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SONHOS COMO MUNDOS PARALELOS

FILMES/VE MUNDOS PARALELOS E ALTERNATIVOS

autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data9/2/2018
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SONHOS COMO MUNDOS PARALELOS

 

Ainda que o mundo dos sonhos geralmente esteja relacionado às histórias de fantasia, ele também surge na ficção científica e no terror. Um exemplo bem claro disso é a série de histórias de H.P. Lovecraft, reunidas no livro Os Demônios de Randolph Carter (para matérias sobre Lovecraft: O Mal e o Terror Absolutos (ensaio); Terror e o Universo de Lovecraft; Nos Sonhos e Pesadelos de Lovecraft; O Terror Vem do Espaço; Necronomicon e Outros Livros Malditos).
Os contos são O Depoimento de Randolph Carter (The Statement of Randolph Carter, 1919), Em Sonhos, À Procura da Desconhecida Kadath (The Dream-Quest of Unknown Kadath, 1926-27), A Chave de Prata (The Silver Key, 1926) e Através das Portas da Chave de Prata (Through the Gates of the Silver Key, 1933), este último escrito em parceria com E. Hoffman Price. As histórias fazem parte do que se convencionou chamar de “Ciclo dos Sonhos”, e que abarca ainda mais histórias do autor envolvendo viagens a mundos de sonhos.

Veja a seguir outras histórias envolvendo os sonhos como mundos paralelos.

 

A TERRA DOS SONHOS FELIZES
John Brunner
 

O SENHOR DOS SONHOS
Roger Zelazny
 

Capa da primeira edição (Ilustração de  Carl Berkowitz).

O FLAGELO DOS CÉUS (The Lathe of Heaven, 1971)
Ursula K. Le Guin
Um dos excelentes livros de Ursula K. Le Guin, uma das maiores escritoras da ficção científica. Na época do lançamento do livro alguns críticos foram um tanto severos na avaliação, entendendo que se tratava de uma cópia do tipo de histórias de Philip K. Dick. No entanto, como a própria autora explicou, tratava-se de uma homenagem a PKD.
A situação que se assemelha a muitas histórias de PKD é uma alteração da realidade a partir dos sonhos do personagem George Orr. Ele tem a capacidade de mudar o mundo de acordo com o que ele sonha, e não apenas pequenas partes da realidade, mas toda ela, alterando a própria história do planeta.
A situação não é agradável para George Orr, que passa a usar drogas como forma de não dormir e não provocar as alterações. Ao realizar um tratamento com um psiquiatra, William Haber, especialista em sonhos, que começa a sugerir sonhos para Orr como forma de mudar a realidade de acordo com seu modo de pensar; ele até tem boas intenções, querendo melhorar a vida no planeta, mas as coisas não são tão simples. E cada sonhos cria um mundo paralelo, às vezes apenas ligeiramente diferente do original, outras vezes muito diferente.
Dois temas comuns em PKD surgem aqui: o indivíduo com poderes fora do comum, e a dificuldade em definir o que é realidade e o que é fantasia, ou sonho.                        

                                                                                                                     Bruce Davidson, como George Orr, na versão para a TV (PBS).

Duas adaptações da história foram produzidas para a televisão. A primeira em 1980, pela PBS, televisão pública dos EUA, com direção de Fred Barzyk e David Loxton, com o envolvimento da própria autora. Bruce Davison interpreta George Orr e Kevin Conway é o dr. Haber. A segunda versão, de 2002, não foi tão bem recebida quanto a primeira, e teve direção de Philip Haas, com Lukas Haas como Orr, e James Caan como o dr. Haber.

 

O HOMEM QUE SONHAVA COM A REALIDADE
Direção de Alf Kjellin.
 

(Capa: Richard Lon Cohen e John Townley. Berkley Books).

TINTAGEL (Tintagel, 1981)
Paul H. Cook.
O autor utiliza seu conhecimento de música clássica e de literatura para compor uma história misturando os dois elementos, a partir de um ponto de vista exemplificado num texto introdutório à história propriamente dita, de autoria do musicólogo Victor Zukerkandl, de sua obra Sound and Symbol (1956); em certo ponto desse texto, que diz respeito aos conceitos de “mundo exterior e mundo interior”, o autor diz que “considerar a concepção musical do universo como um traço de união entre os pontos de vista científico e religioso não constitui um rematado disparate”.
Paul Cook apresenta então Francis Lanier, um Vigilante imune à Síndrome de Liu Shan que assola o planeta. Um dia, na China, um renegado associado à Frente Revolucionária Democrática do Povo, “desenvolveu uma bactéria criada no ar que tinha uma duração de vida de 20 anos e acentuava a neurose de quem a inalasse ou ingerisse”. E ele soltou a bactéria, que se transformou de modo mais poderoso. A Síndrome alimenta-se de variações emocionais de suas vítimas, sobretudo quando suscitadas por qualquer forma de música. O que ocorre então é que quando estão escutando qualquer tipo de música e se entregam aos sentimentos por ela provocados, as pessoas simplesmente desaparecem. Elas literalmente deixam a Terra, criando uma pequena explosão de cor que ocupa o lugar onde elas se encontravam, e transferem-se fisicamente para um ambiente criado por suas mentes, porém igualmente real, onde elas podem se perder ou mesmo morrer. Como Vigilante, imune, Lanier tem a missão de concentrar-se na música que a pessoa ouvia no momento, e ir atrás dela, trazendo-a de volta à Terra.
O fato cientificamente aceito é que “a realidade não passava de uma certa série de vibrações com que todos os habitantes do planeta se encontravam sintonizados. Tudo é energia, a matéria não existe – tudo se revela em frequências de vibrações que somente os mais sensitivos podem ver ou sentir”, um conhecimento que há milhares de anos os sábios do Oriente já diziam possuir.
A história prossegue mostrando as variantes da doença e a forma como ela alterou o comportamento social e político, a ponto de certas músicas serem proibidas.
 

A MORTE NOS SONHOS (Dreamscape, 1984)
Direção de Joseph Ruben.
Max von Sydow interpreta um cientista que desenvolve um projeto financiado pelo governo. A ideia é conseguir fazer com que algumas pessoas entrem no sonho de outras com o objetivo de ajudar pessoas com problemas psíquicos. Ele contrata Alex Gardner, interpretado por Dennis Quaid, para realizar as viagens para o mundo dos sonhos, aproveitando que Alex tem capacidades paranormais acentuadas.

Dennis Quaid, pronto para entrar no mundo dos sonhos (Zupnik-Curtis Enterprises/ Bella Productions/ Chevy Chase Films/ Weintraub Entertainment Group).

Christopher Plummer interpreta uma espécie de “poder por trás do poder”, um poder oculto que tenta dirigir o governo dos EUA. E ele se aproveita que o presidente dos EUA (Eddie Albert) está passando por um momento difícil, assolado por terríveis pesadelos envolvendo o mundo após uma guerra nuclear. Plummer tem seu próprio viajante dos sonhos, que tem como missão enlouquecer o presidente de uma vez por todas, ou até mesmo matá-lo nesse mundo de pesadelo. Um filme bem legal.
Segundo se diz, a história teria sido baseada no livro de Roger Zelazny, apresentado acima, O Senhor dos Sonhos, que ele teria desenvolvido como um esboço de filme para a 20th Century-Fox; como ele não participou da elaboração do roteiro, seu nome não aparece nos créditos.

 

O NAVEGADOR DOS SONHOS (Nemo, 1984)

(Goldcrest/ Christel Films/ NEF Diffusion).

O diretor John Boorman foi um dos produtores desse filme dirigido por Arnaud Sélignac, com Jason Connery, Harvey Keitel e Mathilda May. Também é conhecido pelos títulos Dream One e Muito Além dos Sonhos.
O título original já indica que é baseado nos quadrinhos de Little Nemo, de Winsor McCay (de 1905), mas ficou muito distante da qualidade excepcional das HQ. Aqui, o garoto Nemo, de sete anos (Seth Kibel), imagina estar numa terra fantástica – supostamente, a partir de seus sonhos –, e viaja num submarino em busca da princesa Alice (Mathilda May, a alienígena peladona de Força Sinistra), e tentando encontrar uma forma de sair daquele mundo. Jason Connery, filho de Sean Connery, interpreta Nemo mais velho.

 

 

A CELA (The Cell, 2000)

(New Line Cinema).

O filme marcou a estreia na direção de Tarsem Singh, até então mais conhecido por dirigir vídeos musicais de R.E.M. Jennifer Lopez interpreta uma psicóloga infantil contratada para fazer parte de um projeto científico que permite penetrar na mente de pacientes em coma e tentar ajudá-los a voltar à vida normal. Ao entrar na mente dos pacientes, ela vive literalmente no mundo dos sonhos e pesadelos construídos pela mente das pessoas. E as coisas só se complicam quando ele precisa entrar no mundo de um assassino em série que se encontra em coma, para tentar descobrir a localização de sua última vítima, que supostamente ainda se encontra viva.
O filme não teve uma recepção muito calorosa da crítica, mas certamente tem seus momentos interessantes, com bons cenários para ilustrar os ambientes mentais.
Tarsem Singh ainda dirigiu o fraco Imortais (Immortals, 2011), o horrendo Espelho, Espelho Meu (Mirror Mirror, 2012), o mais ou menos Sem Retorno (Self/less, 2015) e os 10 episódios da série Emerald City (2017).

 

MIRROR DREAMS (2002)/ MIRROR WAKES (2003)
Catherine Webb.
A autora completou seu primeiro livro, exatamente esse Mirror Dreams, quando tinha 14 anos. Ela também é conhecida pelos pseudônimos Kate Griffin e Claire North, nome com o qual publicou o excelente As Primeiras Quinze Vidas de Harry August.
Os livros não foram publicados por aqui, mas no site da autora o universo das histórias é explicado dizendo que cada sonho e cada pesadelo que tivemos ou que ainda teremos existe em algum lugar, nos Reinos do Vazio (Kingdoms of the Void). As regras dizem que deve existir equilíbrio, mas os Lords of Nightkeep não ligam muito para as regras, e sim para conquista, medo e escuridão eterna para todos.
Basicamente, existem dois “universos-espelho”; em um deles, a magia prevalece; no outro, a tecnologia. E as pessoas podem atravessar de um universo a outro, fisicamente, por meio dos sonhos, mais ou menos como Randolph Carter fazia em suas andanças.