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MIL CIDADES
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FILMES/VE Mil Cidades
autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data15/1/2016 19:07:44
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resumoAs cidades são parte importante e, às vezes, fundamental das histórias da literatura fantástica, com destaque para a ficção científica e a fantasia.



(Foto: Jeferson Gondim).

As cidades estão por toda a parte na literatura fantástica.
Na ficção científica, mesmo quando não são o centro ou parte importante da história, são um pano de fundo importante, e ainda mais no cinema do gênero, no qual existe uma preocupação maior com o aspecto visual – especialmente nos filmes mais recentes.
Na literatura de fantasia, igualmente, as cidades frequentemente têm papel importante na elaboração das histórias, quando não uma importância central, fundamental.
Nas histórias de terror, as cidades podem ter uma participação menor, mas ainda assim surgem como o foco de males inomináveis, a morada de apavorantes seres ancestrais. H.P. Lovecraft e Stephen King utilizaram muito bem esse ambiente, tanto em cidades situadas em nosso mundo quanto em cidades perdidas no tempo ou em outros universos.
Claro que tudo isso é um tanto óbvio, uma vez que as cidades estão no centro da civilização na Terra, desde a Suméria até um futuro apenas imaginado, e a literatura aborda a vida na cidade de diferentes maneiras.

(Foto: Jeferson Gondim).

O estudo histórico das cidades é central para a compreensão da civilização humana e para traçar rumos futuros. No livro A Cidade na História (Ed. Martins Fontes), o historiador norte-americano Lewis Mumford (1895-1990) diz que não há definição que se aplique sozinha a todas as manifestações da cidade, ou descrição isolada que cubra todas as suas transformações. E ainda: “As origens da cidade são obscuras, enterrada ou irrecuperavelmente apagada uma grande parte de seu passado, e são difíceis de pesar suas perspectivas futuras”.
Na ficção científica, esse exercício de imaginação quanto ao futuro das cidades é um dos eixos principais das histórias. Lewis Mumford pergunta se ainda existe uma alternativa real a meio caminho entre Necrópolis e Utopia, ou seja, “a possibilidade de se construir um novo tipo de cidade que, livre das contradições interiores, enriquecerá e incentivará de maneira positiva o desenvolvimento humano”? E a literatura fantástica tem lidado com essa especulação desde sempre.

Em The Science Fiction Encyclopedia, escrevendo o verbete sobre “cidades”, o escritor Brian Stableford diz que “a cidade é o ponto focal da civilização, e imagens da cidade do futuro evidenciam as expectativas e os medos com os quais nós imaginamos o futuro da civilização”.
Assim, as cidades quase sempre são o ponto central das histórias chamadas distópicas. Stableford entende que isso ocorre porque a imagem do futuro que se tornou predominante em nossa civilização é distópica; ele lembra que o crescimento das cidades durante a revolução industrial criou ambientes não apenas poluídos, mas repletos de crimes, doenças e vícios terríveis. E, desde então, essa situação das cidades não melhorou muito. Mesmo nas histórias utópicas, lembra Stableford, o desencantamento com a situação das cidades era evidente, de modo que se propunha que as cidades “ideais” fossem reconstruídas do zero, livres dos imensos problemas que as caracterizavam.
Stableford diz que em boa parte das histórias de ficção científica anteriores à “era Hugo Gernsback” (1884-1967) – a quem é atribuída a invenção do termo science fiction, numa edição da revista Amazing Stories, em 1926, que ele editava – as cidades apresentam o mesmo tipo de contrastes existentes nas cidades da vida real, em particular entre ricos e pobres.
Ele cita como exemplos desse período a história Caesar’s Column (1890), de Ignatius Donnely (1831-1901) – o mesmo autor de Atlântida, o mundo antediluviano (1882), tido como o precursor da “onda” de estudos sobre o continente perdido da Atlântida do século 20; o conto distópico A Story of the Days to Come (1897), de H. G. Wells, situado na Londres do século 22, com 30 milhões de habitantes e as classes menos privilegiadas vivendo no subterrâneo, enquanto os ricos moram em edifícios gigantescos; o romance, também de H. G. Wells, When the Sleeper Wakes (1899), sobre um homem que dorme por 203 anos e acorda como o homem mais rico do mundo devido a uma herança e investimentos realizados, e se vê no meio de uma revolução que mal compreende; e Metrópolis (1926), o filme clássico de Fritz Lang, realizado a partir do romance de Thea von Harbou.

Já a partir do que Stableford (e outros autores e críticos) denomina a “era moderna” da ficção científica, ou seja, do final dos anos 1930 até hoje, o escritor entende que as histórias de cidades seguem três estereótipos básicos. O primeiro, apresentando o contraste entre a cidade e a floresta ou natureza que cerca essa cidade, estabelecendo uma oposição entre a vida na cidade e no campo. O segundo estereótipo mostra a cidade em ruínas, decadente e morrendo. E o terceiro mostra o próprio ambiente urbano, geralmente impessoal e hostil.
É claro que essas formas básicas de tratar o tema incluem inúmeras e diferentes aproximações, além de nem sempre serem o único tema a ser apresentado nas histórias. Stableford diz que as histórias do primeiro tipo, apresentando o contraste entre as duas formas de sociedade, muitas vezes envolve o “fechamento” da cidade, o que pode ser por um domo ou um muro, por exemplo, como ocorre na recente trilogia Divergente, de Veronica Roth, que também está sendo apresentada nos cinemas. E, é claro, é uma distopia.

When the Sleeper Wakes (Ace Books).






A automatização da cidade também pode ser uma forma de “fechamento” para o mundo exterior, como ocorre no excepcional A Cidade e as Estrelas (The City and the Stars, 1956), de Arthur C. Clarke; ou no belíssimo filme de estreia de George Lucas como diretor, THX 1138 (1971), uma distopia na qual androides compõem a força policial de uma cidade subterrânea, numa sociedade opressiva e absolutamente sem graça. No filme de Lucas, a procura por uma forma de sair desse ambiente opressivo é um dos temas centrais, e ele se repete em várias obras do gênero, muitas vezes propondo um retorno à natureza ou a uma condição anterior de desenvolvimento, como um recomeço e tentativa de construir uma vida melhor. Nesse sentido, a imagem final de THX 1138 é bem significativa, com uma explosão de cores em oposição ao mundo branco e insípido no qual o personagem THX (Robert Duvall) vivia.


 Robert Duvall e Maggie McOmie, em THX 1138 (American Zoetrope/ Warner Bros.).  

O ambiente insípido e controlado do futuro imaginado por George Lucas em THX 1138. 






Talvez o exemplo mais conhecido do segundo estereótipo levantado por Stableford seja o clássico Cidade (City, 1952), de Clifford D. Simak, para muitos fãs e críticos de fc (e também para este humilde escriba), um dos melhores e mais interessantes livros do gênero.
No Brasil, Cidade foi publicado pela heroica (e também polêmica) Edições GRD, editora de Gumercindo Rocha Dórea, em 1961. O livro é dividido em oito contos, originalmente publicados entre 1944 e 1951, e reunidos para contar a história de uma cidade, e uma civilização, que se transforma e abandona o planeta, enquanto uma nova cultura, a dos cães, começa a se desenvolver na Terra.

Capa da primeira edição de City (Gnome Press).


Os contos são narrados desde “tempos antigos” pelos cães e fazem parte da “lenda dos homens”, os seres que, segundo se diz, um dia habitaram o planeta. As histórias não apenas mostram a evolução dos cães até o ponto de se tornarem uma raça falante, mas evidenciam a evolução e a queda da civilização humana, com foco na cidade na qual está centrada toda a cultura e tecnologia, e que se transformou em ruínas.
Não sem humor, Simak apresenta comentários dos editores (cães do futuro distante) que se referem à possibilidade ou não da existência de um ser chamado Homem. A tendência dos cães é a de crer que o Homem tenha sido inventado nos primórdios da civilização canina, como uma espécie de deus. Os cães também encontram imensa dificuldade em compreender conceitos como a Cidade ou a Guerra, muito distantes do seu atual modo de pensar.
O livro segue alguns dos conceitos básicos de Clifford D. Simak, que aparecem em outros livros, em particular a oposição entre natureza e tecnologia. Em alguns livros, ele propõe um caminho em que ambas se encontram e conseguem conviver; em outros, elas se opõem de forma definitiva, impossibilitando qualquer tipo de convivência. Às vezes, as histórias seguem na direção de um confronto do tipo “Bem x Mal”, o que não ocorre em Cidade.
O fim da cidade é apresentado como algo bom, por significar a volta à natureza e o fim das neuroses e pressões existentes nas grandes cidades, que são bem conhecidas de todos nós, habitantes dos séculos 20 e 21. Por outro lado, a saída que ele apresenta ocorre por meio da ciência e tecnologia bem aplicadas.
É uma pena que o livro não tenha sido reeditado no Brasil desde os anos 1960. Além dessa história básica, ainda lida com conceitos de filosofia – que, na verdade, muda a humanidade e os cães para sempre –, e com a abordagem de universos e mundos paralelos, que Simak apresenta em muitas de suas obras. E, de quebra, traz o personagem Jenkins, um dos robôs mais fantásticos da história da ficção científica.

Referindo-se ao terceiro estereótipo que elaborou, Brian Stableford diz que seu desenvolvimento ocorreu posteriormente – e, com isso, ele quer dizer os anos 1950 – e “envolve não apenas a representação da vida na cidade como algo desagradável e alienante, mas o exagero estratégico das formas e aspectos da cidade, para realçar suas qualidades hostis e assustadoras”. Um exemplo desse realce ocorre em Caça aos Robôs (The Caves of Steel, 1954. Em Portugal, pela Argonauta, com o título As Cavernas de Aço), de Isaac Asimov.
O livro segue na linha das histórias de robôs apresentadas em Eu, Robô (I, Robot, 1950) e também foi uma tentativa de Asimov de formatar a sua “história do Império”. Basicamente, é uma história de detetive, apresentando uma dupla que ficou bastante conhecida na ficção científica: o humano Elijah Baley e o robô Daneel Olivaw. Asimov apresenta a Terra superpovoada, com cidades imensas e totalmente fechadas ao exterior, de modo que a população sofre de agorafobia – além de detestar robôs.
Existem muitos exemplos posteriores desse tipo de caracterização, em particular as histórias em que as cidades são superpovoadas, o que causa imensos e variados problemas, solucionados ou não. Aqui, mais uma vez chegamos aos ambientes distópicos, e esse tipo de cidade tornou-se bastante comum nas histórias dos anos 1960/70. Vamos comentar várias delas nas matérias a seguir.