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QUASE HUMANOS
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autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data24/10/2016 9:57:55
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resumoNo caso dos robôs e androides, serem quase humanos significa que eles podem ser muito legais ou muito canalhas.


A possibilidade de que os robôs desenvolvam um comportamento semelhante ou igual ao dos humanos abre uma série de discussões, e elas não se restringem às histórias de ficção científica. Afinal, é difícil definir o que é “humano” e, no caso dos seres artificiais, se eles estariam apenas reproduzindo ou simulando comportamentos e pensamentos humanos, ou desenvolvendo seus próprios pensamentos e comportamentos. Qual seria a diferença entre a programação dos robôs para serem de determinada maneira e a nossa programação genética para sermos de determinada maneira? E a discussão estende-se às questões religiosas, é claro, imaginando se os seres artificiais teriam uma alma.
E os robôs têm corpos diferentes dos nossos, com duração de vida diferente, necessidades distintas. Eles têm uma origem completamente diferente. Imagina-se, então, que os pensamentos que eles possam vir a desenvolver também seriam diferentes; talvez, parecidos, mas nunca humanos. E se formassem uma sociedade própria, que características ela teria? Até que ponto seria humana? É pano pra manga, e essas são apenas algumas das considerações a respeito do tema.
Em um texto publicado no livro The Visual Encyclopedia of Science Fiction, o escritor Arthur C. Clarke escreveu que a primeira vez que a pergunta “Uma máquina pode pensar?” foi seriamente apresentada – e respondida – foi nos anos 1950, pelo gênio matemático Alan Turing. “Mas os escritores de ficção científica”, escreveu Clarke, “sempre souberam a resposta, e as máquinas inteligentes estão entre as personagens mais comuns do gênero”.
De fato, a ficção científica elaborou algumas histórias muito interessantes envolvendo robôs em uma ou mais situações que os aproximam de comportamentos ou pensamentos humanos. E um dos robôs mais interessantes do gênero é, sem dúvida, Jenkins, do excepcional livro Cidade (City, 1952), de Clifford D. Simak.

(Edição de 1952, Gnome Press. Capa de Frank Kelly Freas).

Os contos do livro são unidos e progressivos, mostrando a transformação da humanidade, da Terra, dos cães e, também, do robô Jenkins, antes o mordomo da família Webster, posteriormente uma das poucas referências humanas restantes no planeta. As histórias são apresentadas como fazendo parte da “lenda dos homens”, os seres que um dia teriam habitado o planeta, mas que muitos cães acreditam serem apenas mitos. Os cães, a raça predominante no futuro distante, acreditam que a figura do Homem tenha sido inventada nos primórdios da civilização canina, como uma espécie de deus. Os cães têm dificuldades para compreender noções como a Cidade, o Homem ou a Guerra.
Jenkins é o ponto em comum entre cães e humanos, vendo como os terrestres abandonam seu planeta, servindo aos Webster até que nenhum deles exista mais, acompanhando a transformação dos cães, feita por um Webster cientista, e finalmente servindo e educando os cães, além de conviver com os pouquíssimos humanos mutantes que restaram no planeta.

(Capa da edição portuguesa da Argonauta).

Com o tempo, Jenkins também começa a desenvolver sensações que ele só consegue interpretar como sendo reações humanas a determinadas situações. O robô também evolui enquanto tenta ensinar o que pode aos cães; os próprios cães, ainda em seus primórdios de desenvolvimento, consideram Jenkins como um Webster, parte inseparável da família. Posteriormente, o próprio Webster o considera parte da família.
A história estende-se por milhares de anos, sempre com Jenkins acompanhando a participando ativamente dos eventos, protegendo os cães como pode, e até mesmo vendo o ressurgimento de sociedades humanas.

No livro The Visual Encyclopedia of Science Fiction (1977), editado por Brian Ash, é dito que “O escritor que provavelmente mais fez para humanizar os robôs foi Clifford D. Simak. Em muitas de suas histórias os robôs não mais agem ou pensam como máquinas, mas são quase humanos”.
Os contos que compõem Cidade foram escritos entre 1944 e 1951, mas Simak já vinha trabalhando com o tema dos robôs pelo menos desde 1941, com o conto “Earth for Inspiration”, que teve alguns elementos reaproveitados posteriormente no livro A Boneca do Destino (Destiny Doll, 1971).
Já no conto Todas as Armadilhas da Terra (All the Traps of the Earth, 1960. Em português, publicado na coletânea A Revolta das Máquinas), o robô Richard Daniel não tem os mais de 7 mil anos de idade de Jenkins, mas chega aos 600 anos servindo a uma família e assumindo características humanas, em parte devido à longa convivência, mas também por decisão própria.
Quando o último membro da família morre, a lei diz que o robô deve ser vendido e, antes disso, ter suas memórias apagadas. Daniel procura um advogado para tentar manter suas lembranças, que lhe dão conforto e alegria. O robô já estava vivendo de forma ilegal, uma vez que os humanos determinaram que as memórias dos robôs devem ser apagadas a cada 100 anos. O robô tenta até mesmo conversar com um padre, afirmando possuir uma alma, mas sem conseguir convencê-lo. Sua única saída é fugir, percorrendo vários planetas do universo e transformando-se num ser com capacidades espetaculares.
Pode-se detectar uma relação entre alguns elementos do conto e a história de Isaac Asimov, O Homem Bicentenário (The Bicentennial Man, 1976), no qual um robô, também servindo a uma família ao longo das gerações, vai se tornando cada vez mais humano, inclusive na aparência, chegando ao ponto de viver 200 anos e entrar com um recurso na Justiça para ser considerado um ser humano.

A questão religiosa envolvendo robôs foi abordada por Simak em dois livros muito interessantes: O Deus Impassível (A Choice of Gods, 1972) e Projeto Papa (Project Pope, 1981).
Em O Deus Impassível, Simak continua a apresentar os robôs como os responsáveis, em certa medida, por manter o conhecimento humano, dando continuidade à civilização humana, em vários aspectos. Aqui, a história situa-se cinco mil anos após a humanidade ter desaparecido da Terra, sem que ninguém saiba exatamente como isso ocorreu. Apenas alguns poucos humanos permaneceram, entre eles algumas tribos indígenas. Muito da tecnologia também não existe mais, uma vez que não existem pessoas suficientes para manter e absorver um conhecimento muito complexo e compartimentado.
Os robôs convivem harmoniosamente com os poucos humanos que, por sua vez, desenvolveram capacidades parapsíquicas e longevidade. Mais do que isso, os humanos restantes conseguem deslocar-se pelo espaço pela teleportação, comunicando-se telepaticamente com os que ficaram no planeta.
Os robôs dividem-se em atividades distintas. Uns estão empenhados num Projeto; outros, continuam servindo aos humanos; outros estão empenhados em chegar ao conhecimento da fé religiosa, tão importante para os humanos em determinado período de sua história, mas posteriormente abandonada. Estes robôs enclausuram-se em um convento e estudam as antigas obras cristãs.
Robôs e indígenas começam a ter cada vez mais conceitos semelhantes a respeito da vida e de como deve ser a relação ideal dos seres com seu planeta. E pelos contatos telepáticos, os humanos ficam sabendo da existência de uma inteligência, situada no centro da galáxia, e tão superior à humana que se torna difícil estabelecer uma comparação.
Um chefe indígena e um robô estudioso de religião resolvem procurar os robôs que estão empenhados no Projeto, e ficam sabendo que se trata de um robô gigantesco que, segundo informam, está em contato com alguma coisa, uma inteligência no centro da galáxia. Esse Projeto é algo que os robôs decidiram realizar por conta própria, o que causa algumas discussões. Hezekiah, o autômato religioso, considera um sacrilégio querer elevar-se acima de seus criadores. Por outro lado, ele mesmo ganhou algo de humano ao resolver continuar um trabalhado que os humanos já haviam desistido de realizar.
Esse aspecto representa um ponto presente em vários livros de Clifford D. Simak, que é a aproximação entre a tecnologia e o espiritual; as máquinas estão continuando da busca espiritual dos humanos.

(Edição da Ballantine. Capa de Rowena).

No sensacional Projeto Papa, mais uma vez a história situa-se num futuro muito longínquo, com a raça humana completamente espalhada pelo universo. A Terra passa a ser conhecida como “a velha Terra” e se torna um local de peregrinação.
Mas algo diferente está ocorrendo no planeta conhecido como Fim-de-Nada. Trata-se do Projeto Papa, realizado pelos robôs no local conhecido como Vaticano 17, iniciado há quase mil anos, quando os robôs foram para o planeta. Em sua evolução milenar, os robôs ganharam autonomia, mas ao mesmo tempo não se esquecem de que são criações dos humanos, mantendo uma relação afetuosa com eles. Os robôs sentiam muita atração pela religião terrestres, a cristã em particular, devido à organização, hierarquia, tradição e os dogmas. Mas misturam aspectos de fés alienígenas.
Resolveram construir um papa-computador para chefiar a fé, e ele deveria ser imortal e praticamente infalível. Assim, ele vai sendo diariamente alimentado com novas informações, para poder tornar a fé baseada em respostas instantâneas. Os dados que alimentam o Papa vêm do chamado Programa de Busca, no qual trabalham os Ouvidores, sensitivos recrutados para o Vaticano, vindos de toda a galáxia.
O problema é que os robôs percebem que o Papa não poderia agir da maneira como esperavam, pelo menos no que diz respeito às questões que exijam uma solução imediata, uma vez que ele pensa em termos universais, e programa respostas para centenas ou milhares de anos.
Para os robôs, o Papa não é apenas outro robô, mas realmente um santo, e até mesmo encaram como heresia qualquer palavra em contrário. Suas dúvidas quanto à qualidade de algo ser santo ou sagrado são, como entre os religiosos humanos, dúvidas de caráter individual, íntimo, que são suprimidas pela existência da fé verdadeira.
Outro fenômeno que ocorre diz respeito aos robôs de segunda e terceira gerações, ou seja, robôs que foram construídos por outros robôs, e que sentem-se mais livres, não tendo mais os mesmos sentimentos de adoração com relação aos humanos.
Após uma série de aventuras e ameaças reais vindas de outro planeta, o Vaticano tem sua posição reforçada, sabendo da importância de prosseguir com o trabalho em busca de um princípio universal, não importa quanto tempo leve para concluí-lo. Os robôs querem encontrar algo verdadeiro que inclua a fé e um perfeito relacionamento entre os seres, algo que seja totalmente afastado das ideias de conquista e de poder.

Em Guerra no Tempo (Time and Again, 1951), Clifford D. Simak volta a apresentar os robôs, mais exatamente androides, como elemento fundamental da história, situada 8 mil anos no futuro, quando a raça humana conquistou a galáxia usando de extrema violência. Para isso, contou com a ajuda dos androides, mas eles não estão contentes com essa situação.
Um grupo de humanos tem um plano para ampliar a conquista humana, estendendo-a a todas as galáxias e transformando os humanos em quase deuses. Os androides opõem-se ao plano e fazem de tudo para impedir que se consolide, utilizando sua capacidade adquirida de reproduzir a si mesmos, ou a qualquer outra pessoa.
É uma história complexa, envolvendo tramas complicadas, viagens no tempo, traições e seres alienígenas; no geral, foi bem recebido pela crítica e lida com questões que se tornariam constantes na obra do autor, como a procura pela diversidade, a luta contra o racismo e contra as guerras que dilaceram sociedades. No caso, a solução para os problemas passa pela decisão dos androides, mais compreensivos do que os humanos.

Capa da revista Galaxy Science Fiction, com a primeira parte de Ring Around the Sun, publicada originalmente entre dezembro de 1952 e fevereiro de 1953 (World Editions Inc.)

Simak apresenta androides mais uma vez no livro Mundos Simultâneos (Ring Around the Sun, 1953), e eles estão no centro da ação, ainda que o tema principal seja a existência de mundos paralelos. O androide em questão, o personagem central da ação, tem o corpo artificial para o qual foi transferida a “essência” de um ser humano. É uma forma de Clifford D. Simak desenvolver um tema que é comum a grande parte de seus livros, que é o da dualidade mente/tecnologia, quase sempre apresentadas como fontes de poder e de conhecimento distintas, mas que precisam ser unidas para se atingir um desenvolvimento superior. O ponto fraco da história, como de todas as suas histórias, é o envolvimento romântico de alguns personagens, em situações quase sempre muito mal desenvolvidas.

(Berkeley Medallion. Capa de Vincent Di Fate).

Esse conceito de união entre o aspecto mental e/ou espiritual e o tecnológico/científico também surge em O Mundo dos Túmulos (Cemetery World, 1973), um livro não muito bem recebido de Simak, mas que tem seus momentos muito bons. O personagem central é acompanhado em suas andanças por um robô chamado Elmer, que recebeu seus papéis de liberdade e se diz “uma máquina livre”, além de ter o desejo de tornar-se cada vez mais próximo de um ser humano. Outros robôs também conseguem evoluir, após muitos anos de existência. Mas onde o conceito de união surge com mais força é quando são apresentados os seres chamados de “sombras”, algo muito próximo do que conhecemos como fantasmas, consciências que estavam perdidas no espaço e passam a ocupar corpos metálicos especialmente construídos para tal, funcionando como robôs com consciência humana.

Um robô menos famoso, mas não menos importante na ficção científica é o Spofforth, na verdade um androide, personagem central do romance Ave do Arremedo (Mockingbird, 1980), de Walter Tevis, o mesmo autor de O Homem Que Caiu na Terra.
O androide pertence à última série de “homens mecânicos” construídos pela humanidade, e a mais avançada. Spofforth é o melhor entre os 100 construídos em sua série, com modificações introduzidas em seu cérebro com o objetivo de evitar o problema que havia afetado os demais: o suicídio. Dessa forma, bolaram seu cérebro como uma réplica exata do cérebro de um engenheiro humano, e o corpo de uma pessoa de 30 anos, idade que teria eternamente devido à sua capacidade de regenerar-se.

(Capa da primeira edição, da Doubleday. Ilustração de Fred Marcellino).

O androide, planejado para viver eternamente e jamais se esquecer de coisa alguma, passa os anos vendo em sua mente a imagem de uma jovem que conhecera em seus primeiros tempos de aprendizado, e a quem amara. Vive em conflito, incapaz de esquecer a mulher que já envelheceu e morreu, ele mesmo desejando morrer, mas incapaz de se suicidar como os androides antecessores.
A crítica social mordaz que permeia a história é que Spofforth, como os demais robôs menos capacitados do que ele, foi construído para ocupar o lugar dos seres humanos, cada vez mais idiotizados e sem a menor condição de realizarem funções complicadas relacionadas ao governo, instrução, medicina, justiça, manufatura... Na verdade, os humanos estavam incapacitados até para funções menos importantes, inclusive perdendo sua capacidade de ler. Na época em que foi criado, o androide recebeu seu nome de um dos poucos humanos que ainda sabiam ler.
Com o passar do tempo, os humanos não mais procriam, e Spofforth tem uma participação decisiva nessa situação, uma vez que o objetivo de sua vida é conseguir morrer.
Há uma diferença visível entre Spofforth e outros robôs que se humanizam, nas histórias de ficção científica. Por exemplo, o Jenkins, de Cidade, cresce e aprende à medida que convive com os humanos, ou quando se torna uma espécie de repositório do conhecimento e comportamentos humanos. Spofforth serve à humanidade apenas aparentemente, já tendo sido criado como humano, com parte das memórias de um ser humano. Já nasce possuindo suas características e não tem como aperfeiçoar-se, a não ser seguindo o mesmo caminho dos humanos. Mas mesmo esse caminho já estava delineado em sua criação, de modo que pouco ou nada resta a ele, nem mesmo a vontade de terminar algum trabalho. Como tem o egoísmo próprio dos seres humanos, ele deseja resolver seus próprios problemas – e é claro que a imortalidade, nesse caso, é um problema imenso para ele. Os seus problemas são os problemas humanos, porém ampliados a um nível insuportável, torturante, já que ele foi impedido de morrer. Os problemas dos humanos cessam quando eles morrem, e a solução ou soluções passam a ser trabalho das gerações posteriores. Mas com Spofforth, isso não existe; é apenas ele, para sempre.
O fato é que o androide está fazendo de tudo para eliminar a raça humana da face do planeta, unicamente para poder suicidar-se e acabar com seu sofrimento eterno. Ele acredita que, não existindo mais humanidade, ele estará livre de sua programação de servir aos humanos.
O interessante na história é que, apesar desse pensamento e ação homicidas, Spofforth jamais é apresentado como um ser perverso, com um plano diabólico para aniquilar a humanidade; ele apenas quer acabar com seu próprio sofrimento que, por sua vez, lhe foi impingido pelos humanos ao construírem-no da forma como fizeram. E talvez ele seja dessa maneira porque, na época em que foi criado, já não existiam valores positivos na humanidade para serem inoculados nele.
Seja como for, é um dos robôs mais complexos já imaginados pelo gênero, num livro excelente que, ao que tudo indica, em nosso idioma só teve mesmo a publicação em Portugal.

O tema dos robôs/androides tornando-se humanos a partir do desenvolvimento da inteligência artificial foi explorado maravilhosamente no conto “Os Superbrinquedos Duram o Verão Todo” (Supertoys Last All Summer Long, 1968), de Brian W. Aldiss, um dos principais autores de ficção científica. Foi publicado no Brasil e em Portugal, com os títulos Superbrinquedos Duram o Verão Todo E Outros Contos de Um Tempo Futuro e Inteligência Artificial. Aldiss deu continuidade ao tema com outros dois contos, também publicados no livro: “Os Superbrinquedos Quando o Inverno Chega” e “Os Superbrinquedos em Outras Estações”.
Ficou mais conhecido pela excelente adaptação para o cinema, projeto iniciado por Stanley Kubrick ainda nos anos 1970 e, após o falecimento de Kubrick, em 1999, finalizada por Steven Spielberg, em A.I. – Inteligência Artificial (A.I. – Artificial Intelligence, 2001).


Haley Joel Osment como o robô David, em A.I. - Inteligência Artificial (Amblin Entert.).


Segundo as informações, Kubrick imaginava o filme como uma espécie de versão de Pinóquio, e quando o filme foi apresentado nos cinemas foram feitas algumas críticas a Spielberg, entendendo que ele teria “amenizado” a história, o que o diretor negou veementemente. Na verdade, as partes “amenizadas” foram desenvolvidas por Kubrick, e Spielberg apenas seguiu o que estava no roteiro, sendo responsável pelo ambiente mais pesado que se desenvolve na parte central do filme.
Na história, um casal cujo filho está em coma, sem muitas esperanças de retornar à vida, resolve “adotar” uma criança, um robô com aparência humana, e tratá-lo como filho. Ele recebe o nome de David e passa a fazer parte da família, em mais uma interpretação excepcional do então jovem Haley Joel Osment, que vinha do sucesso em O Sexto Sentido, dois anos antes.
Uma das cenas mais marcantes é quando a mãe (Frances O’Connor) precisa tomar a decisão de tornar o robô inteligente ou não. Ele chega à casa da família com uma programação básica, e existe uma série de procedimentos que, após terminados, dispara o mecanismo de inteligência artificial no robô. É importante na história porque tem a ver com a noção de responsabilidade do criador com sua criatura, uma vez que, após o processo ter início, não é possível voltar atrás. Ou seja, a mãe dá ao “filho” uma ligação com o mundo, com tudo o que ele tem de bom e de ruim, e em especial desperta nele sentimentos humanos, e precisa ser responsável por isso.


Momento crucial: a mãe resolve despertar a inteligência artificial do robô David.

O que, para quem já viu o filme, não acontece. Quando o filho de carne e osso retorna do seu coma e é reintegrado à família, David começa a ser deixado de lado, até chegar ao ponto de ser simplesmente jogado fora, como um utensílio doméstico que não se quer mais, tendo de enfrentar as dificuldades da sociedade em companhia de outros robôs rejeitados.


Os robôs recebem a inteligência, mas são descartados e utilizados para jogos violentos.

Se Kubrick via o filme como uma versão de Pinóquio – o que está correto – ele também pode ser visto como uma versão de Frankenstein, especialmente no que diz respeito a essa relação entre criador e criatura, e a busca da criatura por um sentido em sua vida, em sua criação, e o porquê de ter sido descartado com tanta facilidade. E esse é um tema básico nas histórias envolvendo robôs avançadíssimos; a incapacidade dos humanos em perceber a imensidade do que está criando e sua incapacidade em lidar com suas necessidades.
O final do filme despertou pontos de vista diferentes. Tudo indicava que a busca de David terminaria no momento em que ele encontra a Fada Azul, na referência mais óbvia a Pinóquio – e ao Pinóquio da Disney. É uma cena triste, com o robô encontrando uma estátua da Fada Azul, no fundo do mar. Ele fica olhando para ela, maravilhado, repetindo sem parar que quer ser transformado num menino de verdade, e parece que irá permanecer ali eternamente, ou até se desgastar, o que pode ser um tempo muito, muito longo.
Seria um final espetacular para o filme. Triste, mas espetacular. Mas a história continua, dois mil anos no futuro, quando a humanidade está extinta. Os robôs dominam o planeta e procuram conhecer mais sobre os humanos do passado, entendendo que é uma forma de saber mais sobre sua própria existência. E são eles que descobrem o corpo congelado de David, baixam suas memórias e conseguem clonar o corpo de sua “mãe”, para mais um dia de existência.
Seja como for, gostem ou não do final, trata-se de um dos grandes filmes sobre robôs inteligentes e seu efeito na sociedade humana, para não falar do efeito da sociedade humana nos robôs.



OUTROS ROBÔS QUASE HUMANOS

O Mundo de Midas
(Midas World, 1983)
Frederick Pohl
Apesar de ter sido publicado em 1983, o livro consiste de histórias reunidas em torno do conto A Praga de Midas (The Midas Plague), publicada originalmente em 1954, na revista Galaxy. Os outros seis contos foram desenvolvidos nos anos 1980.
A história se passa num futuro em que é desenvolvida a energia ilimitada e quase gratuita, o que elimina a pobreza no planeta. Os robôs fabricam de tudo em grandes quantidades, de modo que o consumo passa a ser mais importante do que o trabalho em si.
Ao longo das histórias, a função dos robôs vai mudando. Inicialmente, eles passam a ser consumidores dos produtos, resolvendo em parte o problema da superprodução. Num segundo momento, muitos robôs tornam-se inteligentes e passam a participar mais ativamente da vida pública e política, não só votando, mas concorrendo a cargos públicos.
A evolução seguinte já mostra os robôs capazes de sentirem emoções. A maior parte da humanidade já abandonou o planeta, seguindo para colônias espaciais, e os humanos que permaneceram no planeta ignoram os sentimentos dos robôs e utilizam-nos como escravos. Nesse ponto, a história aproxima-se bastante da visão apresentada no filme Inteligência Artificial, comentado anteriormente; os humanos criam os robôs, dão a eles a inteligência e a capacidade de desenvolverem sentimentos, e depois os descartam como máquinas velhas, ou algo que não querem mais.

A TORRE DE VIDRO
(Tower of Glass, 1970)
Robert Silverberg

A VINGANÇA DO MONSTRO (Tobor the Great, 1954)
Direção de Lee Sholem


A Vingança do Monstro (Dudley Pictures Corporation).

O filme não é grande coisa, feito para o público juvenil. Tobor é um robô que tem sentimentos e que capta pensamentos por telepatia, estabelecendo conexões emocionais com as pessoas.

THE CREATION OF THE HUMANOIDS (1962)
Direção de Wesley E. Barry


Cartaz de The Creation of the Humanoids (Genie Productions).

História situada no século 23, após uma guerra mundial ter dizimado quase a totalidade da população da Terra. Os sobreviventes constroem robôs humanoides para ajudar na reconstrução das cidades. Um cientista procura tornar os robôs cada vez mais parecidos com os humanos, querendo que eles procriem, uma vez que os humanos tornaram-se estéreis. O filme é pouco conhecido no Brasil e foi bem visto pela crítica americana, apesar da pobreza dos cenários, devido a um orçamento muito pequeno.


SINS OF THE FLESHAPOIDS (1965)
Direção de Mike Kuchar


Se o anterior era uma produção pequena, essa é ainda menor; o diretor não tinha orçamento para sincronizar as falas dos personagens e, então, resolveu colocar balões, como nos quadrinhos. Mas como podemos ver na imagem, não bem como nos quadrinhos, mas em cima das imagens. A história situa-se um milhão de anos no futuro, quando a humanidade tornou-se absolutamente preguiçosa e totalmente voltada para seu próprio prazer. Criaram os fleshapoids do título, robôs que além de servirem os humanos tentam manter o espírito e o conhecimento humanos vivos. Além disso, conseguem se reproduzir.

O PROJETO QUESTOR (The Questor Tapes, 1974)
Direção de Richard A. Colla


O Projeto Questor (Universal Television).

Uma produção de Gene Roddenberry para a TV, que deveria ser um seriado, mas não foi adiante. Questor é um androide cuja missão é impedir que a humanidade destrua a Terra. Porém, ele foi programado com suas memórias incompletas e sem emoções humanas desenvolvidas, de modo que ele passa a procurar seu criador, para que ele complete sua programação. Foi um dos vários projetos de séries de Roddenberry que não foram adiante, o que foi bastante lamentado pela crítica. A ideia era boa, este filme piloto é bom, e o seriado poderia ter sido bom. Michael Weldon, em The Psychotronic Encyclopedia of Film, disse que o bom piloto de série é “supreendentemente cínico para um filme de televisão”. Em 2010, chegou a ser noticiado (por Jenna Busch, no site Newsarama) que Rod Roddenberry, filho de Gene, estava tentando reviver o seriado; também disse que Questor foi a base para a elaboração do androide Data, de Jornada nas Estrelas, a Nova Geração. No Brasil, o filme também foi apresentado com o título “O Androide”.

D.A.R.Y.L. (D.A.R.Y.L., 1985)
Direção de Simon Wincer

(Paramount Pictures).

O garoto-robô do título, Daryl (Data Analyzing Robot Youth Life Form) é descoberto vagando por uma floresta e sem memória de quem é. Ele é adotado por uma família que, aos poucos, vai percebendo suas incríveis capacidades. A parte inicial do filme é até interessante, mas depois torna-se a história mais banal no gênero, com os militares interessados em descobrir como um robô pode ser utilizado para a guerra

ADORÁVEL ANDROIDE (Not Quite Human, 1987)
Direção de Steven Hilliard Stern
Produção da Disney que teve duas sequências: Uma Paixão Eletrônica (Not Quite Human II, 1989); e Still Not Quite Human (1992). A base são os seis livros escritos por Seth McEvoy Um cientista cria um androide com aparência de um garoto e o adota, criando-o como filho humano. Os filmes são bem bobinhos envolvendo situações em que o androide tem de agir como humano.

NAS ASAS DO VENTO (Slipstream, 1989)
Direção de Steven Lisberger


O androide Byron (Bob Peck, à esquerda) e o humano Matt Owens (Bill Paxton), em Nas Asas do Vento (Entertainment Film).

Produção inglesa que não foi muito bem nas bilheterias do seu país, e nos EUA só chegou em vídeo, como aqui no Brasil. Numa Terra que foi arrasada por um cataclismo ecológico, um androide, um dos últimos de sua raça, possui conhecimentos que podem ajudar na reconstrução da sociedade. Ele percorre as terras devastadas e começa a despertar para sentimentos humanos. O filme teve péssimas críticas, mas não é tão ruim assim.

MULHERES PERFEITAS/ AS ESPOSAS DE STEPFORD
Ver matéria no especial Mil Cidades

EVA (2011)

EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL (Ex-Machina, 2015)
Direção de Alex Garland


(Universal Pictures International).

O filme marca a estreia do escritor Alex Garland como diretor. Um programador de computador é convidado para um fim de semana com o dono da empresa onde trabalha. O sujeito construiu uma robô com inteligência artificial, e ele espera que o jovem descubra se ela realmente é capaz de ter pensamentos próprios, além de estudar o relacionamento entre os dois. A robô consegue manipular o jovem, matar o patrão e fugir para o mundo. Apesar de ter sido muito bem recebido pela crítica, em geral, o filme não é grande coisa, requentando alguns temas básicos do gênero.