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O MUNDO DOMINADO PELAS PRAGAS


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FILMES/Matérias
autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data21/5/2015 17:17:32
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resumoApesar de o perigo nuclear ter dominado grande parte da produção do gênero, as pragas também tiveram papel importante na aniquilação da sociedade. E, em tempos mais recentes, elas têm se tornado ainda mais comuns, seja no cinema, seja na literatura.

Na matéria O QUE FAZER DEPOIS DO FIM DO MUNDO? já falamos sobre os livros de Mary Shelley, The Last Man (1826), e de Jack London, A Praga Escarlate (The Scarlet Plague, 1915), entre as primeiras a imaginar o fim da civilização por meio de uma praga.
Uma praga também está no centro de Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 1954. Francisco Alves Ed., 1981; pela mesma editora, também com o título A Última Esperança da Terra), de Richard Matheson, obra que teve bastante impacto na ficção científica, apesar de ter seus inimigos ferozes até mesmo entre os escritores do gênero, especialmente na época de seu lançamento. Em tempos mais recentes, recebeu críticas bem melhores; em alguns casos, excelentes, como o texto publicado por Dan Schneider, em The International Writers Magazine: Book Review, em 2005. O crítico disse que o livro é, talvez, o maior romance já escrito sobre a solidão humana. Chegou a afirmar que, nesse sentido, ultrapassa Robinson Crusoe, de Daniel Defoe.

Charlton Heston, em A Última Esperança da Terra (Warner).

A história é mais conhecida das gerações mais jovens devido à refilmagem de 2007, com Will Smith e Alice Braga. Ainda assim, na versão cinematográfica, o filme de Boris Sagal, com Charlton Heston, A Última Esperança da Terra (The Omega Man, 1971) ainda é um cult e, provavelmente, mais conhecido do que a versão recente. Já tinha sido filmado anteriormente em 1964 por Sidney Salkow e Ubaldo Ragona, com o título O Último Homem Sobre a Terra, ou Mortos Que Matam (L’Ultimo Uomo Della Terra/ The Last Man on Earth), que teve como destaque Vincent Price no papel principal.


Vincent Price, arregalando os olhos no fim do mundo, em Mortos Que Matam (AIP/ Flashstar).

Os destaques do livro são a narrativa enxuta e direta de Matheson – que ele utilizou amplamente nos roteiros para televisão do seriado Além da Imaginação – e a inversão do tema dos vampiros, com o humano passando a ser considerado o inimigo. A praga que assolou o planeta transformou quase todos os humanos em seres que só vivem à noite e ameaçam o sobrevivente.
Uma supergripe é o tema do excepcional A Dança da Morte (The Stand, 1978), de Stephen King. Ele já havia flertado com o tema no conto Espuma Noturna, publicado no livro Sombras da Noite (Night Shift, 1976-78), mas foi no romance que ele conseguiu expandir e explorar completamente o tema. Claro que, como se trata de um livro de Stephen King, os elementos de terror estão presentes, assim como uma conexão com sua obra maior, A Torre Negra, uma vez que lida também com passagens para mundos paralelos, assim como a presença abrangente de um mal universal que tenta apoderar-se das pessoas e dirigir suas ações para seus próprios fins.

Ainda assim, também traz alguns dos itens “clássicos” das histórias de fim de mundo, com alguns sobreviventes tentando unir-se e restaurar a civilização. A relação com o livro de George R. Stewart, Só a Terra Permanece, também comentado na matéria O QUE FAZER DEPOIS DO FIM DO MUNDO?, não parece ser por acaso. King disse que a inspiração inicial para A Dança da Morte foi uma notícia sobre um vazamento químico em Utah. A notícia dizia que, se o vento estivesse soprando na direção oposta, os habitantes de Salt Lake City teriam sofrido muito. O artigo lembrou o escritor do livro de George R. Stewart; junte-se a isso uma estação de rádio que divulgava a Bíblia e repetia a frase “Uma vez, em todas as gerações, a praga vai recair sobre eles”, e está pronto o cenário para Stephen King passar dois anos escrevendo um de seus mais longos livros.
Em seu excelente e divertido livro de ensaios, Dança Macabra (Danse Macabre, 1981), King fala sobre o livro, bem e mal, e também sobre aquela necessidade que os escritores sentem, às vezes, de escrever sobre “a destruição do mundo da forma como nós o conhecemos”. Essa destruição, dependendo do estado de espírito, pode se tornar um verdadeiro alívio, o que pode ser explicado pelas primeiras frases que ele escreveu antes de iniciar seu trabalho: “Não haverá mais falta de petróleo. Não haverá mais guerra fria. Não haverá mais poluição. Não haverá mais bolsas de couro de jacaré. Não haverá mais crimes. Uma temporada de descanso”.
No caso de A Dança da Morte, as batalhas passam a ser por almas humanas. King disse que concebeu “um mundo onde todas as reservas nucleares iriam simplesmente desaparecer e alguma espécie de equilíbrio moral, político e econômico normal voltaria a reinar no louco universo que chamamos de lar”. Só que as coisas não saíram exatamente assim, porque ele percebeu que as pessoas iriam agir de outra forma e, talvez, antes de recolher todas as antigas armas, iriam tentar solucionar as questões pendentes. Ele também escreveu: “O livro também tenta celebrar os aspectos mais positivos de nossas vidas: a simples coragem, o amor e a amizade, em um mundo que quase sempre se mostra tão desumano. A despeito de seu tema apocalíptico, The Stand é principalmente um livro esperançoso...”.

Em 1994, o livro foi transformado em excelente minissérie dirigida por Mick Garris e roteiro do próprio Stephen King, o que garantiu a fidelidade ao texto original. O projeto levou bastante tempo para ser realizado, passando pelas mãos de muitos produtores; durante algum tempo chegou a ser considerado irrealizável. O elenco traz bons atores e ainda a participação especial de várias celebridades, entre elas o próprio Stephen King e os diretores John Landis, Sam Raimi e Mick Garris.





Rob Lowe (como Nick Andros) e Bill Fagerbakke (como Tom Cullen), na boa versão para TV de A Dança da Morte (Laurel Entert./ Greengrass Prod./ Paramount).









Outros livros do gênero
Memórias Encontradas Numa Banheira
Pastelão, ou Solitário Nunca Mais


MAIS PROBLEMAS

A impressão que se tem é que lá pelos anos 1950/60 as naves espaciais tinham sérios problemas de navegação, ou então existiam muitos portais temporais no espaço. Era relativamente comum as espaçonaves saírem da Terra em direção a algum lugar e chegarem a outro.
Um dos filmes em que isso aconteceu foi Além da Barreira do Tempo (Beyond the Time Barrier, 1960), no caso, num voo suborbital experimental. Robert Clarke interpreta um piloto de testes que, sabe-se lá como, rompe a barreira do tempo e surge no ano 2042, numa Terra arrasada. A catástrofe desse futuro é composta: o planeta foi arrasado por uma praga causada pelo rompimento da camada de ozônio, provocado pelo excesso de testes nucleares; e a radiação provocou mutações, como sempre, e obrigou os sobreviventes a refugiarem-se no subsolo. Tornaram-se estéreis, mas desenvolveram a telepatia.


Cartaz colorido do filme em preto e branco Além da Barreira do Tempo (AIP).

O filme é em preto e branco, numa época em que eles já rareavam, a produção é minúscula – a esposa e a filha do diretor Edgar G. Ulmer trabalham no filme, realizado com pouco mais de 100 mil dólares. Junte-se a isso o fato de que Ulmer não era exatamente um grande diretor. Antes disso, seu maior sucesso foi o bom O Homem do Planeta X (The Man From Planet X, 1951). Apesar de tudo, o filme funciona, destacando-se entre as pequenas produções da época.

Em 1970, o conhecido ator Cornel Wilde aventurou-se no gênero dirigindo A Mais Cruel Batalha (No Blade of Grass), baseado no livro de John Christopher (The Death of Grass, 1956). Não foi seu primeiro trabalho como diretor, mas não foi tão bem recebido quanto aquele que é considerado seu melhor filme, A Prova do Leão (The Naked Prey, 1965).
Traz algumas situações básicas de um grupo de pessoas enfrentando as dificuldades de sobreviver num mundo em que a ordem foi destruída. Um vírus acaba com as colheitas da Terra, provocando ondas de fome e doenças, e a consequente desintegração da sociedade.


Nigel Davenport, fazendo o necessário para manter sua família, em A Mais Cruel Batalha (MGM/ Warner).

Nos grupos que se formam, a autoridade é mantida à força. Nigel Davenport interpreta o sujeito que conduz sua família através do país em direção a um provável abrigo no interior, onde amigos e parentes construíram uma fortaleza. O caminho é repleto de problemas e perigos, especialmente os grupos violentos que atacam procurando comida ou simplesmente para mostrar sua força.


Nigel Davenport e Jean Wallace mandando bala em A Mais Cruel Batalha. 

Segundo a crítica, o livro é melhor do que o filme, que não é tão ruim assim, mas que foi retalhado na edição final feita pelo estúdio.

George Romero, já famoso por seu espetacular A Noite dos Mortos Vivos (Night of the Living Dead, 1968), de certa forma reescreveu a história em O Exército do Extermínio (The Crazies, 1972), explorando de forma efetiva a relação entre militares, ciência e o resultado de pesquisas científicas aplicadas para a guerra. Um avião do governo carregado com um vírus para o qual não há cura conhecida cai perto de uma pequena cidade dos EUA, e as tropas do exército tomam conta do local, mantendo a cidade em quarentena.
O efeito do vírus é tornar as pessoas completamente alucinadas e violentas, e a reação dos militares é igualmente violenta; às vezes fica até difícil saber que é mais louco.
O filme não foi tão bem recebido quanto seu trabalho anterior, ou como seriam os demais filmes da série de zumbis, mas é bem interessante. E, apesar de centrar-se numa pequena cidade do interior, o final deixa implícito que o problema está apenas começando, e que o vírus está se espalhando pelo país.


Os militares tomam conta da situação em O Exército do Extermínio (Pittsburgh Films/ Cult Classic).

Nos anos 1990, a praga que assola o planeta mudou o foco, em Amanhecer Sem Futuro (Daybreak, 1993), produção da HBO para a TV, com Cuba Gooding Jr. e Moira Kelly. Apesar das referências não serem explícitas, a epidemia que atinge todo o planeta obviamente é a AIDS – trata-se de uma doença sexualmente transmissível. Existe um governo violento e ditatorial que lembra os nazistas, e as pessoas são colocadas em quarentena em “campos especiais”. A propaganda é que esses locais servem para ajudar os infectados, mas na verdade a ideia é livrar-se deles.
Um dos maiores problemas do filme é um pecado comum em histórias de ficção científica, ou seja, situar os eventos numa data específica e, no caso, muito próxima – 2005. Os infectados tem a letra P tatuada (de positivo), e qualquer um que tente sair dos campos é fuzilado. Não chega a ser um grande filme, mas é interessante pelo enfoque.



Muito superior é Os Doze Macacos (Twelve Monkeys, 1995), do excepcional diretor Terry Gilliam, com Bruce Willis e Brad Pitt. É uma mistura de tema apocalíptico com viagem no tempo. Num futuro indeterminado, 99 por cento da população mundial foi eliminada por um vírus, libertado por um homem supostamente louco.


Bruce Willis, perdidaço no tempo, e o alucinado Brad Pitt, em Os Doze Macacos (Universal).

Uma elite de cientistas controla absolutamente tudo no planeta, mantendo a maioria dos sobreviventes presa em jaulas no subterrâneo. Como conseguiram desenvolver a viagem no tempo, escolhem um dos presos, Bruce Willis, para retornar ao passado e procurar informações que permitam mudar a situação e retornar à superfície do planeta.


Os cientistas do futuro, em Os Doze Macacos. 

Um dos problemas dessas viagens no tempo é que elas são imprecisas, de modo que Willis é jogado para períodos diferentes daqueles para os quais deveria viajar. Além disso, os deslocamentos afetam sua capacidade de definir o que é real e o que é produto de sua imaginação.

Um grande sucesso foi o filme Extermínio (28 Days Later, 2002), dirigido por Danny Boyle. Ativistas invadem um laboratório e libertam macacos infectados com um vírus extremamente contagioso. Isso é o suficiente para dar início ao apocalipse, causando não apenas mortes, mas transformando os sobreviventes em alucinados comedores de carne humana, mais conhecidos no meio cinematográfico como zumbis.

Extermínio (Fox).


Como aconteceria mais tarde nos quadrinhos e na sensacional série de TV The Walking Dead, o protagonista da história acorda no hospital após um período de coma para descobrir que Londres está vazia, vítima da catástrofe que se instalou. A partir daí, ele tem encontros com os comedores de gente e com alguns sobreviventes, que lhe explicam a situação; o vírus já se espalhou pelo planeta.
O filme traz algumas das características das histórias sobre o fim da sociedade; os sobreviventes se reúnem e tentam manter-se vivos; a autoridade desaparece; alguns grupos aproveitam-se da situação para impor-se à força.
Teve uma sequência, Extermínio 2 (28 Weeks Later, 2007), também com boa bilheteria e bem recebido pela crítica.

Em 2008, o diretor N. Night Shyamalan, o mesmo do bem sucedido O Sexto Sentido, apresentou Fim dos Tempos (The Happenning), dessa vez com a natureza revoltando-se contra os humanos malditos que assolam o planeta. Mark Wahlberg interpreta um professor que se vê liderado um grupo de pessoas que procura entender o que está acontecendo, enquanto luta para sobreviver.
A princípio, as autoridades acreditam que se trata de um ataque terrorista, mas na verdade são ataques das plantas, que produzem determinadas combinações químicas que levam as pessoas infectadas à loucura, culminando em suicídio. O que inicia com um suicídio em massa no Central Park de Nova York, espalha-se rapidamente pelo país, e qualquer grande grupo de pessoas é alvo das plantas.


Mark Wahlberg, Zooey Deschanel e Ashlyn Sanchez, no insosso Fim dos Tempos (Fox).

O filme não foi bem recebido pela crítica, e com razão. Shyamalan causou um grande impacto, no público e na crítica, com O Sexto Sentido (1999) e com seu filme seguinte, Corpo Fechado (2000), mas nos anos seguintes fracassou com Sinais (2002) e A Vila (2004). Por mais que seu filme seguinte, A Dama na Água (Lady in the Water, 2006), seja muito melhor do que as críticas deram a entender, com Fim dos Tempos ele retornou ao marasmo de antes.

Em Extermínio sabemos que as vítimas são tomadas pelo vírus em apenas 20 segundos, e esse curto tempo para que um vírus transforme completamente uma pessoa é um dos maiores atrativos de Guerra Mundial Z (World War Z, 2013), um dos mais comentados filmes de zumbis dos últimos tempos. A rapidez impressionante com que a praga se espalha, e a velocidade e violência extrema dos infectados é realmente apavorante. Enquanto em outros filmes do gênero os sobreviventes podem, na pior nas hipóteses, correr dos zumbis, aqui isso não é possível.


Uma das muitas impressionantes cenas de zumbis atacando, em Guerra Mundial Z (Paramount).

O filme foi baseado no livro Guerra Mundial Z: Uma história oral da guerra dos zumbis (World War Z: An Oral History of the Zombie War, 2006. Ed. Rocco), com uma narrativa muito diferente da utilizada no filme.