros de Heinlein, advogado, médico e escritor que ajuda Mike em sua vinda à Terra.
A história segue o desenvolvimento de Mike, sua tentativa em aprender a cultura terrestre e trazer para os humanos alguns dos ensinamentos que obteve com os marcianos, ainda que com enormes dificuldades, pois são dois modos completamente diferentes de pensamento. Os acontecimentos culminam com a formação de uma espécie de culto por parte de Mike e seus “irmãos de água”. Além de tentar levar algum conhecimento aos seres terrestres e aumentar-lhes o poder mental, Mike tenta evitar que a Terra seja destruída pelos Anciões de Marte – figuras fantasmais que regem a vida e decidem o futuro de planetas inteiros, mesmo após a morte – quando estes chegarem à decisão de que os seres que vivem no planeta trazem o mal dentro de si e merecem ser eliminados.
O livro já foi comparado a 1984 e a Admirável Mundo Novo, mas não resistiu ao tempo como os livros de George Orwell e Aldous Huxley.

(Capa: Tim White/ New English Library).

Adam Roberts (em A Verdadeira História da Ficção Científica) também comenta o fato de que o livro atingiu sucesso comercial porque se tornaram “livros dos campi, comprados e lidos com avidez por centenas de milhares de estudantes como manifesto contracultural”.
Roberts continua sua análise da obra: “Smith por fim morre ou ‘desincorpora’ nas mãos de uma furiosa multidão humana. Embora estar desincorporado não seja nenhuma espécie de contrariedade para um marciano, que existe com a mesma satisfação no plano material ou espiritual. Um conceito trazido por ele é o de grokking, uma palavra que os aficionados adotaram com tanto entusiasmo que acabou entrando para a língua inglesa (Oxford English Dictionary: ‘grok, v. trans. [também com obj. clause], compreender de modo intuitivo ou por empatia; estabelecer conexão com’). O conhecimento que se obtém pelo grokking (isto é, ‘sacando’, ou tendo um insight) é super-racional, total e quase místico; mas é também ardiloso. É só depois de completados três quartos do livro, após estabelecer uma religião muito bem-sucedida e realizar muitos milagres, que Smith pode dizer à sua namorada principal: ‘Agora eu saco as pessoas, Jill [...]. Agora eu também saco o ‘amor’”.

                                                                                                                                                                 (Capa: Paul Lehr/ Berkley Medallion).

Mas para Adam Roberts, no fim das contas o que a novela de Heinlein “saca” é “quase mera banalidade”, e cita uma passagem do livro, quando Mike, ou Smith é questionado se ele se considera Deus, e responde: “Eu sou Deus. Tu és Deus e qualquer idiota que eu afasto é Deus também Quando um gato persegue um pardal os dois são Deus, cumprindo os pensamentos de Deus”.
Roberts diz que “Uma mente afiada poderia interpretar isso como sabedoria mística; um racionalista mais sóbrio poderia encontrar implicações mais alarmantes nessa mistura de ingredientes. Brian Aldiss diagnostica ‘um sinistro embaçamento de fato e ficção’ no ‘irracional quase misticismo’ que assombra o livro e cita com aprovação o crítico de Heinlein, Alexei Panshin, quando este diz que ‘as premissas religiosas das novelas de Heinlein são falsas e superpoderes não existem’”.
“Por outro lado”, prossegue Roberts, “Um Estranho Numa Terra Estranha é uma novela, não um manifesto. Antes de a descartarmos como sem sentido, sua religião pode ser interpretada como uma rearticulação eloquente, mesmo que às vezes incipiente, das inquietações centrais que determinaram o surgimento da FC no século XVII. Em certo nível, Smith funciona como uma paródia de Cristo, pregando a ‘água compartilhada’ do batismo, encorajando o canibalismo – os marcianos, ficamos sabendo, comem seus mortos; e Jubal Harshaw (porta-voz de Heinlein no livro) lembra a boquiabertos terráqueos que o ‘canibalismo simbólico’ desempenha um papel ‘decisivo’ na liturgia cristã. Mas o livro reverte a força da encarnação cristã e trabalha para contradizer o subjacente princípio de equivalência da expiação. Um insight adequado nos permite perceber o errado em certas pessoas, um estado de coisas que reduz toda a estrutura ética cristã a uma simples dicotomia – embora uma dicotomia com sérias consequências, das quais aprendemos que os marcianos sacaram o que havia de errado em um planeta inteiro e, em função disso, o destruíram, deixando apenas seus destroços como o cinturão de asteroides. Existe a ameaça no livro de que poderiam fazer o mesmo com a Terra. Enfim, a conclusão ‘Tu És Deus’ da novela articula com vigor uma compreensão ‘Eu-Tu’ da natureza do universo, embora o livro seja sempre salvo da mera piedade por sua característica e iconoclasta força heinleiniana”.

 

Um dos principais livros a lidar com a religião no âmbito da ficção científica foi Um Cântico para Leibowitz (A Canticle for Leibowitz, 1959. Também aqui), de Walter M. Miller Jr., certamente entre os grandes clássicos do gênero. Originalmente, o texto foi publicado em três partes em The Magazine of Fantasy and Science Fiction, com os títulos: A Canticle For Leibowitz (1955), que se transformaria na primeira parte do livro com o título "Fiat Homo"; And the Light Is Risen (1956), que se transformaria na segunda parte do livro com o título "Fiat Lux"; e The Last Canticle (1957), que seria a terceira parte do livro com o título "Fiat Voluntas Tua". Os contos passaram por outras transformações para compor o livro, com trocas de nomes de personagens e outros sendo acrescidos.

(Capas: Chesley Bonestell/ Dick Shelton/ Ed Emshwiller).

Apesar de ser bastante conhecido como um livro sobre o mundo após um apocalipse, no caso, uma hecatombe nuclear, o aspecto religioso é o centro das atenções. John Clute, em The Science Fiction Encyclopedia, disse que a história tem muitos detalhes sobre a natureza da vocação religiosa e sobre o modo de vida numa comunidade isolada, além de apresentar e curiosamente responder questões éticas a respeito da relação apropriada do ser humano com deus e o mundo.
Walter M. Miller Jr. era católico, e nada mais comum que muitas críticas sobre o livro levantassem esse aspecto, mas John Clute ressalta que “Ainda que às vezes tomado como um trabalho de apologia cristã, o livro tem uma atitude com relação à Igreja que é ambígua e muitas vezes irônica”.

(Capa: Milton Glaser/ J. B. Lippincott).

Adam Roberts destaca que o livro se apoia em inúmeros aspectos mágicos dos acontecimentos, como o personagem de Leibowitz, que parece ser imortal, vagando pelo mundo desertificado após a destruição nuclear, personagem que foi identificado com o Judeu Errante que, nas palavras de John Clute, é uma presença um pouco artificial no livro. Roberts diz que “Quando as bombas caem por uma segunda vez, um mutante, que cresce como uma cabeça no ombro de uma mulher, parece ganhar vida. O elemento mágico não é meramente jogado no livro pela afinidade ao bizarro; funciona antes como um endosso do sobrenatural, da presença de Deus em um mundo que fora arruinado pela bomba atômica, por sociedades bem seculares e racionais”.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               (Capa: Peter Elson/ Orbit).

E, ainda que considerando que a prosa de Miller é “cuidadosa, elegante, e sua linha narrativa é ritmada e cadenciada com habilidade, nem apressada nem enfadonha”, Adam Roberts entende que, devido à profunda fé católica de Miller, a novela tem uma abordagem diferente do que ele chama de “FC religiosa” mais transcendental dos livros desse período. “Onde estes tendem a evitar a aplicação política ou social de uma crença religiosa específica, Miller corre o risco de estupidez ideológica ao interpretar de modo explícito o holocausto nuclear como função do pecado original da humanidade, não como um dilema político ou tecnológico. Olhando para nossa época de uma perspectiva pós-holocausto, um estudioso visitante pergunta: ‘como uma civilização grande e sábia pode ter se destruído tão completamente?’ ‘Talvez’, responde um monsenhor, ‘sendo materialmente grande, materialmente sábia e nada mais’ (Miller, Canticle for Leibowitz, 139). Em termos práticos, isso equivale a uma afirmação tácita de que apenas injetando religião no discurso político materialista o desastre pode ser evitado; uma crença conhecida por fundamentalismo religioso, direito cristão ou uma variedade de outros rótulos”. Roberts entende que o interessante nessa questão é a abertura da FC a esse tipo de ficção teológica. “A tensão entre material e espiritual está ainda no cerne da FC. Não é apenas a questão do Pecado Original; é o anúncio – sedutor e atraente para os que vivem no monastério dos aficionados pela FC – de que a vocação legitima uma vida de outro modo marginalizada”.

 

E temos Duna (Dune, 1965), de Frank Herbert, uma das mais espetaculares obras da ficção científica, abordando não apenas o tema da religião, mas também da ecologia, engenharia genética, tramas políticas e a construção de um mundo alienígena como poucas vezes se viu no gênero.

(Capa: John Schoenherr).

O livro começou a ser esboçado com a publicação de uma série em três partes, Dune World, na revista Analog, em 1963-1964. Em 1965, Herbert publicou a história The Prophet of Dune, dividida em cinco partes, também na revista Analog. Herbert trabalhou esses textos, expandindo-os e revisando, mas teve dificuldades para encontrar uma editora que aceitasse o trabalho final, até que acertou com a Chilton Books, bastante conhecida no mercado pela publicação de manuais para automóveis.

                                                                                                                                                 (Capa: John Schoenherr).

Em The Visual Encyclopedia of Science Fiction os autores dizem que é questionável se as histórias da série Duna poderiam ter funcionado sem o elemento religioso. Na verdade, não há qualquer dúvida a esse respeito: a religião é elemento central na trama. O desenvolvimento do jovem Paul Atreides no profeta Muad’Dib determina o curso das ações, tanto no primeiro livro quanto nas sequências.
O planeta em questão é Arrakis, também conhecido como Duna, constituído praticamente por imensos desertos habitados pelos fremen, totalmente adaptados ao seu meio ambiente hostil. O Duque Leto Atreides é enviado com sua família para governar o planeta, substituindo a Casa Harkonnen, com a qual tem uma longa disputa. Na verdade, trata-se de um plano malévolo do Imperador para destruir os Atreides, que ele considera como eventuais candidatos a substituí-lo.
A ordem religiosa conhecida como Bene Gesserit também é um dos elementos essenciais na trama, envolvendo-se na política dos planetas e do Império. Além disso, a esposa do Duque Leto, Jessica, mãe de Paul Atreides, é uma Bene Gesserit, organização composta apenas por mulheres que, por meio de treinamentos especiais, obtêm poderes mentais fora do comum. O programa de procriação planejada das Bene Gesserit tem como objetivo produzir um Bene Gesserit macho, que chamam de Kwisatz Haderach, e que terá papel importante em seus planos de poder. Jessica recebeu ordens de ter uma filha para continuar com o cuidadoso programa de procriação, mas por amor a seu esposo, não apenas teve o filho Paul, como começou a treiná-lo nas habilidades secretas das Bene Gesserit.
O planeta ainda tem uma importância comercial fundamental para a manutenção do Império, uma vez que produz uma especiaria, a melange, uma droga capaz de provocar um estado de espírito alterado e promover visões do futuro. É utilizada para fornecer aos pilotos das frotas espaciais a capacidade de deslocarem suas naves pelo espaço, atravessando o que se poderia chamar de “hiperespaço”, ou realizar longas viagens de modo quase imediato.
Os fremen, habitantes originais do planeta, estão perfeitamente adaptados à vida no deserto, sobrevivendo com um mínimo de água graças ao seu controle rígido das condições de vida, o que inclui a utilização de roupas captadoras e destiladoras que reciclam a água perdida pelo corpo. No início da história, eles são a incógnita da situação, uma vez que ninguém conhece sua verdadeira força ou quantos são, uma vez que vivem escondidos em cavernas no deserto. E são eles quem têm o conhecimento dos locais onde a especiaria pode ser encontrada e qual a função dos “vermes” na produção da droga. Os vermes estão entre as grandes criações de vida alienígena da ficção científica, seres gigantescos que se deslocam na areia, alguns chegando a atingir milhas de comprimento; movem-se em direção a qualquer som produzido, engolindo o que estiver pela frente, mas os fremen sabem como controlá-los e até mesmo utilizá-los como montaria.

                                             Capa da primeira edição, adaptada da ilustração da Analog para The Prophet of Dune (Capa: John Schoenherr/ Chilton).

Como era previsto pelo Imperador, após chegar ao planeta, a família Leto é traída, com o Duque Leto sendo assassinado e os Harkonnen retomando o poder com a benção do Imperador. Jessica e seu filho Paul fogem para o deserto para não serem mortos e são resgatados pelos fremen, iniciando uma nova etapa em suas vidas, aos poucos adaptando-se aos seus costumes e ensinando a eles as técnicas de combate das Bene Gesserit.
Com o uso da especiaria, os poderes de Paul aumentam cada vez mais e ele passa a ser visto entre os fremen como o profeta, aquele capaz de levá-los à vitória sobre seus inimigos e fornecer-lhes uma vida melhor. Ele é capaz de ver o futuro, ou “os” futuros possíveis, seguindo pelos diferentes caminhos possíveis de futuro. Percebe que os fremen são os melhores guerreiros do universo e eles conseguem empurrar os Harkonnen para fora de seus domínios até conseguir dominar todo o planeta, exigindo a retirada do Imperador e praticamente fazendo-o abdicar do trono. Sua grande arma é a possibilidade de acabar com toda a especiais existente no planeta, tornando os voos espaciais impossíveis de serem realizados, isolando a humanidade em seus planetas de origem.
Assim, o planeta fica entregue aos fremen e um novo período de vida inicia-se no universo. Também se abre a possibilidade para o início de um jihad, uma guerra religiosa envolvendo a atuação dos fremen, com repercussões em todos os planetas habitados pela humanidade.

(Capa: Stephen Youll/ Spectra).

A história do Muad’Dib continuou com os livros: O Messias de Duna (Dune Messias, 1969); Os Filhos de Duna (Children of Dune, 1976); O Imperador-Deus de Duna (God Emperor of Dune, 1981); Os Hereges de Duna (Heretics of Dune, 1984); As Herdeiras de Duna (Chapterhouse: Dune, 1985). O imenso sucesso comercial e de crítica do livro inicial e, em parte, das sequências, também originou outras obras, como as que foram escritas por Brian Herbert, filho de Frank Herbert, e Kevin J. Anderson. Baseados em anotações de Frank Herbert, eles compuseram o que foi chamado de Prelude to Dune, com histórias situadas no período anterior ao do livro original e composto pelos livros Dune: House Atreides (1999); Dune: House Harkonnen (2000); e Dune: House Corrino (2001). Outra trilogia, Legends of Dune, situada 10 mil anos antes dos eventos de Duna inclui: Dune: The Butlerian Jihad (2002); Dune: The Machine Crusade (2003); e Dune: The Battle of Corrin (2004).

                                                                                                                                                                   (Capa: Chris Moore/ Hodder & Stoughton).

Brian Herbert ainda descobriu um esboço de 30 páginas deixado por seu pai para o que seria a sequência de As Herdeiras de Duna. Então, novamente com Kevin J. Anderson, desenvolveu os livros Hunters of Dune (2006) e Sandworms of Dune (2007). Posteriormente, outros livros foram acrescentados à série: Paul of Dune (2008); The Winds of Dune (2009); Sisterhood of Dune (2012); Mentats of Dune (2014); Navigators of Dune (2016). Herbert e Anderson também escreveram contos relacionados ao universo de Duna, reunidos no livro The Road to Dune (2005), que inclui o conto com o mesmo título, escrito por Frank Herbert em 1985.
A primeira tentativa de levar Duna ao cinema começou em 1973, com o diretor Alejandro Jodorowski, no que poderia ter sido o mais longo e espetacular filme de ficção científica, se ele tivesse sido finalizado. O roteiro previa um filme com cerca de 14 horas de duração e a presença inacreditável de artistas como Pink Floyd e Magma para a trilha sonora; dos artistas H.R. Giger, Chris Foss e Jean Giraud, mais conhecido como Moebius; e as participações, entre outros, de Orson Welles, Salvador Dali, David Carradine e Mick Jagger; além do roteirista Dan O’Bannon e de Douglas Trumbull, especialista em efeitos marcado por seu trabalho em 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968). O filme não aconteceu por problemas no financiamento e, claro, porque ninguém queria se arriscar a colocar dinheiro em um filme com 14 horas de duração. Hoje em dia, se alguém pensasse em filmar esse roteiro, poderia dividir em três ou quatro partes; como comparação, os três filmes originais de O Senhor dos Anéis têm mais de nove horas de exibição; os três filmes da série O Hobbit têm quase oito horas de exibição.
Seja como for, a primeira adaptação para o cinema surgiu em 1984, com produção de Dino DeLaurentiis e direção de David Lynch. O filme foi um fracasso de público e não foi bem recebido pela crítica, além de desagradar muitos fãs da série.
Uma nova versão está sendo produzida (ainda em 2018), com direção de Denis Villeneuve, o mesmo do excelente A Chegada (Arrival, 2016) e de Blade Runner 2049.

Alec Newman como Muad'Dib, em Duna, a minissérie (Milk & Honey Pictures/ Evision/ New Amsterdam Entertainment).

Uma boa adaptação foi produzida para a TV em 2000, uma minissérie em três partes apresentada no canal SyFy (na época, ainda Sci-Fi Channel), com roteiro e direção de John Harrison. Uma sequência, Children of Dune (2003), teve roteiro do mesmo John Harrison e direção de Greg Yaitanes, combinando as histórias de dois livros da série, O Messias de Duna e Os Filhos de Duna. As minisséries foram muito bem recebidas pelo público e pela crítica, recebendo o Prêmio Emmy.

(Capa: Dan Adkins).

O segundo livro da série, O Messias de Duna – originalmente publicado em série na revista Galaxy (1969) – continua a saga do Muad’Dib, cuja vitória sobre os Harkonnen e o Imperador deu início ao jihad, como ele próprio havia previsto em suas visões do futuro. Os fremen e outros povos que passaram a considerá-lo quase como um deus, uniram-se e se espalharam pelo universo, levando a religião, a violência e a morte a centenas de mundos e bilhões de pessoas, para desespero do próprio Paul/ Muad’Dib. Como o messias, ele continua procurando caminhos em suas visões, tentando encontrar a forma mais adequada para deter o jihad e as matanças. Seus inimigos continuam conspirando, unindo forças, de modo que o livro dá continuidade às tramas políticas complexas e violentas.

                                                                                                                                                  (Capa: Bruce Pennington/ New English Library).

Em seu livro A Verdadeira História da Ficção Científica, Adam Roberts dedicou uma análise extensa e profunda a Duna, dizendo que “Poderíamos chamar o livro de católico (a religião oficial do Império Galáctico é uma combinação de católico-romana e protestante, baseada no que Herbert chama ‘a Bíblia Católica de Orange’). A novela se associa a um aspecto particular das tradições da FC: antitecnológico, místico e transcendente. No Império Galáctico de Herbert, os computadores são proibidos por decreto religioso (‘Não farás uma máquina à semelhança de um homem’); humanos com talentos especiais, chamados mentats, capazes de uma rapidez de cálculo e pensamento parecida com a de um computador, tomaram o lugar deles. Embora existam espaçonaves e alguns itens de tecnologia, a vida em geral é vivida de acordo com uma lógica pré-Revolução Industrial. Mas Herbert usa o cenário do deserto para investigar as duas grandes tradições religiosas do deserto: o salvador humano islâmico (Muad’Dib, somos informados, significa ‘camundongo do deserto’, mas nos faz lembrar bastante de ‘Mahdi’ [Numa escatologia islâmica, Mahdi é o redentor que permanecerá alguns anos na Terra antes do Dia do Juízo e livrará o mundo do Mal. (N. do T.)] e o divino Messias judaico-cristão”.

(Capa: Gerry Grace/ New English Library).

Roberts lembra que a ideia de Frank Herbert para o livro começou com um conceito, que era o de escrever uma extensa novela sobre as convulsões messiânicas que se impõem de forma periódica às sociedades humanas, entendendo que os super-heróis eram desastrosos para os humanos. Assim, “Os títulos das continuações do livro”, explica Roberts, “deixam nítido o viés teológico: O Messias de Duna (1969), em que Paul, cego por uma tentativa de assassinato, se martiriza caminhando sozinho no deserto; O Imperador-Deus de Duna (1981), o quarto na série, em que o filho de Paul, Leto, transforma-se em um gigantesco verme que governa por mil anos como tirano. Herbert não escreveu Führer of Dune [Führer de Duna] ou mesmo President of Dune [Presidente de de Duna] e, por certo, não há Separação de Igreja e Estado em Duna. Na realidade, à medida que a série avança, ela aprofunda e torna mais complexa sua percepção inicial quanto à lógica fundamentalmente religiosa de extrapolação da FC. Em Duna, o Messias se mostra ‘desastroso para os humanos’ meramente em função da comoção política que causa – guerra, incerteza e assim por diante – mas esse é o tipo de desastre que qualquer líder político convencional pode provocar. Na época de O Imperador-Deus de Duna, a compreensão de Herbert desse desastre é muito mais profunda. Leto, monstruosamente personificado como um verme gigantesco, embora mantendo a consciência em essência humana, é ao mesmo tempo governante e Deus; sua tirania ultrapassa em muito as opressões comuns do governo totalitário. Como é um deus, seu total conhecimento do cosmos cerceia a humanidade de um modo muito mais metafisicamente restritivo. O problema aqui é a viabilidade do livre-arbítrio humano e, portanto, da exposição (em vez do encobrimento) da vitalidade humana. Só desejando sua própria morte e enviando a humanidade em um êxodo em massa para a galáxia inexplorada pode Leto sair do impasse. A realização de Herbert, em outras palavras, foi apresentar a vinda do Messias em um contexto político examinado com precisão, mencionando, ao fazê-lo, como o impulso messiânico estava próximo do impulso fascista (O Imperador-Deus de Duna leva meu voto como uma das sátiras mais eficientes já escritas sobre o fascismo)”.

                                                                                                                                                               (Capa: John Schoenherr/ Ace Books).

Roberts também ressalta algumas falhas da obra, como o estilo pesado de Herbert, incapaz de concisão, com uma prosa muitas vezes entregue ao diálogo e monólogo interior. Ele também entende que não se deve confundir a “potência (inegável) da mise en scène de Herbert com uma construção de mundo no sentido usual da expressão. São duas coisas diferentes, e, na verdade, a segunda tem sérios problemas – sendo o mais óbvio a ausência de algum meio pelo qual a atmosfera de Arrakis pudesse ser oxigenada (...) Na verdade, os desertos de Duna funcionam de modo eloquente como metáfora e significante topológico, destituído o bastante de traços convencionais (o mapa do frontispício é uma página branca pouco manchada por linhas pontilhadas que mostram um ou outro detalhe) para introduzir o despojado espaço estético e imaginativo. A novela medeia percepções ocidentais da Arábia e do islã de forma imaginativa e envolvente”.
Adam Roberts prossegue dizendo: “Em mais dois aspectos, a novela se mantém excepcional: o alcance e a complexidade de sua representação da história; e sua presciente antecipação do tipo de preocupações ambientalistas (ecologia no idioma dos anos 1960) que, mais tarde, tornaram-se centrais do ponto de vista cultural. Duna foi, na verdade, a primeira novela com um tema ecológico a ter um impacto cultural importante, já que Primavera Silenciosa (Silent Spring) (1962), de Rachel Carson, não era ficção. Os fremen de Herbert vivem e prosperam na extrema aridez de seus ambientes por estarem finamente sintonizados com eles, mas acumulam água, esperando um dia terraformar Arrakis em um lugar mais amável, mais úmido – uma esperança que é satisfeita no decorrer da série. As novelas Duna são uma dramatização detalhada da maneira como o ambiente, em seu sentido mais pleno, molda tanto povos quanto indivíduos”.

(Capa: Don Ivan Punchatz/ Ace Books).

Ele entende que o relato que Herbert faz da história também está à frente de seu tempo. “Duna foi escrita em oposição explícita à trilogia Fundação (1951-3), de Asimov, ou, mais em particular, em oposição ao antiquado positivismo da versão de Asimov da história, algo que ele acreditava ser passível de exata previsão científica. Herbert, ao contrário, vê a história, em sua escala mais ampla, como caótica e encontra uma série de metáforas expressivas para isso na novela (por exemplo, os redemoinhos dentro de uma tempestade de areia através da qual Paul tem de navegar seu ornitóptero se não quiser ser despedaçado pela fúria do tempo). Embora Paul possa ver o futuro, o futuro que ele vê está repleto de pontos cegos e permanece, sob aspectos cruciais, indeterminado. A profecia se mostra muito ambígua. Herbert vê também com bastante agrado a história como longue durée, algo que o simples conteúdo maciço da edição completa das novelas agrega ao leitor. Na verdade, Duna procura chegar a um quadro político-histórico mais plenamente realizado do que até então se tentara fazer no gênero e consegue produzir uma impressão de complexidade que evita se tornar confusa ou indigesta”.


VEJA A SEGUIR OUTRAS OBRAS QUE TAMBÉM ABORDAM NOVAS RELIGIÕES NA FC


ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS? (Do Androids Dream of Electric Sheep?. 1968)
Philip K. Dick.
Ainda que não o melhor, certamente o mais conhecido livro de Philip K. Dick, Blade Runer também dá uma atenção à religião, ainda que não com a mesma importância do que em outros livros como Valis (ver também a matéria Luz Cor-de-Rosa na Cabeça), A Invasão Divina ou O Deus da Fúria (ver também a matéria O Deus da Fúria).
No filme de Ridley Scott o elemento religioso praticamente desapareceu, ainda que possamos considerar a busca dos replicantes por seu criador como uma aproximação apropriada ao tema. No entanto, Dick criou uma religião própria ao período em que se passa a história: o mercerismo. A religião foi fundada por Wilbur Mercer e os que a seguem possuem um aparelho que os coloca em contato, uma fusão física acompanhada de identificação espiritual. Não apenas com o próprio Mercer, mas com todos os humanos que utilizam o aparelho.
Uma das máximas do mercerismo é explicitada na frase “Tu Matarás apenas os assassinos”, sem que o conceito de quem sejam “os assassinos” seja claramente definido, uma vez que um mercerista sente o mal sem o compreender. Dessa forma, ele está livre para localizar a presença do mal, ou dos assassinos, da maneira que achar mais conveniente.
Como um dos pontos centrais do livro é a dificuldade em definir quem é androide e quem é humano, o aparelho utilizado pelos merceristas funciona como mais um item para distanciá-los. O pensamento que prevalece na sociedade é o de que os androides são solitários, ao contrário dos humanos que têm empatia, um relacionamento racial intenso, o que só é ampliado pelo contato mental e espiritual experimentado no mercerismo.
Só que o mundo mostrado em Blade Runner, como em tantos livros de PKD, é composto de imagens falsas, de ilusões, de realidades ocultas, de modo que os humanos acabam sendo mostrados como sendo tão solitários e individualistas quanto os androides, e o próprio mercerismo desmascarado como uma fraude, em especial a experiência de empatia que uniria todos os humanos.


OS AMANTES DO ANO 3050 (The Lovers, 1961)
Philip José Farmer.

(Capa: Earle K. Bergey).

Brian Stableford (em The Science Fiction Encyclopedia) disse que Philip José Farmer foi o escritor que mais teve preocupações religiosas com relação à FC no final dos anos 1950 e início dos 1960, começando com Os Amantes do Ano 3050, originalmente publicado em 1952, na revista Startling Stories. A religião aqui é apresentada na forma como a sociedade e o governo terrestre estão organizados, com os costumes baseados no Talmude, e o mundo praticamente dividido em castas rígidas. Apesar disso, o livro ficou mais conhecido pela forma como as relações são apresentadas.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           (Capa: Ed Emshwiller).

O livro O Dia em que o Tempo Parou (The Day of Timestop, 1960) foi apresentado como uma sequência a The Lovers. Também foi publicado com os títulos A Woman a Day e Timestop. É uma expansão da história Moth and Rust, publicado em 1953 na revista Startling Stories. Farmer continua explorando as possibilidades de religiões futuras, dessa vez imaginando que um homem chamado Sigmen iniciou uma nova religião no planeta.
Outra abordagem surgiu no livro Carne (Flesh, 1960), também mais voltada para os relacionamentos sexuais, mas que apresenta uma Terra do futuro em que as pessoas passaram a seguir antigos cultos pagãos.


O JOGO DO EXTERMINADOR (Ender’s Game, 1985)
Orson Scott Card.
O primeiro de uma série de livros com temática interligada, O Jogo do Exterminador não tem uma história especificamente voltada para a religião, mas introduz o assunto ao final dos eventos narrados ao apresentar o livro O Orador dos Mortos, criado pelo personagem central, Andrew "Ender" Wiggin, que seria o centro de desenvolvimento de uma nova religião, apresentada mais profundamente no livro seguinte, O Orador dos Mortos (Speaker for the Dead, 1986). Outro livro na sequência foi Xenocídio (Xenocide, 1991). Outros livros na sequência: Os Filhos da Mente (Children of the Mind, 1996. Devir); Ender’s Shadow (1999); Shadow of the Hegemon (2000); Shadow Puppets (2002); First Meetings (2002); Shadow of the Giant (2005); A War of Gifts: An Ender Story (2007); Ender in Exile (2008); Shadows in Flight (2012).


MESSIAS (Messiah, 1954)
Gore Vidal.

(Capa: Richard Powers/ Ballantine Books).

Gore Vidal inventou a religião cavita (no original, “cavism”), fundada por John Cave, um coveiro que ensinava que não se devia temer a morte; ao contrário, devíamos desejá-la. Com o desenvolvimento da religião ela se espalha pelo mundo, ocupando o lugar do Cristianismo, que tem sua memória sistematicamente apagada pelos seguidores cavitas.

 

 


AS SEREIAS DE TITÃ (The Sirens of Titan, 1959)
Kurt Vonnegut Jr.

(Capa: Richard Powers/ Dell Books).

Entre os inúmeros acontecimentos absurdos que marcam o livro sensacional de Kurt Vonnegut Jr., está a criação da uma nova religião, a Igreja de Deus, O Absolutamente Indiferente, surgida no planeta após uma guerra. A religião propõe que Deus existe, mas que não liga a mínima para o que acontece no universo, e menos ainda com os seres humanos.

                                                                                                                                           (Capa: Adalis Martinez).

Vonnegut desenvolveu uma religião mais complexa em Cama de Gato (Cat’s Cradle, 1963. Ed. Record). Trata-se do bokonismo, culto que existe na ilha (imaginária) de San Lorenzo. A religião foi fundada por Bokonon, que foi um dos governantes da ilha, e um desertor da Marinha dos EUA; com isso, pretendiam ter maior controle sobre a população. Claro que, como se trata de Vonnegut Jr., a religião tem rituais ridículos, como as pessoas terem contato com as solas nuas de seus pés para obtenção de paz e alegria. No momento em que a história se passa, a religião foi proibida e seu culto punível com a morte, ainda que todos, incluindo o atual governante, ainda a pratiquem e nenhuma execução tenha sido realizada. A ideia era dar à religião um ar de algo proibido, desviando a atenção da população dos problemas econômicos.


A PARÁBOLA DO SEMEADOR (Parable of the Sower, 1993)
Octavia Butler.
O livro da famosa escritora norte-americana (falecida em 2006) apresenta a religião Semente da Terra, baseada na ideia de que “Deus é mudança”. A história se passa num futuro não muito distante, com o planeta sofrendo os efeitos de mudanças climáticas e o crescimento das grandes corporações. A religião, ou fé, foi desenvolvida pela personagem central, Lauren Oya Olamina, que vivia numa comunidade fechada e protegida, mas sua casa é destruída, com sua família sendo assassinada, de modo que ela tem de vagar em direção ao norte com um grupo de sobreviventes, percebendo que o racismo e o fundamentalismo religioso tomaram conta do país. Ela acaba fundando a primeira comunidade baseada em seu pensamento religioso, o que inclui a crença de que o destino da raça humana é o de viajar para outros planetas, o que levará a humanidade a atingir sua maturidade.
 


FUNDAÇÃO (Foundation, 1951-1953)
Isaac Asimov.

(Capa: Michael Whelan/ Del Rey-Ballantine).

No famoso livro de Asimov, os cientistas do planeta Terminus encontram imensa dificuldade para fazer os habitantes e governantes dos planetas seus vizinhos a entender a diferença entre religião e ciência, de modo que, para poderem negociar mais apropriadamente com eles, resolvem se apresentar aos demais como uma religião, com os cientistas e técnicos organizados como se formassem uma ordem, e os embaixadores sendo os Altos Sacerdotes. Ainda que não tivesse um nome específico, às vezes era chamada de Igreja da Ciência.

 

 

 


BATTLESTAR GALACTICA (2004-2009)
Criação de Glen A. Larson e Ronald D. Moore.

(British Sky Broadcasting/ David Eick Productions/ NBC Universal Television/ R&D TV/ Stanford Pictures/ Universal Media Studios).

A nova versão do seriado da TV (ver também a matéria Guerra no Céu e na Terra) tem na religião um de seus aspectos centrais, uma vez que os humanos que habitam as Doze Colônias seguem uma religião politeísta, enquanto os cylons, os robôs e androides que liquidam com os humanos, são monoteístas. As questões religiosas alavancam grande parte das ações violentas dos cylons e as respostas dos humanos, ainda que posteriormente eles tenham feito uma aliança.
No seriado original dos anos 1970/1980, os cylons eram robôs criados por uma raça alienígena já desaparecida. Na nova versão, eles são criação dos próprios humanos, o que torna ainda mais interessante o confronto entre eles, como o confronto dos replicantes de Blade Runner contra seu criador.


GUERRA NAS ESTRELAS (Star Wars, 1977 em diante)

Alec Guinnes em Guerra nas Estrelas (Lucasfilm/ Twentieth Century Fox).

O conceito básico não apenas do primeiro filme, mas de todos os demais da série, é basicamente religioso: a existência de uma “força” que permeia o universo, de origem desconhecida, mas que pode ser acessada por pessoas com treinamento e/ou capacidades psíquicas especiais, para o bem ou para o mal. O confronto físico entre o Bem e o Mal é uma extensão, para a nossa dimensão, da existência dessa “força”.
A ideia remete a religiões terrestres tão antigas quanto o Zoroastrismo, com a dualidade Bem/Mal representada por Ahura Mazda e Ahriman; ou mesmo o conceito cristão de um universo governado por um Deus benevolente, sempre ameaçado pelo Mal. Não por acaso fala-se de “o lado negro da força”, algo que nos remete à figura de Lúcifer ou Satanás da cristandade.
Os Jedi estão conectados com o “lado bom” da força, enquanto os Sith estão conectados ao “lado ruim” da força.


STARGATE (Stargate, 1994 em diante)

Jaye Davidson, como Ra (Canal+/ Centropolis Film Productions/ Carolco Pictures).

O filme que originou as séries de TV, dirigido por Roland Emmerich, já apresentava uma relação com conceitos religiosos que existiram no antigo Egito. Os deuses adorados e temidos pelos egípcios nada mais eram do que alienígenas, no caso, um alienígena de uma raça parasita que se utilizava de corpos terrestres para se manter imortal.
No filme, essa raça alienígena não é nomeada, mas na série Stargate SG-1 (1997-2007) é dito que se trata dos Goa’uld, que no seriado se tornam os grandes inimigos e a maior ameaça à Terra.
Posteriormente, também surgiram os Ori, seres que vivem num plano superior de existência e que gostam de se apresentar aos seres dos planos inferiores – como o nosso – como deuses. Para tal, desenvolveram e introduziram uma religião, Origin, por meio da qual controlam as criaturas dos “planos inferiores”, procurando destruir qualquer planeta que rejeite sua religião.
Os Ori formavam uma sociedade única com os Ancestrais, mas eles se separaram após desentendimentos, uma vez que os Ori se apegaram cada vez mais à religião, enquanto os Ancestrais seguiram por uma linha científica. Os Ancestrais são tidos como os colonizadores da Via Láctea e os construtores dos portais, os “stargates” que são o ponto central da série, permitindo que se viaje longas distâncias de forma quase imediata.
Como o portal considerado o mais antigo é exatamente o que foi descoberto na Terra, na Antártida, é lógico supor que os Ancestrais tiveram influência nas civilizações terrestres mais antigas, tendo a Terra como a capital do imenso império que construíram em nossa galáxia. Mais do que isso, eles podem até mesmo ter sido os responsáveis pelo desenvolvimento da vida humana no planeta.
A presença dos Ancestrais também está relacionada com o mito da Atlântida, tornado real na série Stargate Atlantis (2004-2009), quando os terrestres descobrem o portal que os leva à cidade perdida dos Ancestrais, Atlantis, uma cidade-nave localizada na Galáxia Pégaso.
(Ver também a matéria Os Primeiros Extraterrestres).