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OS PORTAIS PARA OUTROS MUNDOS

FILMES/VE MUNDOS PARALELOS E ALTERNATIVOS

autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data9/2/2018
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OS PORTAIS PARA OUTROS MUNDOS

 

Certamente, a travessia de Dorothy para o mundo de Oz é uma das imagens mais conhecidas do gênero em todos os tempos, não só pelo livro de L. Frank Baum, mas especialmente pelo filme com Judy Garland. Provavelmente, só tem como equivalente as passagens de Alice em Aventuras de Alice no País das Maravilhas e em Através do Espelho, chegando ao mundo paralelo seja através da toca do coelho, seja pelo espelho.
Vistas do ponto de vista da ficção científica, essas histórias provavelmente poderiam se situar entre as histórias de mundos paralelos, enquanto pelo ponto de vista da fantasia – considerando a definição de John Clute na primeira matéria deste Especial – seriam mundos alternativos.
Seja como for, estão entre os primeiros e mais importantes exemplos de personagens atravessando de um mundo, o nosso, para outro que se encontra paralelo ao nosso.
O Mágico de Oz foi o primeiro livro da série de aventuras situadas na terra de Oz, um mundo paralelo ao nosso, ao qual a pequena Dorothy tem acesso após ser capturada por um ciclone, junto com seu cão Toto. A história está entre as mais conhecidas da literatura, e também do cinema, uma vez que originou um dos filmes mais famosos de todos os tempos, O Mágico de Oz, com Judy Garland no papel principal.
No especial "Mil Cidades", falamos bastante do aspecto geográfico desse mundo paralelo, na matéria Cidades Fora do Tempo, para quem se interessar.
Como John Clute diz em The Encyclopedia of Fantasy, “através de várias passagens, os personagens constantemente se deslocam do Kansas para essa terra de magia dos seus sonhos – pelo menos até que Oz finalmente se torna invisível... até que os protestos dos leitores forçassem um reaparecimento. Ao mesmo tempo, Oz representa uma contradição ao mundo ‘real’ (daí, portanto, a aversão que educadores e bibliotecários dos EUA notoriamente sentiram pela série). É um tipo de Éden habitado por criaturas ‘não caídas’, e permanece em contraste radical com a implacável servidão da região empobrecida do Kansas [...]”.
Uma versão moderna espetacular é a apresentada em Maligna (1995), de Gregory Maguire, revendo a história da terra de Oz sob o ponto de vista da chamada “bruxa má”.

                       Shaun Cassidy Prod./ Oedipus Prod./ Universal Television).

O filme O Mágico de Oz acabou se tornando tão famoso quanto o livro e, para alguns críticos, está entre os maiores musicais de todos os tempos. Também foram feitas inúmeras adaptações para o cinema e televisão, tanto do livro inicial quanto de algumas sequências, incluindo a série Emerald City (2017), apresentada no Brasil, mas cancelada após a primeira temporada.
Da mesma forma, foram dezenas de adaptações das aventuras de Alice para o cinema e televisão, nem todas muito bem recebidas, o que não foi o caso das mais recentes, Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010), dirigido por Tim Burton, e a sequência Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking Glass, 2016), dirigido por James Bobin e produzido por Tim Burton.

Veja a seguir obras que tratam do tema na literatura, cinema e televisão, apresentadas em ordem cronológica.

 

AS CRÔNICAS DE NÁRNIA (The Chronicles of Narnia, 1950-1956)

(Martins Fontes).

Outra “passagem” sensacional para um mundo paralelo, feita através de um guarda-roupa. O mundo de Nárnia é um dos mais conhecidos e importantes da fantasia em todos os tempos, gerando inúmeras discussões e estudos, em particular pela introdução de elementos religiosos cristãos ao longo da história, ainda que de forma simbólica.
Em The Science Fiction Encyclopedia, Peter Nicholls diz que a obra de ficção mais popular de C.S. Lewis é “mais uma fantasia alegórica do que ficção científica, ainda que utilize muitos artifícios da FC, incluindo viagem no tempo, outras dimensões e mundos paralelos”. Ele também faz referência aos temas cristãos que surgem na obra, lembrando que Aslan, o leão governante de Nárnia, “é crucificado por uma bruxa má. Existem muitos perigos descritos de forma fascinante, muitos com uma clara aplicação alegórica cristã”.
Também David Langford, em The Encyclopedia of Fantasy, diz que “Apesar de passagens descuidadas e o menosprezo de Tolkien, o primeiro livro de Nárnia teve sucesso através do poder genuíno de seu tema ‘morte e renascimento’. [...] As crianças aceitam as histórias rapidamente, muitas vezes não detectando a agenda cristã até, talvez, o último livro”.
O aspecto simbólico cristão também é realçado em The Ultimate Encyclopedia of Fantasy, em particular ao referir-se a Aslan, o leão falante que é sacrificado e que ressuscita no primeiro livro. “Quando a série prossegue se torna cada vez mais claro que Aslan é outro aspecto de Cristo”.
As histórias tiveram várias adaptações, para cinema e televisão, a começar por The Lion, the Witch and the Wardrobe, seriado inglês em 10 episódios produzido pela ITV em 1967, baseado no primeiro livro da série. A direção foi de Helen Standage, com roteiro de Trevor Preston.
A BBC também produziu adaptações de quatro livros para a TV, a partir de 1988, com The Lion, the Witch and the Wardrobe; em 1989 apresentou Prince Caspian e The Voyage of the Dawn Treader; em 1990, The Silver Chair.

As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian (Walt Disney Pictures/ Walden Media/ Ozumi Films/ Pakt Media/ Silverbell Films/ Stillking Films).

Mais recentemente surgiram os filmes produzidos pela Walt Disney Pictures e Walden Media, com As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (The Chronicles of Narnia: The Lion, The Witch and the Wardrobe, 2005), dirigido por Andrew Adamson. Em 2008 foi a vez de As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian (The Chronicles of Narnia: Prince Caspian), novamente com Adamson na direção. Em 2010 surgiu As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada (The Chronicles of Narnia: The Voyage of the Dawn Treader), com direção de Michael Apted e produção da Fox 2000 Pictures e Walden Media. O quarto filme, baseado em The Silver Chair, está em produção, com Joe Johnston anunciado como o diretor.

 

THE SOUND OF HIS HORN (1952)
Sarban.

(Capa: Richard Powers. Ballantine Books).

Um dos mais conhecidos livros apresentando um mundo alternativo no qual a Alemanha nazista venceu a Segunda Guerra Mundial, o que já se tornou praticamente um subgênero dentro do subgênero.
Sarban foi o pseudônimo utilizado por John William Wall que, além de escritor, foi diplomata. The Sound of His Horn é seu único romance e, inicialmente, teve uma recepção um tanto fria por parte da crítica e de outros escritores de FC; com o tempo, foi revisto de maneira mais positiva, em alguns casos sendo apontado entre os clássicos do gênero “mundo alternativo”.
Em The Encyclopedia of Fantasy, Jon Clute e Chris Bell escrevem que o livro oscila entre a ficção científica e a fantasia, até mesmo pela forma pela qual o personagem central, o tenente Alan Querdillon, chega ao mundo alternativo após escapar da prisão durante a Segunda Guerra Mundial; ele entra em uma floresta, esbarra em uma barreira de raios e desmaia, acordando num mundo controlado pelos nazistas, 100 anos no futuro. A Europa dominada foi dividida em feudos. Clute e Bell dizem que sua chegada ao Novo Reich é fantasia clássica: ele se perde após fugir e vaga sem rumo para dentro de uma floresta, e misteriosamente a paisagem muda, e ele se vê preso em uma cerca mágica em torno da propriedade de um Mestre Guarda-florestal do Reich, que costuma realizar expedições de caça a seres humanos.
Stephen Jones e Kim Newman incluíram o livro de Sarban em seu Horror: 100 Best Books, com uma resenha da escritora de FC e fantasia Suzy McKee Charnas.

 

 

ESTRADA DA GLÓRIA (Glory Road, 1963)
Robert A. Heinlein.

 

AS FLORES QUE PENSAM (All Flesh Is Grass, 1965)
Clifford D. Simak.

 

TERRA DE GIGANTES (Land of the Giants, 1968-1970)

 

ODISSÉIA PARA ALÉM DO SOL (Doppelganger, 1969)

Roy Thinnes e Ian Hendry em sua missão espacial (Century 21 Cinema).

Produção inglesa de Gerry e Sylvia Anderson, mais conhecidos pelos seriados com os bonecos, como Thunderbirds e Stingray. A direção é de Robert Parrish, que já havia dirigido alguns episódios de Além da Imaginação – além de vários faroestes e dramas bem sucedidos – e traz Roy Thinnes no papel do coronel Glenn Ross. Thinnes ficou marcado pelo papel de David Vincent no seriado Os Invasores.

                                                                                Roy Thinnes, desconfiando que não está exatamente na sua Terra.

Ele e o astrofísico John Kane (Ian Hendry) vão em uma missão espacial para explorar um décimo planeta descoberto do outro lado do Sol. Ao chegarem, percebem que se trata de um planeta exatamente igual ao nosso, com a diferença de que tudo é uma imagem ao contrário, como num espelho. Seus amigos e conhecidos existem lá com personalidades opostas, e eles mesmos, ou seus duplos, fizeram a viagem ao contrário, chegando à Terra ao mesmo tempo. Um filme bem interessante, infelizmente distante da televisão brasileira há muito tempo. Também conhecido pelo título Journey to the Far Side of the Sun.

 

A TEIA DO TEMPO (The Unicorn Girl, 1969)
Michael Kurland.

 

AS CRÔNICAS DE ÂMBAR (The Chronicles of Amber, 1970-1991)
Roger Zelazny.

 

BUSCA DESESPERADA (Quest For Love, 1971)

Joan Collins e Tom Bell, em Busca Desesperada (The Rank Organisation/ Peter Rogers Productions).

Produção inglesa com direção de Ralph Thomas, baseada no conto Random Quest, de John Wyndham. Tom Bell interpreta o físico Colin Trafford que é transportado para uma Terra paralela devido a um acidente com um acelerador de partículas. Nessa Terra ainda existe a Liga das Nações, presidida por John F. Kennedy, a Guerra do Vietnã não ocorreu, e Colin é um escritor famoso, casado com Ottilie (Joan Collins), que está prestes a separar-se dele. Eles acabam se apaixonando, mas Ottilie morre devido a um problema no coração. O físico acorda no hospital, em sua Terra, onde dizem que ele estava desde seu acidente, e sai à procura da sósia de Ottilie em seu próprio mundo, sabendo que ela também terá um problema no coração que deverá ser tratado.
O filme chegou a ser lançado no Brasil em VHS da F.J. Lucas e teve pouquíssimas reprises na televisão.
Em 1969, o seriado Out of the Unknown (1965-1971) apresentou uma adaptação do conto. Em 2006, a BBC produziu Random Quest para a TV, com direção de Luke Watson.

 

A BONECA DO DESTINO (Destiny Doll, 1971)
Clifford D. Simak.

 

DESPERTAR DOS DEUSESOS PRÓPRIOS DEUSES (The Gogs Themselves, 1972)
Isaac Asimov.

 

UM ESTRANHO NA TERRA DAS TRÊS LUAS (The Stranger, 1973)

Glenn Corbett (Bing Crosby Productions/ Fenady Associates).

Feito para TV como piloto de um seriado que não chegou a acontecer, e dirigido por Lee H. Katzin, com uma longa história em produções para a televisão. Glenn Corbett é o astronauta Neil Stryker em missão espacial, cuja nave cai em um planeta chamado Terra, que é exatamente como o nosso, mas com algumas diferenças, como o fato de possuir três luas e ser governado por um estado poderoso chamado Ordem Perfeita.
O astronauta demora um pouco a perceber que não está na sua Terra e que o governo pretende obter informações dele. Ele foge e encontra algumas pessoas dispostas a ajudá-lo.
Não chega a ser um grande filme, e a série deveria seguir mais ou menos no estilo de outros seriados da época, com o astronauta sendo perseguido e enfrentando vários problemas.

 

O ELO PERDIDO (Land of the Lost, 1974-1976)

 

VIAGEM FANTÁSTICA (The Fantastic Journey, 1977)

 

THE CHRONICLES OF THOMAS COVENANT THE UNBELIEVER (1977-2013)
Stephen R. Donaldson.

(Capa: Peter Goodfellow. Fontana).

Uma série de dez livros de fantasia bastante conhecida nos EUA e praticamente desconhecida no Brasil. O personagem central, o escritor Thomas Covenant, que é diagnosticado com lepra, sem possibilidade de cura, e vê sua vida mudar totalmente, com sua esposa se divorciando dele e levando o filho para morar com ela. Logo depois disso, ele sofre um acidente e fica inconsciente. Quando acorda, está no local conhecido como “The Land” (a terra), um mundo paralelo.

                                                                                         (Capa: Darrell Sweet. Del Rey/ Ballantine).

Os livros foram divididos em três séries, ou crônicas. A primeira: Lord Foul’s Bane (1977); The Illearth War (1978); The Power That Preserves (1979). A segunda série: The Wounded Land (1980); The One Tree (1982); White Gold Wielder (1983). A terceira: The Runes of the Earth (2004); Fatal Revenant (2007); Against All Things Ending (2010); The Last Dark (2013).
Em The Encyclopedia of Fantasy, John Clute escreve que a primeira série se concentra na lenta diminuição da recusa de Covenant em acreditar na realidade do mundo para o qual foi levado. “A descrença”, disse Clute, “é, talvez, a mais original invenção de Donaldson, uma vez que transforma radicalmente cada momento da primeira sequência e contradiz profundamente as expectativas normais do leitor acerca do relacionamento entre o Herói e a Terra, a Busca e seus Companheiros, e ainda toda a relação com o decoro e os requisitos morais que definem a condição de ser um Herói”.

 

O AVATAR (The Avatar, 1978)
Poul Anderson.

 

FANTASMA (Phantasm, 1979)

(New Breed Productions Inc.).

O primeiro de uma série de cinco filmes desenvolvidos por Don Coscarelli, também conhecido no Brasil pelo título Noite Macabra. Realizado despretensiosamente com um orçamento de 300 mil dólares, atingiu imensa popularidade nos EUA. Traz Angus Scrimm no personagem The Tall Man (O Homem Alto), um sujeito misterioso que se aproveita dos corpos dos mortos para não apenas trazê-los de volta à vida, mas ainda reduzi-los de tamanho e utilizá-los para ajudar em seus planos, sejam eles quais forem. Michael Baldwin interpreta o jovem que descobre o que está acontecendo e passa a ser perseguido. No enorme mausoléu do cemitério, ele descobre um aposento no qual estão duas barras de metal, por meio das quais é possível observar outro mundo; ali é a passagem para uma dimensão paralela onde os corpos reduzidos são utilizados como escravos.
Uma das marcas do filme são as esferas metálicas voadoras que se enterram no rosto das pessoas e drenam seu sangue. Um filme bem estranho e com momentos interessantes, em obra toda de Coscarelli, que dirigiu, escreveu o roteiro, produziu, fotografou e editou.
A história continua com os filmes: Fantasma II (Phantasm II, 1988); Fantasma III – O Senhor da Morte (Phantasm III: Lord of the Dead, 1994); Fantasma 4 – O Pesadelo Continua (Phantasm IV: Oblivion, 1998); Phantasm: Ravager (2016).

 

O NÚMERO DO MONSTRO (The Number of the Beast, 1980)
Robert A. Heinlein.

 

O NEVOEIRO (The Mist, 1980)
Stephen King.

(Capa:J.K. Potter. Scream/Press).

A história é o que os Americanos chamam de novella, algo entre o conto e um romance, em termos de extensão. No Brasil, foi publicado em Tripulação de Esqueletos, e ocupa mais de 100 páginas do livro. Está entre os melhores contos (curtos ou longos) de SK, opressivo, com o efeito imprevisível que o autor consegue obter ao nos dizer, antes, o que irá acontecer e, assim mesmo, conseguir obter o efeito desejado, sempre impactante. É uma tática ousada, mas que resulta. Quando ele escreve que “fulano irá morrer” ou que “foi a última vez em que a vi”, ele causa o primeiro choque, e mantém o leitor arrepiado nas próximas páginas, enquanto a coisa não acontece. E, às vezes, o acontecimento em si sequer é narrado.

                                               (Dimension Films/ Darkwoods Productions/ The Weinstein Company).

Aqui, os terrestres não vão a um mundo paralelo, mas o mundo paralelo vem até eles quando um estranho nevoeiro toma conta de uma cidade do Maine e, aparentemente, o mundo inteiro, e traz com ele seres ameaçadores.
A história foi adaptada para o cinema por Frank Darabont (direção e roteiro), como O Nevoeiro (The Mist, 2007), com Thomas Jane no papel central. Darabont já havia dirigido com sucesso duas histórias de Stephen King: o excepcional Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994); e À Espera de um Milagre (The Green Mile, 1999), com Tom Hanks.
Em 2017, a história foi adaptada em seriado para a TV, com o mesmo título, criada por Christian Torpe, porém cancelada após 10 episódios.

 

TEMBREABREZI – O LUGAR DE INÍCIO (The Beginning Place, 1980)
Ursula K. Le Guin.

 

A TORRE NEGRA (The Dark Tower, 1982-2004)
Stephen King.

(Capa: Cliff Nielsen. Pocket Books).

Certamente a obra mais longa de Stephen King, e provavelmente a melhor, dividida originalmente em sete volumes, mas que teve o acréscimo do livro O Vento Pela Fechadura (The Dark Tower: The Wind Through the Keyhole, 2012), além do conto As Irmãzinhas de Eluria (The Little Sisters of Eluria, 1998), incluído no livro Tudo É Eventual.
Em 2017, Nikolaj Arcel dirigiu a adaptação para o cinema, A Torre Negra (The Dark Tower), com Idris Alba no papel de Roland Deschain, em filme bastante contestado, e com razão. Para quem não conhece a obra literária, a ação se torna quase incompreensível, e para quem conhece o que é apresentado está tão longe da complexidade e profundidade dos personagens que chega a ser irritante (falo por mim, é claro).
 

Idris Alba, como o pistoleiro Roland Deschain (Sony Pictures Entertainment/ Media Rights Capital/ Imagine Entertainment/ Weed Road Pictures).

Muitos personagens sequer foram relacionados, centrando-se na ação de Roland, do garoto Jake (Tom Taylor) e de Walter (Matthew McConaughey), “o homem de preto” que, no livro, é um dos representantes do Mal, do Rei Rubro que se encontra na Torre Negra. Não há o mínimo desenvolvimento da personalidade de Roland, assim como de alguns dos aspectos centrais da obra, como a formação do ka-tet, o grupo de pessoas de diferentes mundos paralelos que passam através das portas para o mundo de Roland e o acompanham na jornada em direção à Torre Negra.
Ao que tudo indica, está em curso a produção de um seriado para TV, com Idris Alba e Tom Taylor repetindo seus papéis, mas fala-se que seria uma espécie de prequel (ou prequela), a praga que tem assolado as produções do cinema e TV nos últimos tempos, e que seria baseado no quarto livro da série (Mago e Vidro), em O Vento Pela Fechadura, com elementos do primeiro volume (O Pistoleiro).
Veja ainda a matéria À Torre Negra Chegamos.

 

O TALISMÃ (The Talisman, 1984)
Stephen King e Peter Straub.
Uma parceria entre dois dos maiores escritores do gênero, com resultados excelentes, com história apresentando duas Terras, com diferenças visíveis entre elas. A Terra paralela é conhecida como Os Territórios, um local onde a magia é uma realidade como a ciência e tecnologia é em nossa Terra e, até o momento em que se inicia a história, relativamente intocado pelo Mal.
O personagem central é o jovem Jack Sawyer, que precisa atravessar os Territórios para cumprir uma missão, encontrar o Talismã, que é a única forma de salvar da morte sua mãe e, ao mesmo tempo, a Rainha Laura, uma espécie de duplo de sua mãe nesse paralelo. O Talismã é apresentado como um eixo para todos os mundos, um ponto em comum entre todos os mundos paralelos possíveis de existir, guardando em seu interior o que existe de bom em todos eles.
Essa recuperação do Talismã e do Bem é necessária uma vez que o Mal está se infiltrando nos Territórios, vindo da nossa Terra na figura do perverso Morgan Sloat. A forma pela qual o Mal entra no mundo é pela tecnologia, especialmente as armas, até então desconhecidas no paralelo, e pela luta pelo poder. Ele transforma os Territórios num mundo cada vez mais perigoso, cada vez mais parecido com a nossa Terra, com a poluição avançando perigosamente.
É visível a separação dos mundos nesse sentido: a nossa Terra, em franco estado de deterioração, com um ar tão poluído que os seres dos Territórios mal conseguem respirar quando atravessam para cá; os Territórios com um ar cristalino e uma ausência de maldade, com uma ingenuidade que chega a transformar os lobisomens em seres extremamente atraentes, simpáticos e engraçados. Enquanto em nosso mundo o Mal não pode ser imediatamente reconhecido – uma vez que se encontra mascarado por camadas de mentiras que escondem mentiras, num ciclo infindável – nos Territórios a clareza ainda não foi corrompida a tal ponto, e o Mal é imediatamente identificado; pessoas, animais e objetos trazem estampado em si aquilo que realmente são.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     (Capa: Edward Bettison. Orion).

Os sinais de bondade e respeitabilidade, em nosso mundo, acabam perdendo o sentido já que não podem ser imediatamente vistos como tais. É um sinal inequívoco da decadência de uma civilização que baseia suas conclusões muito mais na aparência das coisas, no exterior e superficial, do que em sua essência, como é percebido nos Territórios, de modo que o que se mostra como bonito é tido como bom e direito, mesmo que, na realidade, seja o oposto.
Até mesmo os seres maléficos dos Territórios, os que já foram corrompidos por Sloat, não suportam a vida na Terra, onde sentem os cheiros da morte. Stephen King e Peter Straub não chegam a propor, como fez Clifford D. Simak, que a ciência e a tecnologia são o Mal em si, ou que representam um ponto de divisão nos mundos, mas não resta qualquer dúvida de que propõem que a forma como foram utilizadas é uma das fontes do Mal, e que ele já se encontra totalmente solidificado e estabelecido em nosso mundo. Nos livros de Simak, o nosso mundo parece ter perdido alguma coisa – como as capacidades psíquicas mais desenvolvidas – ao optar por uma única direção, mas em O Talismã essa perda surge ainda mais acentuada. Simak propunha a união de rumos e objetivos aparentemente distintos como a forma de se obter o equilíbrio desejado, enquanto aqui a união não parece ser possível.

(Capa: Jody Doyle. Scribner).

O talismã surge como uma possibilidade real de recuperação, não apenas para o que vem ocorrendo de ruim nos Territórios, mas também para a nossa Terra, mas não é levantada a possibilidade de uma união. O Mal está instalado e deve ser combatido, o que significa uma reversão de rumos mais do que união de objetivos. A Terra de King e Straub está muito mais próxima daquela proposta por Philip K. Dick ou por Doris Lessing, já dominada pelo Mal, com o Bem, ou pelo menos a possibilidade do Bem, situado em algum ponto fora dela, ainda que com uma capacidade de atuação na Terra menor do que a capacidade do deus proposto por PKD.
A noção de que a aparência das coisas não pode ser considerada como a palavra final, como a verdade maior, também é um ponto em comum, como ocorre em grande número de histórias de fantasia que, no fundo, estão se referindo ao nosso próprio mundo, ao nosso sistema de sociedade, ao propor que os problemas que estamos enfrentando, o nítido desequilíbrio da vida em nosso planeta, só pode ser resolvido a partir do momento em que as pessoas se fixem em objetivos e atitudes mais profundas e honestas, transcendendo a aparência do mundo, vendo além daquilo que o Mal quer que seja visto.

 

A CASA DO ESPANTO (House, 1985)

(New World Pictures/ Sean S. Cunningham Films).

Direção de Steve Miner. Um famoso escritor retorna para a estranha casa onde morou quando criança. Seu filho havia desaparecido no local misteriosamente e, ao retornar, o sujeito começa a escrever um livro sobre o Vietnã, ao mesmo tempo em que percebe que a casa possui portas para outros mundos, nos quais vê seres estranhos. Descobre que seu filho foi raptado e levado para uma dessas dimensões, e consegue penetrar no mundo paralelo através do armário do banheiro, encontra o filho e o traz de volta, tendo de enfrentar ainda o fantasma de um antigo companheiro do Vietnã que ele abandonou. A ideia é boa, algumas imagens também. Os mundos paralelos parecem ter surgido realmente a partir dos pensamentos das pessoas que já viveram na casa. Mas o filme se perde em muitos momentos, inserindo humor quando não há necessidade.
A sequência é A Casa do Espanto II (House II: The Second Story, 1987. Direção de Ethan Wiley), aproveitando o sucesso até mesmo inesperado do primeiro, e sem conexão alguma com o original. Aproveita a ideia de universos paralelos que se escondem atrás das portas de uma casa, no caso uma espécie de pequeno palácio.
Ainda foram produzidas mais duas sequências, cada qual pior do que a anterior: House III – A Casa do Espanto (House III: The Horror Show, 1989), com direção de James Isaac e David Blyth; e A Casa do Espanto IV (House IV, 1992), com direção de Lewis Abernathy.

 

TROLL, O MUNDO DO ESPANTO (Troll, 1986)

(Empire Pictures/ Altar Productions).

Direção de John Buechler, para uma produção de Charles Band, um dos mais conhecidos produtores de filmes “B” dos anos 1980/90. No Brasil, também ficou conhecido pelo título Torok: O Duende. A história segue as aventuras de uma família que se muda para um prédio que, na verdade, é o centro de comunicação com um universo paralelo onde se encontram seres como duendes, gnomos e fadas. Esses seres desejam retomar o lugar que lhes pertence no mundo, o lugar que possuíam antes que o mundo fosse dividido em nações e antes de os humanos dominarem tudo, expulsando-os. O único problema com relação ao filme é uma displicência no tratamento dado ao bom tema. O que poderia ser um trabalho notável transformou-se, assim, em uma diversão razoável, e nada mais.

 

LABIRINTO – A MAGIA DO TEMPO (Labyrinth, 1986)

David Bowie e Jennifer Connelly (Henson Associates/ Lucasfilm/ TriStar Pictures).

Direção de Jim Henson, o criador dos bonecos The Muppets, e também responsável por várias das criaturas que aparecem no filme, que teve ainda a produção de George Lucas e roteiro de Terry Jones, do grupo inglês Monty Python, além das presenças de David Bowie e da então jovem Jennifer Connelly.
Bowie interpreta Jareth, o Rei dos Duendes, que rapta o irmãozinho da adolescente Sarah (Connelly). Para resgatá-lo, ela precisa entrar num mundo de fantasia, um labirinto repleto de aventuras e perigos, sendo auxiliada por alguns seres que habitam o local.
O filme é delicioso e muito bonito, mas ainda assim teve um desempenho fraco nas bilheterias e nem sempre foi muito bem visto pela crítica. Acabou conquistando um status de cult ao longo do tempo.

 

O MISTÉRIO DO RESTAURANTE CHINÊS (Sotto il Ristorante Cinese, 1987)

                                                                                                                                                                   (Bozzetto International/ Reteitalia).

Produção italiana com direção e roteiro de Bruno Bozzetto, mais conhecido por seu excepcional Música e Fantasia (Allegro non Troppo, 1976), um filme de animação misturada com passagens filmadas com atores, com músicas clássicas.
Aqui, ele utiliza um pouco do seu humor e da animação como efeitos para uma FC bem interessante a respeito de um cientista que consegue construir um portal no tempo. No caso, é uma porta mesmo, localizada nos fundos de um restaurante chinês na Itália. Um jovem descobre a porta por acaso, após ser envolvido numa confusão. Atravessa a porta e vai parar no estranho mundo onde vive o cientista e sua filha, por 18 anos, e apaixona-se pela jovem. A invenção do cientista parece ser uma passagem para mundos paralelos, alguns mais distantes da Terra, ainda que o cientista não tenha a menor ideia do que está acontecendo. Um filme agradável e engraçado, com um humor repleto de sutilezas. No Brasil foi apresentado na TV por assinatura.

 

A TRAMA DA MALDADE (Weaveworld, 1987)
Clive Barker.

(Capa: Tim White. Fontana).

Um dos melhores livros de Clive Barker, o que não é pouca coisa, uma vez que se trata de um dos mais importantes e consistentes escritores de literatura fantástica da atualidade.
Existem rumores de uma adaptação do livro para a televisão, no formato de minissérie, pelo menos desde 1996. Ainda hoje diz-se que a produção está em curso.
A ideia básica da história é a de que, em tempos tão remotos que não podem ser corretamente calculados, houve uma separação no mundo. De um lado ficaram os seres humanos comuns, com seus problemas diários, sua incapacidade em utilizar a magia e sua forma limitada de ver o mundo; incapazes, com raras exceções, de perceber a existência do invisível, de penetrar nos mistérios do mundo e entrar em contato com a enorme complexidade de seres que o habitam e compõem. De outro lado, ficaram aqueles seres que têm pouca relação com os humanos, possuindo poderes mais desenvolvidos e que têm contato direto com a magia que, para eles, faz parte do dia a dia.
Esses seres precisaram sair do mundo para se proteger dos ataques causados pela incompreensão dos humanos, por sua incapacidade de ver exatamente o que eles eram, de entender sua forma de vida, pela absoluta incompreensão e violência dos humanos contra qualquer coisa que não consigam entender ou que dê mostras de ser superior, ou mesmo apenas diferente deles.
Ainda que, fisicamente, alguns desses seres sejam bastante estranhos, a maioria pode se passar por humanos comuns. Eles mesmos explicam que em tempos remotos chegaram a ser confundidos com fadas, gnomos e outros seres semelhantes, talvez a forma que os humanos encontraram para registrar, nas lendas, a passagem desse povo pela Terra na época em que eles viviam lado a lado. Mas abriu-se um abismo entre os dois tipos de vida, e os Despertos, como eles chamam a si mesmos, passaram a ser perseguidos pelos humanos, talvez por sua capacidade em realizar magia, ou ainda porque conseguissem viver mais próximos do verdadeiro poder da terra, estabelecendo para eles uma espécie de paraíso terreno, uma vida idílica que os humanos não mais conseguiam perceber e, muito menos, elaborar para si mesmos à medida que sua sociedade se tornava cada vez mais mecanizada e dirigida para conquistas absolutamente materiais. Assim, passaram a desenvolver o sentimento de inveja em doses cada vez maiores. Primeiro, o povo escondeu-se do mundo utilizando sua magia para ficarem invisíveis aos humanos, escondidos em bosques que eram mantidos ocultos pelas artes mágicas. Até o surgimento do Flagelo, um mal muito maior do que sua magia poderia suportar, e que os forçou a abandonar até mesmo esse mundo invisível que criaram na Terra.

                                                                                                           (Capa: Jan Provost. Pocket Books).

O povo que fugiu do mundo é chamado então de A Fuga, escondidos dentro da Trama, que nada mais é do que um tapete enorme no qual, por meio de alta magia, seu mundo foi tecido, com tudo aquilo que lhe pertencia, de casas a cidades inteiras, de pequenas ervas a florestas complexas, dos pequenos animais aos seres inteligentes, do ar que respiram à própria magia, o centro da Trama.
Um humano envolve-se com a Trama e os seres que nela vivem. Observando o tapete ele se vê, por alguns instantes, dentro daquele mundo fantástico, algo saído de um conto de fadas, um país de maravilhas onde tudo é possível e que pode ser considerado a representação do sonho maior de liberdade e paz dos seres humanos. Talvez não de todos os seres humanos, mas pelo menos daqueles que entendem que existe alguma coisa de muito errada com nosso mundo e forma de viver, aqueles humanos que não concordam com a violência e mentira que cerca e, de certa forma, tece nosso próprio mundo.
O tapete, a Trama, é vigiado por Guardiões ao longo dos anos, escondendo-o não apenas do mundo, mas também do Flagelo, o ser poderosíssimo que em tempos distantes tentou destruir o mundo da Trama, por razões que apenas ele poderia entender, como se possuísse um ódio absoluto a tudo o que eles representam.
Também atrás do tapete está o Vendedor, acompanhado por Imaculada e suas irmãs monstruosas e fantasmas, com imensos poderes. O Vendedor é humano ou, como os habitantes da Trama chamam os humanos, um Louco. Imaculada e suas irmãs fantasmas faziam parte do mundo mágico – é uma Desperta que, tendo sido expulsa do mundo devido às suas maldades, deseja vingança, destruindo tudo e todos que pertençam à Fuga. Unem suas forças para encontrar o tapete e vendê-lo aos poderosos do mundo, enquanto as forças contrárias tentam mantê-los longe do tapete.
Essa noção dos Despertos como sendo aqueles que possuem uma visão mais ampla da realidade, os seres que têm acesso tanto ao mundo normal quanto ao mundo de magia e aos poderes psíquicos, lembra a noção apresentada por Colin Wilson no livro Os Parasitas da Mente, no qual os humanos que percebem suas potencialidades, os que têm acesso ao reservatório universal de energia, sentem-se como se estivessem acordados, enquanto o restante da humanidade continua dormindo. Clive Barker, no entanto, não apresenta qualquer explicação para o fato desses seres existirem e possuírem essas capacidades. Eles simplesmente existem e encontram-se na Trama.
A aventura, de intensa movimentação e momentos de violência extrema, culmina com a Trama sendo desfeita e os habitantes do mundo mágico sendo encontrados pelo Flagelo, tentando resistir ao mal que ele representa com os últimos resquícios de magia que ainda possuem. Muitos dos seres desse mundo optaram por retornar ao mundo dos Loucos, vivendo entre eles como se fossem pessoas normais, mas os remanescentes resistem à destruição final.
O Flagelo, que deveria ser o representante máximo do Mal, um demônio ou algo semelhante, é apresentado por CB de forma dúbia. Na verdade, nem o próprio Flagelo sabe quem é. Da mesma forma que o autor não explica claramente a origem do povo da Fuga, também não esclarece totalmente a origem do Flagelo. Ele se diz chamar Uriel e que é um anjo, que teria a função de guardar o Jardim do Éden, localizado num dos desertos mais áridos do mundo, de onde o povo havia saído sem sua permissão. Mas isso é apenas uma história que ele ouviu em algum lugar, e sua violência é fruto de sua incompreensão e da situação em que se encontra, vivendo sozinho durante sabe-se lá quantos milhares de anos. O Flagelo está tão enlouquecido quanto muitos seres humanos, apesar de possuir um poder muito maior.
Esse “não conhecimento” de quem ele é pode ser relacionado com o Mal proposto por Philip K. Dick, algo sem nome, sem história, sem passado ou futuro definidos, e que é mal enquanto é ausência de conhecimento ou ilusão. O Flagelo vive uma espécie de existência ilusória, acreditando estar guardando um paraíso quando na verdade está guardando coisa alguma, montes e montes de areia, e nada mais. Ele dorme, ao contrário do povo da Fuga, que está Desperto. Dorme e sonha, imagina um mundo à sua volta, como se o Mal estivesse enredado em sua própria trama de ilusão.

(Capa: Richard A. Kirk. Earthling Productions).

Clive Barker chega a indicar a possibilidade de o Flagelo ser uma entidade de algum ponto do universo uma vez que, ao final, encontra alguém igual a ele e sobe em direção às estrelas, ao encontro desse outro ser. O mais curioso é que ele só pode encontrar esse ser por intermédio de uma magia fornecida pelo próprio povo da Fuga. Todo seu ódio e sua violência eram sustentados exclusivamente pelo fato de ter sido isolado, como se uma parte de si mesmo lhe tivesse sido negada e, ao reencontrá-la, simplesmente esquece a violência, dor e ódio. A partir do momento em que o “não conhecimento” deixa de existir, em que ele vê a realidade, o Mal desaparece.
Um dos pontos interessantes no livro é que o Bem e o Mal não se apresentam como extremos ou como absolutos, mas sim como estando contidos um no outro, às vezes como complementos. Um está a apenas um passo do outro. Um sentimento mais extremado é o suficiente para transformar o bem no mal. Da mesma forma, os humanos surgem como grandes vilões, capazes de maldades ainda maiores e mais extremadas do que os não humanos, ainda que possuam menos poder, o que dá uma ideia do caos em que o mundo poderia se transformar se esse poder estivesse em suas mãos.
Quase toda a obra de CB é assim, jamais mantendo o bem e o mal em compartimentos estanques, sem qualquer ligação um com o outro. Monstros horripilantes mostram laivos de bondade ou uma tendência para o bem que pode ter sido sufocada por uma determinada situação, como é o caso do Flagelo. Milhares de anos vivendo em solidão, em meio às areias de um deserto jamais visitado por ninguém, o enlouqueceu a ponto de se poder compará-lo a um demônio, um representante de um mal absoluto. Mas basta que ele encontre aquilo que sempre desejou para que esse sentimento, essa maldade, desapareça. Extingue-se totalmente, recompondo o ser mais uma vez. De certa forma, a maldade que existe nos seres humanos e que é realçada algumas vezes ao longo do livro é apenas isso, a solidão dos seres humanos, ainda que vivendo em multidões, sempre sozinhos, sempre sem o verdadeiro contato com a terra que habitam, com a magia que está ao seu redor, com o invisível e com o visível, levando a sentimentos de ódio e inveja. No fundo de cada um deles, no entanto, permanece a noção do paraíso perdido, do país das maravilhas, do lugar maravilhoso que todas as crianças conhecem em suas imaginações, e que todo adulto mantém fechada em suas mentes. Aqueles que têm a visão, mesmo que momentânea, desse país das maravilhas, não conseguem mais esquecê-lo.

 

PRÍNCIPE DAS SOMBRAS (Prince of Darkness, 1987)
Um dos bons filmes dirigidos por John Carpenter, também responsável pelo roteiro, assinado com o pseudônimo Martin Quatermass – numa homenagem à série de histórias com o professor Quatermass.

 

UM (One: A Novel, 1989. Editora Record)
Richard Bach.
O estilo de Richard Bach não agrada a todos, mas sempre tem um público cativo, especialmente após o imenso sucesso de Fernão Capelo Gaivota (1970). Aqui, ele e sua esposa Leslie são personagens da história, transportados para um mundo paralelo no qual eles existem simultaneamente em várias encarnações, de modo que o autor possa apresentar várias lições de vida.

 

 

 

O PORTAL DO TEMPO (Beastmaster II: Through the Portal of Time, 1991)

(Films 21).

Sequência de Senhor das Feras (The Beastmaster, 1982. Também com o título O Príncipe Guerreiro), com Marc Singer no papel de Dar, herói de um mundo alternativo com o poder de se comunicar com os animais. Nesse filme, ele atravessa um portal dimensional e surge em Los Angeles, com seus animais, como parte de sua aventura para tentar salvar seu mundo paralelo da destruição pelo cruel Arklon (Wings Hauser) e pela feiticeira Lyranna (Sarah Douglas).

                                                                                                                                        (Capa: Ed Valigursky. Ace Books).

Segundo se diz, a história foi inspirada no livro The Beast Master (1959), de Andre Norton (pseudônimo de Alice Mary Norton), mas não foi dado o crédito.
O filme é ruim, como o primeiro da série, e como o terceiro, Beastmaster III: The Eye of Braxus (1996), e como o seriado de TV (1999-2002).

 

 

 

WAXWORK II – PERDIDOS NO TEMPO (Waxwork II: Lost in Time, 1991)

(Electric Pictures).

Direção de Anthony Hickox. Sequência de A Passagem (Waxwork, 1988), do mesmo diretor e também com Zach Galligan no papel central. Ele e uma amiga utilizam um aparelho parecido com uma bússola que abre passagens para uma série de mundos paralelos que são histórias de filmes de terror como Desafio ao Além, Frankenstein, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Zombie, o Despertar dos Mortos, Alien, Nosferatu e Godzila. O filme ainda tem a participação de inúmeros atores famosos, e traz alguns momentos interessantes.

 

 

 

MUNDO PROIBIDO (Cool World, 1992)

 

A PRÓXIMA SAÍDA (Doorways, 1993)

(Columbia Pictures Television).

Direção de Peter Werner, com roteiro de George R.R. Martin, hoje mais conhecido como o criador da série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, que originou o seriado Guerra dos Tronos. O filme foi feito para a TV como piloto de um seriado que não decolou. Uma mulher surge repentinamente no meio de uma rodovia e explode um caminhão com uma estranha arma, sendo então levada para um hospital onde um médico se interessa por ela e por sua estranha forma de se comunicar. O FBI também, e logo ficamos sabendo que se trata de uma fugitiva de uma Terra paralela; ela atravessou uma porta para a nossa Terra, sendo perseguida por seus “donos”. O médico foge com ela através de outra porta dimensional e vão parar numa Terra onde o petróleo acabou e todos andam a cavalo ou de bicicleta. Os perseguidores também vão atrás, obrigando-os a fugir para outra Terra, quando então o filme acaba.

 

 

 

PROJETO FILADÉLFIA 2 (Philadelphia Experiment II, 1993)

                                                                                                                                                                                                                     (Trimark Pictures).

Direção de Stephen Cornwell em sequência de Projeto Filadélfia (The Philadelphia Experiment, 1984), que tinha uma história interessante e a participação de John Carpenter na produção. A equipe aqui é totalmente diferente e as explicações científicas fornecidas pelos personagens para o que está ocorrendo são muito confusas, chegando a atrapalhar o andamento do filme. No primeiro filme, uma experiência para causar a invisibilidade de um navio, em 1943, provocou uma ruptura no tempo. Dessa vez, o deslocamento se dá para uma Terra paralela em que os EUA perderam a guerra.

 

SPELLBINDER (1995)

(Film Australia/ Film Victoria/ Nine Network Australia/ Telewizja Polska).

Seriado com produção conjunta das televisões australiana e polonesa, em 26 episódios. Mostra um grupo de adolescentes que descobrem uma passagem para um mundo paralelo. Teve uma sequência, Spellbinder: Land of the Dragon Lord (1997), também com 26 episódios. O mundo paralelo é governado por um grupo chamado Spellbinders, e um dos jovens fica preso nesse mundo. Até onde se sabe, nenhum dos seriados chegou ao Brasil.

 

 

 

JUMANJI (Jumanji, 1995)
Filme dirigido por Joe Johnston, baseado em livro com o mesmo título (1981) de Chris Van Allsburg, publicado no Brasil pela Cosac Naify. Tem como astros principais Robin Williams, Kirsten Dunst e Bradley Pierce. Um jogo com tema baseado na África tem a capacidade de tornar reais não só uma série de animais que nele aparecem, como as situações de aventura, e perigosas, que apresenta, trazendo o jogo para o mundo, ou levando os jogadores para seu próprio mundo, onde as noções de tempo ficam alteradas. O jogo é escondido por duas crianças em 1869, mas descoberto em 1969 por Alan Parrish (Adam Hann-Byrd/ Robin Williams), que é “capturado” pelo jogo.

(TriStar Pictures/ Interscope Communications/ Teitler Film).

Em 1995, os irmãos Judy e Peter Shepherd (Dunst e Pierce) redescobrem Jumanji e jogam, enfrentando problemas quando os seres do jogo começam a se manifestar em seu mundo, e com o surgimento de Alan, agora adulto e libertado do mundo de Jumanji. A dificuldade é que não se pode parar de jogar senão quando chegar ao final, quando o tempo parece voltar ao início.
Uma sequência foi apresentada em 2017, Jumanji: Bem-Vindo à Selva (Jumanji: Welcome to the Jungle), com direção de Jake Kasdan. Nessa nova versão, o jogo transforma a si mesmo, mudando de um jogo de tabuleiro para um vídeo game, para chamar a atenção de um jogador de 1996, que é sugado para o mundo paralelo. Em 2016, estudantes encontram o vídeo game e também vão parar no mundo paralelo de Jumanji, onde surgem na aparência de seus avatares.

 

SLIDERS – DIMENSÕES PARALELAS (Sliders, 1995-2000)

 

O LIVRO MÁGICO (Storybook, 1996)

(Loco Motion Pictures Inc./ PM Entertainment Group/ Republic Pictures).

Filme dirigido por Lorenzo Doumani na linha de História Sem Fim, mas sem a mesma criatividade. Um jovem descobre um livro no sótão de sua nova casa e uma passagem para um mundo de fantasia onde reina uma rainha má. Um dos objetivos dela é reaver o livro, justamente aquele que o jovem carrega consigo do mundo dos humanos.

 

 

LUGAR NENHUM (Neverwhere, 1996)
Neil Gaiman.

(Capa: Dave McKean. BBC Books).

O livro de Gaiman foi originalmente escrito para a minissérie da TV, produzida pela BBC, com história a respeito de uma Londres dividida em dois mundos diferentes: o primeiro, a Londres de cima, realística; a segunda, a Londres escondida, subterrânea, onde vivem seres que passam despercebidos dos demais, habitando nos labirintos de túneis abaixo da cidade. Essa outra é uma cidade com características feudais onde a mágica existe. As aventuras começam quando um sujeito está indo para um jantar com sua noiva e resolve ajudar uma jovem que encontram na rua, sangrando, levando-a para seu apartamento. A partir daí, ele é levado para os acontecimentos envolvendo os habitantes dessa outra cidade. Sua noiva não o reconhece, seu cartão de crédito não é aceito, os táxis não param para ele, como se sua existência do mundo de cima tivesse sido apagado completamente. Excelente.

 

 

 

 

A PASSAGEM (Crossworlds, 1996)

(Trimark Pictures).

Direção de Krishna Rao. O Bem e o Mal lutam pelo controle de dimensões diferentes de existência. Rutger Hauer, Josh Charles e Andrea Roth formam o time que combate o malvadão de plantão, que pretende obter um cetro e um cristal que, juntos, permitem a abertura de portais dimensionais, de modo que possa controlar e unir todos os mundos e dimensões. Alguns momentos interessantes e ação razoável, mas longe de aproveitar o conceito de mundos paralelos da melhor forma possível.

 

 

 

 

 

 

O LAGO (The Lake, 1998)

(Dennis Hammer Productions/ NBC Studios/ Peter Frankovich Productions).

Filme feito para a TV, com direção de David S. Jackson. Uma mulher retorna para sua pequena cidade natal, mas percebe que seus familiares e conhecidos estão diferentes, como se suas personalidades tivessem sido trocadas. Ao final, ele percebe que pessoas de um mundo paralelo semelhante à Terra, porém intensamente poluído, estão vindo para o nosso mundo e tomando o lugar das pessoas daqui.

 

 

NUM UNIVERSO PARALELO (Tempting Fate, 1998)

(Singer White Entertainment).

Direção de Peter Werner, que já havia se aventurado em produção sobre mundos paralelos com A Próxima Saída (1993). Aqui, um cientista desenvolve uma forma de viajar a um universo paralelo e, nos poucos momentos em que passa no local, percebe que as coisas por lá são bem mais calmas. Dois amigos concordam em participar da experiência, visitando o paralelo e colhendo informações. Mas um deles descobre que, nesse outro mundo, ainda está casado com a mulher que ama e resolve ficar por lá. Porém, aos poucos percebe que aquele mundo não é tão perfeito, uma vez que as pessoas são mantidas em ordem e calmas devido a operações cirúrgicas realizadas em qualquer um que se oponha ao sistema, perdendo assim toda vontade de lutar pelo que deseja e de ter opiniões.

 

AVALON: ALÉM DO ABISMO (Avalon: Beyond the Abyss, 1999)

(Waterworks BHS/ Viacom/ Paramount).

Produção para a TV, com direção de Philip Sgriccia. Após a explosão e o misterioso desaparecimento de uma ilha no Caribe, a equipe de investigação Abyss vai ao local e descobre que uma fenda se abriu no fundo do mar, e ela é uma espécie de conexão entre mundos paralelos que surge a cerca de cada cinco mil anos. O responsável pela equipe mergulha no local e encontra com duas cópias de si mesmo, vindas de outros universos. Uma cientista descobre que os maias já tinham o conhecimento do fenômeno. A história até poderia ser interessante se o aspecto dos mundos paralelos fosse explorado de forma mais adequada e se as interpretações não fossem tão medíocres.

 

O DÉCIMO REINADO (The 10th Kingdom, 2000)

(Babelsberg Film und Fernsehen/ Carnival Film & Television/ Hallmark Entertainment/ NBC Studios/ Production Line).

Minissérie em 10 episódios, com produção inglesa, alemã e norte-americana. Antecipando alguns conceitos apresentados em Era Uma Vez (Once Upon a Time, 2011), a história mostra uma mulher e seu pai, moradores de Nova York, transportados para um mundo paralelo de contos de fadas através de um espelho mágico. Os personagens dos contos de fadas habitam nove reinos mágicos – o décimo é o nosso. A Rainha Malvada (Dianne Wiest) tem planos de governar todos eles, ainda que se encontre presa no quarto reino, governado pelo neto arrogante da Branca de Neve, o Príncipe Wendell (Daniel Lapaine), que acaba sendo transformado num cachorro e, em sua fuga da Rainha, atravessa o espelho mágico e vai parar em Nova York, onde se une a Virginia Lewis (Kimberly Williams-Paisley) e seu pai Tony (John Larroquette), retornando aos Nove Reinos com os dois humanos.

 

A CASA NEGRA (Black House, 2001)
Stephen King e Peter Straub.

 

O CONFRONTO (The One, 2001)

(Revolution Studios/ Hard Eight Pictures).

Direção de James Wong, com Jet Li e Carla Gugino. Interessante conceito de universos paralelos, com ação levada para o lado dos filmes de artes marciais, aproveitando o conhecimento de Jet Li na área. Ele interpreta um policial que encontra uma versão dele mesmo, vinda de um universo paralelo. Essa versão maligna descobriu que quantos mais “dele mesmo” ele matar, maior será sua força. Assim, começa a viajar de um universo paralelo para outro, matando suas cópias e se tornando cada vez mais poderoso; seu objetivo é se tornar o único (the one). Sua versão mais amena, no entanto, enfrenta-o pau a pau, é claro.

 

 

ABARAT (Abarat, 2002)
Clive Barker.

 

CORALINE (Coraline, 2002)
Neil Gaiman.

 

NA TEIA DO TERROR (Webs, 2003)

(Universal Pictures).

Direção de David Nu, em filme feito para TV. Quatro eletricistas são enviados a um prédio condenado e lá encontram um aparelho que abre um portal para um mundo paralelo. Claro que eles atravessam e chegam a uma Chicago deserta e coberta por teias, dominada por uma Aranha Rainha e outras criaturas perigosas. Horrível.

 

TRILOGIA DO QUARTO MUNDO (Fourth Realm Trilogy, 2005/ 2007/ 2009)
O Peregrino (The Traveler, 2005)
Rio Escuro (The Dark River, 2007)
A Cidade Dourada (The Golden City, 2009)

 

LOST IN AUSTEN (2008)

(Mammoth Screen).

Minissérie inglesa em quatro episódios, apresentada na ITV e muito bem recebida pelo público e crítica. Jemima Rooper interpreta Amanda Price, vivendo na Londres de nossa Terra e época, e apaixonada pelo romance de Jane Austen, Orgulho e Preconceito. Um dia, ela encontra a personagem Elizabeth Bennet (Gemma Arterton) em seu banheiro, vestida de camisola, mas entende que se tratou de um sonho ou alucinação, até que Elizabeth aparece no local novamente; trata-se de um portal para o mundo do romance, e Jemima atravessa, passando a conviver com os personagens, menos a própria Elizabeth, que fica no século 21 de nosso mundo. Claro que a presença dela nesse mundo faz com que os acontecimentos sigam em outra direção. Ela tenta arrumar a situação, mas só consegue piorar as coisas.

 

ERA UMA VEZ (Once Upon a Time, 2011-)

 

FRINGE (Fringe, 2008-2013)

 

A OUTRA TERRA (Another Earth, 2011)

 

TERRA NOVA (Terra Nova, 2011)

(Amblin Television/ Chernin Entertainment/ Kapital Entertainment/ Siesta Productions/ 20th Century Fox Television).

Seriado criado por Kelly Marcel e Craig Silverstein, com produção executiva de Steven Spielberg e, talvez por isso mesmo, muito aguardado. No entanto, foi suspenso após 13 episódios. Recebeu boas críticas nos primeiros episódios, mas elas foram ficando mais pesadas à medida que a ação prosseguia.
A história inicia no ano 2149, quando a Terra está superpovoada e superpoluída, e a vida no planeta está ameaçada. A solução encontrada é utilizar a descoberta recente da ciência, um aparelho que abre uma passagem para um mundo paralelo, uma Terra 85 milhões de anos no passado. Assim, estabelecendo uma colônia no passado distante, podem começar a enviar pessoas para criar uma nova civilização. Como se trata de um mundo paralelo, seus novos habitantes não irão criar alterações que repercutam no presente.

 

THE LONG EARTH (2012-2016)
Terry Pratchett e Stephen Baxter.

(Capa: Rich Shailer. Doubleday).

Uma série de histórias escritas em colaboração, relacionadas a uma série de universos paralelos semelhantes à Terra e que podem ser alcançados por meio de um aparelho especial, chamado Stepper.
Pratchett faleceu em março de 2015, quando três livros já haviam sido publicados, e um quarto estava para ser publicado. Infelizmente, não se tem notícia de publicação em português. Os livros são: The Long Earth (2012); The Long War (2013); The Long Mars (2014); The Long Utopia (2015); The Long Cosmos (2016).

 

 

ERA UMA VEZ NO PAÍS DAS MARAVILHAS (Once Upon a Time in Wonderland, 2013-2014)

 

COHERENCE (2013)