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UM MUNDO DE DISTOPIAS E UTOPIAS

FILMES/VE UTOPIAS E DISTOPIAS

autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data17/12/2018
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Selecionamos a seguir mais obras do cinema, televisão e literatura na linha das distopias e utopias.


SOMBRAS SOBRE A TERRA (Shadow on the Land, 1968)
Direção de Richard C. Sarafian.
Filme feito para a TV, com história criada por Sidney Sheldon, escritor best-seller e autor de inúmeras séries de televisão, como Jeannie é um Gênio (1965-1970). Foi baseado no livro Não Vai Acontecer Aqui (It Can’t Happen Here, 1935. Alfaguara), de Sinclair Lewis. Sarafian também tem vários trabalhos na televisão e ficou bem conhecido pelo sensacional cult Corrida Contra o Destino (Vanishing Point, 1971). A história se passa num futuro indeterminado, com os Estados Unidos dominados por um governo fascista, enquanto se forma um movimento de resistência e de retorno à democracia. O elenco inclui Gene Hackman, Jackie Cooper e Carol Lynley. Também ficou conhecido pelo título United States: It Can’t Happen Here.


VIOLÊNCIA NAS RUAS (Wild in the Streets, 1968)
Direção de Barry Shear.

Christopher Jones em Violência nas Ruas (American International Pictures).

Em um futuro indeterminado, 50% da população dos EUA tem menos de 25 anos e a idade mínima para votar passa a ser de 14 anos. Isso leva à eleição de um famoso cantor pop (Christopher Jones), que resolve mandar todas as pessoas com mais de 30 anos para asilos, onde eles recebem doses maciças de LSD. A história, com roteiro de Robert Thom, tem um toque de comédia e crítica, e o filme tem no elenco Shelley Winters, Richard Pryor, Hal Holbrook, Millie Perkins e Diane Varsi.
O crítico Phil Hardy disse que “Ainda que o filme se apoie fortemente nos sonhos de uma sociedade alternativa da primeira geração de hippies da América (representado pelo famoso slogan da época, ‘não confie em ninguém com mais de 30 anos’), em um nível mais profundo o filme é outro estudo satírico da família americana”. Segundo Hardy, a ambição política de Jones é simplesmente uma tentativa de voltar a sua mãe dominadora (Winters). Ao final, com Jones como um satisfeito homem de família, as crianças de 10 anos começam a elaborar sua própria revolução.


É PROIBIDO PROCRIAR (ZPG – Zero Population Growth, 1972)
Direção de Michael Campus.

Oliver Reed e Geraldine Chaplin em É Proibido Procriar (Sagittarius Productions Inc.).

Produção conjunta dos EUA e Dinamarca, com Oliver Reed e Geraldine Chaplin nos papéis principais. A história se passa no século 21, superpovoado e superpoluído. O mundo é governado por um poder central que determina que ninguém poderá ter filhos pelos próximos 30 anos. Para amenizar a situação dos casais, o governo providencia bonecas falantes. Reed e Chaplin formam o casal que decide ir contra as ordens do governo e ter um filho.
O roteiro é de Max Ehrlich e de Frank De Felitta, mais conhecido por seus livros A Entidade (The Entity, 1978) e As Duas Vidas de Audrey Rose (Audrey Rose, 1975). Max Ehrlich chegou a escrever episódios para as séries Tales of Tomorrow (1951-1953) Jornada nas Estrelas (Star Trek, em 1967) e Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea, em 1965), entre muitas participações na TV. Os efeitos especiais ficaram a cargo do inglês Derek Meddings, conhecido por suas participações nas séries com marionetes como Fireball XL5 (1962-1963), Thunderbirds (1965-1966) e Stingray (1964-1965), assim como o responsável pelos efeitos no seriado UFO (1970-1973); também trabalhou em inúmeros filmes, entre eles Com 007 Viva e Deixe Morrer (Live na Let Die, 1973) e A Terra Que o Tempo Esqueceu (Land That Time Forgot, 1974). No Btasil, o filme também foi lançado com o título ZPG – A Humanidade em Perigo (Alvorada Vídeo).


EU TE AMO, EU TE MATO (Ich Liebe Dich Ich Toete Dich, 1971)
Direção de Uwe Brandner.
A história é situada num futuro em que os habitantes de uma pequena vila alemã são mantidos em estado letárgico, um felicidade forçada por meio da ingestão de pílulas e de jogos. Uma vez por ano, os governantes privilegiados chegam à vizinhança, onde existe uma área destinada à caça.
Segundo Phil Hardy, o filme foi uma tentativa do diretor Brandner de subverter uma linha de filmes muito famosa na Alemanha, o Heimatfilme, que pode ser traduzido como “filmes da terra natal”, geralmente situados em áreas rurais, apresentando a vida nesses locais como a base dos valores germânicos. Segundo Hardy, os cineastas que tentaram ir contra esse gênero fizeram obras geralmente paranoicas, mostrando os habitantes das vilas como pessoas insignificantes e malévolas.
 


LOGAN’S RUN (1967)
William F. Nolan e George Clayton Johnson.

(Capa: Marcer Mayer/ The Dial Press).

A história de Nolan e Johnson apresenta um mundo futuro em que os governantes decidem que, para manter o equilíbrio populacional e de recursos naturais, as pessoas são mortas ao completarem 21 anos, por meio de um gás que provoca a sensação de prazer. Para que ninguém burle a lei, as pessoas têm um cristal implantado em suas mãos direitas, e ele muda de cor de acordo com a idade: vermelho de 0 a 6 anos; azul dos 7 aos 13; vermelho dos 14 aos 20; e pisca em vermelho e preto quando chega ao “Último Dia”; e preto aos 21. Os que tentam escapar à morte são chamados “runners”, os corredores, ou fugitivos, perseguidos pelos Sandmen, que têm uma arma capaz de incendiar as terminações nervosas dos fugitivos, infligindo dor imensa.
Logan 3 é um Sandman que, ao longo da maior parte da história, é apresentado como um anti-herói, mas que passa a ter simpatia por aqueles que persegue e muda sua posição. Ele também fica sabendo que a sociedade está prestes a ter imensos problemas devido a um colapso com o computador central que controla tudo. Logan acaba fugindo da sociedade em companhia de Jessica, e fica sabendo que o Santuário, que abriga os fugitivos, é uma antiga colônia terrestre em Marte.
John Clute e Peter Nicholls (The Science Fiction Encyclopedia) disseram que o livro é expressivo, uma série de episódios curtos, rebuscados e quase sem relação uns com os outros, mas consideravelmente menos moralizantes e simplistas do que o filme.

                                              O Carrossel, do filme Fuga no Século 23 (Metro-Goldwyn-Mayer).

O filme baseado no livro acabou se tornando mais conhecido. Fuga no Século 23 (Logan’s Run, 1976) foi dirigido por Michael Anderson e com Michael York no papel de Logan e Jenny Agutter no papel de Jessica. O elenco ainda traz Peter Ustinov, Farrah Fawcett-Majors e Richard Jordan. No filme, a idade limite é 30 anos, e a forma pela qual as pessoas morrem é diferente: elas participam de um evento chamado Carrossel, com um público assistindo em uma espécie de arena, no centro do qual elas flutuam até serem vaporizadas.
A produção recebeu críticas variadas, alguns gostando, outros detestando, mas teve bom resultado nas bilheterias. Recebeu o prêmio da Academia pelos efeitos especiais – ainda que eles também tenham recebido sua dose de críticas duras – e ainda foi indicado pelo trabalho de direção de arte.

Jenny Agutter e Michael York enfrentando o mundo exterior.

O crítico Phil Hardy disse que o filme tem mais a ver com a decoração do que com qualquer outra coisa, e que se trata de um conto narrado de forma animada sobre jovens rebeldes em uma concepção Disneylândia do futuro. John Brosnan e Peter Nicholls (também em The Science Fiction Encyclopedia) disseram que, em comparação com o romance, o filme é lento, omitindo muitos dos toques originais do livro; para eles, Michael Anderson não é o estilista audacioso que uma história como essa exige. Eles foram mais longe em sua análise, entendendo que o filme sintetiza as muitas falhas que parecem ser inerentes ao cinema de FC, o que pode ser resumido como irracionalidade e uma carência de pensamento científico, “(...) talvez resultando de um cinismo de Hollywood que vê a FC basicamente como um gênero para crianças não críticas, o que por sua vez sugere uma falta de familiaridade com a ficção científica escrita fora do âmbito dos comics”.

Donald Moffat, Heather Menzies-Urich e Gregory Harrison, no seriado da TV (Goff-Roberts-Steiner Productions/ MGM Television).

Michael Weldon também pegou pesado nos comentários (em The Psychotronic Encyclopedia of Film), dizendo que esse é o filme que Michael York fez entre seus “outros” dois filmes terríveis (no caso Horizonte Perdido [Lost Horizon, 1973] e A Ilha do Dr. Moreau [The Island of Dr. Moreau, 1977]). Weldon diz que os trajes futuristas semelhantes a togas são horríveis, a sequência com Peter Ustinov vivendo nas ruínas de Washington, D.C., suscitaram gemidos da audiência, e o robô (interpretado por Roscoe Lee Brown) não teria sucesso num antigo seriado de TV. Além disso, a cidade do futuro apresentada é, na verdade, um shopping center em Dallas.
O filme ainda deu origem a um seriado de TV, Logan’s Run – Fuga nas Estrelas (Logan’s Run, 1977-1978), que teve algum sucesso de público, mas com a história bastante modificada.


A CAÇADA DO FUTURO (Turkey Shoot, 1982)
Direção de Brian Trenchard-Smith.

Olivia Hussey (FGH/ Filmco Limited/ Hemdale).
 

Produção australiana com Steve Railsback, Olivia Hussey e Michael Craig, também conhecida pelo título Escape 2000, e lançado em vídeo no Brasil (Herbert Richers). Apresenta uma sociedade distópica futura, um governo totalitário em que as pessoas têm suas vidas planejadas cuidadosamente e com a individualidade sendo desencorajada. Os que se rebelam ou não se adaptam a essa realidade são mandados para campos de prisioneiros para reeducação e alteração de seus comportamentos. A história segue os problemas enfrentados por prisioneiros de um dos campos, onde sofrem com o tratamento brutal e sádico dos guardas. Uma das formas preferidas de tortura é selecionar alguns prisioneiros, soltá-los em uma mata próxima ao campo e caçá-los, por esporte.
O filme foi bastante atacado pela violência, com críticos como Phil Hardy entendendo que o futuro distópico é apenas uma desculpa para apresentação gráfica de violência.
Uma versão ainda pior, também australiana, foi produzida em 2014, Turkey Shoot (também com o título Elimination Game). No novo filme, um comandante das forças especiais é condenado por crimes de guerra na África tem sua pena de morte adiada para participar do reality show Turkey Shoot, no qual tem de enfrentar vários assassinos profissionais.


A LONGA MARCHA (The Long Walk, 1979)
O SOBREVIVENTE (The Running Man, 1982)

Stephen King.
Os dois contos de Stephen King foram publicados em seu Os Livros de Bachman (The Bachman Books, 1985), que reúne quatro histórias escritas com o pseudônimo Richard Bachman. King disse que a origem de A Longa Marcha recua a 1966-1967, quando ainda estudava na universidade.
A história situa-se num futuro sombrio, nos EUA dominados por um governo tirânico, em que todos os anos alguns jovens devem percorrer a pé milhares de quilômetros de estrada, sempre obedecendo a regras extremamente rígidas. Eles são seguidos por soldados que têm como função eliminar qualquer um que pare no caminho – seja lá qual for o motivo – ou que infrinjam as regras de alguma forma.
A narrativa é tensa e bem elaborada, mostrando o relacionamento entre os competidores ao longo do caminho, suas recordações e desejos, e criando uma imagem da sociedade em que vivem. King tenta traçar um paralelo entre o conceito tipicamente americano do “que vença o melhor”, a batalha pelo sucesso numa sociedade extremamente competitiva, e a forma como o público realmente vê esse tipo de atitude, uma vez que a maratona é também uma verdadeira festa para o público, que não se importa em assistir aos competidores sendo friamente assassinados ao não cumprirem suas funções. A Longa Marcha é uma espécie de A Noite dos Desesperados on the road, não tão bem desenvolvido ou tão inspirado quanto a obra de Horace McCoy (They Shoot Horses, Don’t They?, 1935), mas mostrando bastante nitidamente uma preocupação em relatar a competitividade exacerbada e o consumismo da sociedade norte-americana, que ainda surgiria em livros como Os Estranhos ou A Dança da Morte.
Já aconteceram algumas tentativas de adaptar a história para o cinema e, atualmente, tudo indica que finalmente será produzido.
O Sobrevivente apresenta outra sociedade norte-americana distópica, no ano 2025. No melhor estilo do gênero, SK imaginou uma sociedade radicalmente dividida entre ricos e pobres, apresentando cidades superpovoadas, com os bairros pobres imundos, repletos de doenças, fome, desemprego e violência. Os marginalizados da sociedade não têm qualquer possibilidade de modificar sua situação, a não ser participando de jogos transmitidos pela Free-Vee, e que se constituem na maior diversão do país, assistidos por milhões de pessoas.
O personagem Richards, tentando conseguir dinheiro para o tratamento de sua filhinha, candidata-se aos jogos e é aprovado para participar de O Sobrevivente, o jogo mais popular e também o mais violento. Sua função é fugir pelo país, perseguido pela polícia e por caçadores especializados, ganhando 100 novos dólares a cada hora em que continuar vivo. Ele tem o direito de matar quem o persegue, assim como os cidadãos comuns que ganham dinheiro para denunciá-lo.
Em sua fuga pelo país, as mazelas da sociedade vão sendo mostradas, e Richards consegue sobreviver e ir mais longe do que qualquer concorrente anteriormente, até que decide impor um final completamente inesperado ao jogo.

Arnold Schwarzenegger, na adaptação para o cinema (Braveworld Productions/ HBO/ Keith Barish Productions/ TAFT Entertainment Pictures).

A adaptação para o cinema, O Sobrevivente (The Running Man, 1987), teve direção de Paul Michael Glaser, com Arnold Schwarzenegger no papel principal, mas a versão é muito inferior à história original, modificando o enredo para pior, criando uma ambientação falsa e inserindo o famoso “final feliz” de Hollywood, que não existe na história de SK. Funciona mais como um veículo para Schwarzenegger, que já vinha dos sucessos de O Exterminador do Futuro e O Predador.


QUARENTENA (Quarantine, 1989)
Direção de Charles Wilkinson.

(Apple Pie Pictures/ Astral Films).

Produção canadense com história num futuro próximo, apresentando a sociedade enfrentando uma doença violenta. O estado tem características policiais e fascistas, de modo que coloca os infectados em quarentena, mas aproveita a situação como uma forma de isolar os seus inimigos e manter a estrutura de poder absoluto. O local da quarentena é mais parecido com um campo de concentração e, ali, se desenvolve uma espécie de governo paralelo violento, contra o qual algumas pessoas lutam.
O filme foi rodado com uma fotografia escura, supostamente opressiva, mas que não funciona muito bem; além disso, os diálogos são pretensiosos, além de trabalhar com uma ideia já bastante comum na FC na época. No Brasil, foi lançado em vídeo (Globo Vídeo).


MEGAVILLE (Megaville, 1990)
Direção de Peter Lehner.

(Ventura Film).

Produção fraquinha que apresenta as cidades de Hemisphere, um estado fascista no qual todas as formas de diversão foram suprimidas, e Megaville, repleta de corrupção, mas onde a diversão e todos os tipos de mídias são permitidas. Billy Zane interpreta um policial de Hemisphere envolvido em experiências de controle mental, enviado a Hemisphere atrás de um assassino. No Brasil, lançado em vídeo (Carat H.V.).


UMA DÍVIDA PESSOAL (The Price of Life, 1987)
Direção de Stephen Tolkin.
Curta-metragem apresentado no Brasil no canal TNT. É da mesma produtora do curta-metragem Meio-Dia e Um, e igualmente intrigante, superior a muitos filmes de FC do período, com uma ambientação excelente, sem utilização de quaisquer efeitos especiais e sem muitas explicações quanto ao que está ocorrendo no mundo.
A época é um futuro em que as crianças, assim que nascem, são submetidas a uma espécie de cerimônia na qual são marcadas para o resto da vida. Tudo nesse mundo gira em torno do tempo de vida de cada pessoa. Não existe dinheiro, mas horas, dias, meses e anos de vida, que são trocados por tudo, desde lazer até comida. Dominando a situação existe um grupo de “anciões”, nem sempre com a aparência de velhos, mas com vidas muito prolongadas. Um jovem com incrível capacidade para os negócios tenta obter dos anciões alguns anos de vida para sua mãe, que tem uma dívida de 300 anos a saldar. Vai visitá-los em seu local paradisíaco e é convencido a permanecer lá.
Um clima de desespero constante, pois se a pessoa perder vidas e seu tempo acabar, ela simplesmente morre, repentinamente. O ambiente se torna ainda mais pesado pela absoluta inexistência de qualquer tipo de rebelião contra a situação, com todos conformados como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Muito bom.

O PREÇO DO AMANHÃ (In Time, 2011)
Direção de Andrew Nicol.

Desesperados tentam obter mais alguns dias de vida (Regency Enterprises/ New Regency/ Strike Entertainment).

Ainda que não tenha sido dado qualquer crédito, a história do filme é muito parecida com a do curta-metragem comentado acima. É uma produção milionária com Justin Timberlake e Amanda Seyfried, com boa resposta nas bilheterias. Na distopia apresentada, no futuro as pessoas são geneticamente alteradas para pararem de envelhecer aos 25 anos, quando começa a funcionar um relógio instalado em baixo da pele do braço. Quando a contagem chegar a zero, a pessoa morre. A partir daí se estabelece um “mercado de tempo”, com as pessoas podendo comprar mais tempo de vida, ou roubar, como é o que acaba acontecendo com o personagem de Timberlake, unindo-se a Seyfried, que interpreta a filha de um milionário que tem um “banco de horas”.
O filme é interessante, apresentando uma sociedade controlada pelos poderosos, que conseguem o tempo de vida que desejam, enquanto o restante da população sequer consegue entrar em determinadas regiões da cidade. Ainda assim, é inferior ao curta-metragem.

(Capa: John Pederson, Jr.)

Os produtores ainda se envolveram em uma ação movida pelo escritor Harlan Ellison, que entendia que a ideia tinha sido baseada em seu conto “Repent, Harlequin!” Said the Ticktockman (1965), ação posteriormente retirada por Ellison.

                                                                                                        (Capa: Jack Gaughan/ Pyramid Books).

O conto de Harlan Ellison foi publicado originalmente na revista Galaxy, em 1965; depois, saiu na coletânea de contos do autor, Paingod and Other Delusions (1965). O conto venceu o Prêmio Nebula e o Prêmio Hugo de 1966, dois dos mais importantes do gênero.
A história de Ellison também apresenta um futuro distópico no qual o tempo é controlado de maneira rígida, a ponto de que chegar atrasado a um compromisso é considerado um crime, cuja pena é retirar um tempo de vida da pessoa. O responsável pelas ações, que podem resultar no término do tempo de vida de uma pessoa, é conhecido como Master Timekeeper (algo que poderia ser traduzido livremente como um mestre cronometrista), ou o Ticktockman do título; ele utiliza um aparelho que para o coração da pessoa quando seu tempo termina.
Quem se opõe a esse estado de coisas na sociedade é Everet C. Marm, um anarquista conhecido como Harlequin, que elabora formas para fazer as pessoas perderem tempo ou distraí-las de suas funções. Eventualmente, o Harlequin é capturado e enviado para um lugar chamado Coventry, onde passa por uma lavagem cerebral para fazer com que ele se adapte à ordem estabelecida.


AMANHECER SEM FUTURO (Daybreak, 1993)
Direção de Stephen Tolkin.
Produção para a televisão, da HBO, com o mesmo diretor do curta-metragem Uma Dívida Pessoal, comentado acima. O roteiro do próprio Tolkin foi baseado na peça Beirut, de Alan Bowne, e o elenco tem Cuba Gooding Jr., Moira Kelly e Omar Epps. Apresenta um mundo futuro – ainda que nem tanto, já que a data é de 2005 – em que uma epidemia atinge todo o planeta e, mais especificamente, Nova York. Um governo ditatorial, fascista e violento que lembra os nazistas, coloca todos em quarentena em “campos especiais”. Eles prometem ajudar os doentes, mas na verdade está tratando de se livrar deles. Um grupo tenta deter a situação e salvar as pessoas contaminadas.
O filme é apenas regular, bem inferior ao trabalho anterior de Tolkin.
 


MEMORY RUN (Memory Run, 1995)
Direção de Allan A. Goldstein.
No Brasil, também apresentado com o título O Segredo da Imortalidade, e lançado em vídeo (Canyon). O filme foi parcialmente baseado no livro Season of the Witch (1968), de Jean Marie Stine, na época com o nome Hank Stine. O livro teve recepção bem melhor do que o filme e traz a história de um homem que é biologicamente transformado em uma mulher como punição por seu crime de estupro e assassinato.
O filme é capenga e apresenta os EUA do futuro governados de forma ditatorial pela Life Corporation, enquanto grupos rebeldes tentam combater a empresa e grupos independentes ganham dinheiro vendendo armas e tecnologia para os rebeldes. Um desses independentes é preso e submetido a uma experiência inédita e, quando acorda, está no corpo da mulher que era sua namorada. Ela percebe que a elite governante está querendo se perpetuar por meio de cirurgias semelhantes. Ela ainda tenta retornar para seu corpo original, mas ele já foi ocupado por um dos chefões.
A ideia é interessante e chega a funcionar razoavelmente depois que o sujeito decide viver como mulher e se acostuma com isso, o que também acontece na história original.


O JUIZ (Judge Dredd, 1995)
Direção de Danny Cannon.

(Hollywood Pictures/ Cinergi Pictures Entertainment/ Edward R. Pressman Productions).

Filme fraquinho com ação situada no mundo distópico do futuro distante, em particular na cidade Mega City One, que se estende da Inglaterra ao Canadá. O combate ao crime é realizado por “juízes”, que assumem a função de polícia, juiz, jurado e executor. Um dos mais conhecidos é exatamente o juiz Dredd, interpretado por Sylvester Stallone. A produção estimada foi de 70 milhões de dólares, certamente a maior parte em efeitos visuais, mas o resultado final é decepcionante.
O filme foi baseado nas histórias em quadrinhos criadas por John Wagner e Carlos Ezquerra, em 1977, e uma nova adaptação foi produzida em 2012, Dredd: O Juiz do Apocalipse (Dredd), com direção de Pete Travis, e com Karl Urban no papel do juiz Dredd. Além de ter sido realizada com bem menos dinheiro, a nova versão recebeu críticas bem melhores. (ver mais no especial Mil Cidades, na matéria Cidades Dominadas).

 

CÓDIGO 46 (Code 46, 2003)
Direção de Michael Winterbottom.

Tim Robbins e Samantha Morton (BBC/ Kailash Picture Company/ Revolution Films).

História situada em um futuro próximo, com o mundo dividido entre os que vivem nas cidades e os que vivem fora delas, geralmente as classes mais pobres. O acesso às cidades é controlado rigidamente, exigindo a apresentação de passes que são emitidos pela Esfinge, uma organização que praticamente controla a sociedade. Existem vários códigos que regulamentam a vida da sociedade, e o código 46 do título é uma proibição à reprodução geneticamente incestuosa, o que se tornou possível devido ao desenvolvimento de tecnologia avançadas como a clonagem.
Tim Robbins interpreta um investigador de fraudes enviado a Shangai para investigar um vazamento de passes. Lá, ele se apaixona por Maria (Samantha Morton), mesmo percebendo que ela é a culpada. A história é bem complexa e, por trás dos eventos há sempre a mão dos governantes decidindo o futuro das pessoas. Um bom filme.


AEON FLUX (Aeon Flux, 2005)
Direção de Karyn Kusama.

(Paramount Picture/ Lakeshore Entertainment/ Valhalla Motion Pictures/ MTV Films/ Colossal Pictures).

Filme baseado na animação criada por Peter Chung, em 1991, e apresentada pela MTV. Aqui, a história situa-se 400 anos após um vírus ter aniquilado grande parte da população do planeta. Uma classe privilegiada se mantém na cidade de Bregna, governada por uma assembleia de cientistas. Charlize Theron interpreta Aeon Flux, agente de uma organização rebelde que pretende modificar a situação da maioria da população, que vive sob a tirania dos governantes. Aeon descobre um segredo que pode mudar completamente o futuro do planeta. Um filme legalzinho, apesar da história manjada para quem acompanha FC.


V DE VINGANÇA (V for Vendetta, 1982)
Alan Moore, David Lloyd, Steve Whitaker, Siobhan Dodds
Vertigo/ Panini.
A criação de Alan Moore e David Lloyd permanece como uma das maiores das histórias em quadrinhos, com história situada numa Inglaterra futura distópica, dirigida por um governo fascista após o mundo ter sido praticamente destruído por uma guerra nuclear. Os supremacistas raciais criaram campos de concentração e eliminaram seus oponentes, mas são combatidos por V, um revolucionário que usa uma máscara de Guy Fawkes, figura histórica da Inglaterra que planejou um atentado terrorista em 1605, mas foi preso e enforcado.
Ele age para derrubar o governo planejando cuidadosamente suas ações, vingando-se daqueles que o prenderam no passado, encorajando ações anarquistas, ao mesmo tempo em que ensina uma protegida, Evey Hammond, a quem ele salva de ser estuprada e morta pela polícia secreta do Estado.
As atividades de V são investigadas pelo detetive Eric Finch, que trabalha para o Nariz, a força policial; outros departamentos são o Dedo e a Cabeça. Ele acaba percebendo que V está matando os responsáveis pelo campo no qual V foi mantido e submetido a experiências terríveis, mas também acha que algo muito maior do que apenas a vingança pode estar sendo planejado.

 

(Warner Bros./ Virtual Studios/ Silver Pictures/ DC Comics).

A história foi adaptada para o cinema em V de Vingança (V for Vendetta, 2005), com direção de James McTeigue. Hugo Weaving, o agente Smith de Matrix, interpretou V; Natalie Portman interpretou Evey; e Stephen Rea foi Finch. O filme foi bem recebido pelo público, mas nem tanto pela crítica, e pelo próprio Alan Moore. Na versão recente da The Encyclopedia of Science Fiction, Nick Lowe chamou o filme de “reconcebido sem habilidade, politicamente esterilizado e com atuações centrais notavelmente terríveis, essa infeliz adaptação foi o último prego no caixão do relacionamento de Alan Moore com Hollywood”. Segundo Lowe, o filme começou de forma bastante promissora, com um roteiro preliminar impressionantemente fiel ao original, em 1995, das irmãs Wachowski. Porém ao retomar o projeto mais tarde, após o seu sucesso com Matrix, as irmãs reconfiguraram a história e os personagens. “Alguma força do material original sobreviveu, apesar de tudo”, diz Lowe, “particularmente no punhado de sequências que, em linhas gerais, permaneceram fiéis ao original, e foi o filme mais do que os quadrinhos que tornou a máscara de Guy Fawkes um ícone de protestos anticapitalistas e por liberdade de informação”, lembrando a ironia de que o desenho da máscara agora pertence à Time Warner. Alan Moore detestou o filme a ponto de mandar retirar seu nome dos créditos.


OS FILHOS DOS HOMENS (The Children of Men, 1992)
P.D. James.
Publicações Europa-América (Portugal).
P.D. James (Phyllis Dorothy James), mais conhecida por seus livros de crimes e mistérios, publicou este que é seu único trabalho no campo da FC, ainda que a própria autora tenha se envolvido em alguma controvérsia ao insistir que a história não é FC, e também porque alguns críticos notaram que ela tem certa semelhança com Jornada da Esperança (Greybeard, 1964), de Brian W. Aldiss.
A história tem como pano de fundo a Grã-Bretanha do século 21 afetada por uma crise de infertilidade humana que despovoou a sociedade. O problema começou em 1995, chamado “o ano Ômega”, quando os nascimentos chegaram a zero e a humanidade começou a perceber que sua extinção estava próxima. Os últimos humanos a nascerem, chamados Ômegas, passaram a ter várias prerrogativas. O estado é governado de forma ditatorial por um tutor.

Clive Owen e Clare-Hope Ashitey (Universal Pictures/ Strike Entertainment/ Hit & Run Productions/ Toho-Towa).

O livro foi adaptado para o cinema em Filhos da Esperança (Children of Men, 2006), dirigido por Alfonso Cuarón, com Julianne Moore, Clive Owen e Michael Caine no elenco. Segundo Nick Lowe (em The Encyclopedia of Science Fiction), apesar de ter um orçamento modesto, o filme tornou-se bastante influente com sua visão da Londres do futuro tecnologicamente retrógrada. Na verdade, o orçamento não foi nada modesto: 76 milhões de dólares. Lowe considera que o roteiro do filme ficou distante do original, especialmente porque o diretor Cuarón herdou o projeto que vinha sendo desenvolvido por outros escritores e estava mais interessado na premissa do que no livro. Lowe ainda diz que, como seu amigo e às vezes colega Guillermo Del Toro, Cuarón carrega seu filme com imagens católicas.


IDIOCRACIA (Idiocracy, 2006)
Direção de Mike Judge.

(Twentieth Century Fox/ Ternion Pictures).

Comédia que teve pouca bilheteria, mas que recebeu algumas boas críticas. No elenco estão Luke Wilson, Maya Rudolph e Terry Crews. Duas pessoas (Wilson e Rudolph) são selecionadas para participarem de uma experiência de animação suspensa, mas o projeto é esquecido por 500 anos. Nesse período, ocorre uma situação inusitada: as pessoas mais inteligentes, por alguma razão, param de ter filhos, enquanto os menos inteligentes passam a se reproduzir em grande número, de forma que as gerações seguintes se tornam cada vez mais idiotas. Assim, cinco séculos depois, os dois esquecidos acordam de sua experiência e Wilson se vê como a pessoa mais inteligente do planeta.
O filme não é grande coisa, mas tem momentos bem engraçados e, até certo ponto, serve como uma crítica, ainda que amena, ao que alguns entendem que é uma tendência real no mundo atual. Várias críticas levantaram a questão de que o filme mostra o futuro, porém para falar sobre o presente.


QUANDO TE CONHECI (Equals, 2015)
Direção de Drake Doremus.

Kristen Stewart e Nicholas Hoult (Freedom Media/ Infinite Frameworks Studios/ Route One Entertainment/ Scott Free Productions).

A história se passa num futuro em que as emoções não mais existem e as pessoas têm suas vidas extremamente controladas, pacíficas, sem quaisquer contatos mais profundos, sem relacionamentos íntimos, sexuais ou não, com a reprodução sendo realizada de forma artificial. As coisas mudam quando uma doença começa a afetar parte da população, o que faz com seu estado reverta e passem a sentir emoções; os que são diagnosticados com a doença são presos.
Um dos que é afetado é Silas (Nicholas Hoult), e ele percebe que uma colega de trabalho, Nia (Kristen Stewart), também apresenta os mesmos sinais. A partir daí o filme se torna um romance morno entre as personagens, tentando evitar serem descobertos pelas autoridades. O ambiente antisséptico do mundo futuro já é algo comum e antigo nas produções do gênero, e imaginar a insípida Kristen Stewart como alguém capaz de representar emoções profundas, é demais.


THE THINNING (2016)
Direção de Michael J. Gallagher.

(Legendary Digital Media/ Kids At Play/ Cinemand).

Futuro em que o planeta está ameaçado pela superpopulação e pelas consequências do aquecimento global. As Nações Unidas declaram que as nações precisam encontrar maneiras de diminuir suas populações em cinco por cento a cada ano, e cada país encontra sua própria solução, que vão de limitar o nascimento a uma criança por família até matar a população com mais idade. Nos EUA é estabelecido um teste de aptidão no qual os que falham são executados. No entanto, dois jovens descobrem que os testes são manipulados.
O filme não teve grande recepção da crítica e público, mas ainda assim originou uma sequência, The Thinning: New World Order (2018), também dirigido por Gallagher.

 

 


3% (2016)
Criação de Pedro Aguilera.

(Boutique Filmes).

Seriado brasileiro produzido para a Netflix, a partir de um curta-metragem com o mesmo título, na verdade um piloto de série apresentado em 2011, e muito bem recebido pela crítica e pelo público; em 2019, entraria no ar a terceira temporada.
Estrelado por João Miguel e Bianca Comparato, a história imagina um mundo futuro com características apocalípticas, com o planeta arrasado por inúmeras crises. No Brasil, a maior parte da população mora em condições precárias com falta de alimentos, água e energia, no local conhecido como Continente. Outra parte da população vive em condições bem diferentes, e muito melhores, no local chamado Maralto. Os habitantes do Continente têm a possibilidade de passar a viver em Maralto após completarem 20 anos, mas para isso precisam ser aprovados em um processo de seleção rigoroso que testa as pessoas física e psicologicamente; mas apenas 3% dos candidatos podem conseguir essa passagem.


ELYSIUM (Elysium, 2013)
Direção de Neill Blomkamp.

A elite vivendo no espaço, em Elysium (TriStar Pictures/ Sony Pictures Entert.).

No ano 2154, a Terra está em situação terrível, com uma população empobrecida praticamente largada à sua própria sorte enquanto ume elite riquíssima habita Elysium, uma verdadeira cidade em órbita do planeta, que tem em Delacourt (Jodie Foster) a responsável pela segurança. Elysium tem acesso a inúmeros recursos, inclusive uma máquina praticamente miraculosa capaz de curar quaisquer doenças e evitar o processo de envelhecimento. Aos habitantes do planeta é negado o acesso às curas, o que inclui regeneração de partes do corpo.
Matt Damon interpreta Max, trabalhador pobre de uma Los Angeles totalmente arruinada, funcionário de uma empresa de armamentos e robôs que ajudam a elite de Elysium a controlar a situação no planeta e evitar que obtenham meios de se dirigir à cidade espacial. Ele sofre um acidente na fábrica, sendo exposto a radiação, de modo que tem poucos dias de vida; sua única chance é chegar a Elysium. É assim que entra em contato com Spider (Wagner Moura), que não apenas consegue para ele uma operação que lhe dá um exoesqueleto, aumentando sua força, mas arma um plano para que ele chegue a Elysium e insira uma nova programação no computador da cidade.

                                                                                              Wagner Moura e Matt Damon.

Max vai para lá em companhia de Frey (Alice Braga) e sua filha que também precisa de cuidados imediatos, e sua ação consegue modificar a programação dos robôs, que passam a considerar todos os habitantes do planeta como cidadãos e, assim, capazes de receber os cuidados médicos necessários.
O diretor Blomkamp vinha de um sucesso com Distrito 9 (District 9, 2009), realizado com um orçamento bem menor, e o filme foi bem nas bilheterias e razoavelmente bem recebido pela crítica, ainda que posteriormente o próprio Blomkamp tenha afirmado que não fez o filme que poderia ter feito. O crítico Gary Westfahl (em The Encyclopedia of Science Fiction) relata que o filme às vezes foi descrito como um “manifesto socialista”, o que é tremendamente exagerado. Para ele, o filme é mais bem descrito como sendo parte de uma longa tradição de histórias de advertência condenando um futuro imaginado de divisões sociais extremas. “Na perspectiva da FC”, ele ainda afirma, “o filme também pode ser visto como um comentário sobre os efeitos negativos das viagens espaciais, a medida que os residentes de Elysium tornaram-se tanto elitistas frios quanto fracotes mimados, dominados com surpreendente facilidade pelos vigorosos insurgentes da Terra”.


THE GUARDIANS (1970)
John Christopher.

(Capa: Trevor Stubley/ Hamish Hamilton).

Um livro para o publico “jovens adultos”, um dos vários de um dos autores mais conhecidos da FC. Aqui, a história se passa no ano 2052, com a Inglaterra sob um governo ditatorial e dividida em duas sociedades distintas: Conurbs, superpovoada: e County, com uma população bem menor e aristocrática. Um jovem experimenta a vida nos dois locais e descobre o que se esconde atrás dos panos.
Em 1986 foi produzida uma minissérie em seis episódios para a TV da Alemanha Ocidental, Os Guardiões (Die Wächter), com direção de Franz Peter Wirth. A série foi apresentada na TV do Brasil em 1990, mostrando o mundo 84 anos após o Grande Congresso que dividiu a sociedade. O tema já era bastante conhecido e tinha sido bastante explorado, mas a produção apresenta alguns momentos interessantes.


COLD LAZARUS (Cold Lazarus, 1996)
Direção de Renny Rye.

(BBC/ Channel 4 Television Corporation/ Whistling Gypsy Production).

Minissérie inglesa em quatro episódios, com Albert Finney, Ciarán Hinds e Frances de la Tour. Foi apresentado no Brasil no canal Bravo, e a impressão geral é que, apesar de ser uma história interessante, não precisaria de quatro capítulos (300 minutos) para ser contada.
Num futuro distante, aparentemente governado por corporações que possuem sua própria polícia, além de manterem contato próximo com o poder político, uma organização chamada RON – Realidade ou Nada – manifesta-se contra a forma pela qual a sociedade está organizada, em torno do consumismo e de formas virtuais de contato.
Em uma das grandes corporações um grupo de cientistas desenvolve um trabalho de recuperação das memórias de um corpo encontrado congelado, com mais de 400 anos de idade. Ligam sua cabeça a uma série de aparelhos, conseguindo obter imagens das memórias guardadas na mente, enquanto outra imensa corporação da área das comunicações, vendo as possibilidades de transmitir essas memórias em realidade virtual, tenta levar a equipe para seus laboratórios.
Os cientistas descobrem que o homem em questão teve uma experiência de projeção astral momentos antes de morrer, tendo retornado ao seu corpo apenas para despedir-se dos amigos em seu leito de morte. Assim, sua consciência foi mantida na mente, de modo que ele sabe o que está acontecendo. Enquanto suas memórias vão sendo apresentadas aos cientistas, ele começa a tomar consciência de que se encontra preso em sua mente. Um dos cientistas, pertencente ao RON, resolve libertá-lo de vez da prisão em que se encontra.


1990 (1977-1978)
Criação de Wilfred Greatorex.
Seriado inglês produzido pela BBC, mas arrasado pelo tempo, mostrando uma Inglaterra futura dominada pela burocracia e sob o controle do Departamento de Controle Público. Um grupo de privilegiados possuem cartões especiais que lhes dão acesso a regalias, enquanto muitas pessoas tentam fugir para os EUA.


HELIÓPOLIS (Heliopolis, 1949)
Ernst Jünger.
Editora Nova Fronteira.


EUMESWIL (Eumeswil)
Ernst Jünger.
Editora Guanabara.
Assim como em Heliopolis, a história é situada num future indeterminado, num mundo que sofreu com um apocalipse. A narração é feito pelo personagem Manuel Venator, historiador do ditador Condor, e descreve suas tentativas de subverter as leis impostas por Condor por meio de lições aprendidas em épocas anteriores. Ele consegue acessar os diferentes períodos do tempo por intermédio de uma máquina que vê tempos passados. John Clute disse que Venator passa a entender que o ser humano perfeito seria um anarquista, “um ser que obedece ao mundo externo, mas que internamente é tão autônomo quanto o próprio Jünger parecia ser ao longo de quase um século de atividade”. Sabe-se que o autor foi bastante influenciado pelo anarquista individualista Max Stirner.

 

 


MUNDOS FECHADOS (The World Inside, 1971)
Robert Silverberg.
(ver o especial Mil Cidades, na matéria Gente Saindo Pelo Ladrão)


334 (1972)
Thomas M. Disch.

Capa da primeira edição (Capa: Michael Hasted/ MacGibbon & Kee).

Segundo John Clute, esse é provavelmente o melhor livro de Thomas M. Disch, um autor considerado importante na FC, mas ainda assim praticamente desconhecido no Brasil. O livro é composto por seis histórias independentes, situadas na Nova York de um futuro próximo. Segundo Clute, “(...) as histórias, cujas ligações são tão sutis e elaboradas que é possível ler o livro como um romance, giram em torno do prédio de apartamentos cujo endereço (334 East 11th Street) é o título do livro e abrange um quadro social da vida urbana no final do século atual (século 20). A vida em Nova York tornou-se mais difícil, intensa e contraída do que é agora, e a atitude do governo com relação aos indivíduos não é diferente da atitude que os alienígenas de Thomas M. Disch geralmente têm com relação aos humanos; mas a essência do livro é que seus vários personagens conseguem continuar suas vidas, que suas aspirações, sucessos e fracassos nesse mundo urbano obscurecido estão dentro dos limites do que podemos esperar que se tornarão experiências normais”.
O que John Clute quis dizer ao falar sobre a atitude dos alienígenas em suas histórias, é que o crítico vê o trabalho do autor como algo distinto na FC dos EUA em geral – que, fundamentalmente, permaneceu otimista a respeito da relevância dos valores humanos. Disch mostra os alienígenas tratando os humanos com total indiferença e, em alguns casos, como no conhecido livro The Genocides (1965), como uma praga a ser eliminada; no livro Mankind Under the Leash (1966), os alienígenas transformam a humanidade em animais de estimação, por motivos estéticos.


AVANTE, CRETINOS, AVANTE! (The Marching Morons, 1951)
Cyril M. Kornbluth.

(Capa: John Bunch).

Conto de Kornbluth publicado em português no livro Para Além do Futuro. Originalmente publicado na revista Galaxy Science Fiction. A história situa-se centenas de anos no futuro, época na qual acorda o personagem John Barlow, que estava em animação suspensa. Ele encontra uma sociedade dividida entre alguns poucos milhões de pessoas com educação e inteligência, e bilhões de pessoas cujo QI médio é de 45; a explicação é que a situação foi formada por uma combinação de situações, com as pessoas inteligentes deixando de terem filhos e as menos inteligentes tendo muitos filhos, e mais o fato de que o desenvolvimento de máquinas mais sofisticadas tornou menos importante para a vida das pessoas serem inteligentes.
John Barlow tenta se aproveitar da situação imaginando uma solução para o problema e vendendo sua ideia para a elite que governa o planeta, o que inclui a utilização de táticas nazistas, fazendo as pessoas acreditarem que poderão viajar para Vênus e ter uma vida maravilhosa no novo planeta, quando na verdade elas serão simplesmente exterminadas. Seu plano funciona até certo ponto, quando membros da elite resolvem que ele também deverá ser eliminado da mesma forma.
A ideia de um mundo composto por pessoas idiotas foi utilizada no filme Idiocracia (2006), comentado anteriormente.
 


OS OLHOS DE HEISENBERG (The Eyes of Heisenberg, 1966)
Frank Herbert.
Argonauta (Portugal).

(Capa: Gray Morrow).

Publicado originalmente em duas partes na revista Galaxy Science Fiction como Heisenberg’s Eyes.
As castas apresentadas nessa sociedade do futuro têm diferenciações mais sutis e tecnicamente mais elaboradas do que as de Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo, alterações realizadas por meio de “cortes” na estrutura do DNA, que irá se transformar no embrião, e no “filho”, desenvolvido em laboratório, que apenas alguns casais têm permissão para terem.

                                                          (Capa: Paul Alexander/ Berkley Medallion).

O Povo é dirigido pelos Optimanos, seres que tiveram cortes específicos que os tornaram praticamente imortais e, pelo menos teoricamente, mentalmente superiores aos demais membros do Povo. Evidentemente, existe um movimento de Resistência a esse estado de coisas, e uma resistência dos Pais está envolvida, assim como os ciborgues, humanos com componentes computadorizados em suas mentes e corpos e aparência um pouco distante da humana, assim como praticamente desprovidos de sentimentos. A organização de resistência pretende impedir o corte optimano, e sabe-se que os ciborgues e os optimanos já estiveram em guerra, há muito tempo, e continuam se odiando. Alguns humanos pertencentes à Resistência pensam que o ideal é livrar-se dos dois, para não ter de aturar o governo de força que uns e outros exercem.
Os Optimanos, alguns com mais de 40 mil anos de vida, esquecem-se da violência e não pronunciam a palavra “morte”, mas trata-se simplesmente de um posicionamento cínico, uma vez que os crimes e a violência são executados por aqueles que os servem e que foram especialmente “construídos” para isso. O que eles pretendem é manterem-se imutáveis durante os séculos. A “vida eterna” dos Optimanos implica em um controle total do ambiente, inclusive pessoas, de modo a não permitir a intromissão da Natureza. Qualquer alteração no ritmo programado é um ataque direto a eles. Quando a Resistência intensifica suas ações, eles despejam gás venenoso pelas saídas de ar da cidade, matando o Povo e planejando um repovoamento com características escolhidas por eles.


HARRISON BERGERON (Harrison Bergeron, 1961)
BEM-VINDO À CASA DOS MACACOS (Welcome to the Monkey House, 1968)

Kurt Vonnegut Jr.

(Capa: Chesley Bonestell).

Dois contos publicados em português no livro O Mundo Louco ou Bem-Vindo à Casa dos Macacos. Harrison Bergeron foi publicado originalmente em The Magazine of Fantasy and Science Fiction. Bem-Vindo à Casa dos Macacos foi publicado originalmente na revista Playboy.
A história de Harrison Bergeron se passa no ano 2081, quando todas as pessoas tornaram-se iguais, não apenas perante a lei, mas em todos os sentidos. Uma emenda à Constituição dos EUA proibiu as pessoas de serem melhores umas que as outras, de modo que as pessoas que possuíssem uma inteligência acima do normal precisavam utilizar um aparelho conectado ao ouvido, com seus pensamentos criativos sendo interrompidos de tempos em tempos por sons altíssimos, que variavam de cada vez; as pessoas muito bonitas usavam máscaras horrendas; os mais fortes usavam pesos de chumbo distribuídos pelo corpo. Enfim, ninguém podia ser melhor do que ninguém.
O Harrison do título é um jovem de 14 anos, bonito, atlético e inteligente, que é levado pelo governo por não utilizar os aparelhos limitadores. Ele foge, invade um estúdio de televisão e autoproclama-se imperador, antes de ser morto a tiros pela responsável pelo setor de “impedimentos”. E tudo isso sem que os pais de Harrison, vendo televisão, consigam perceber o que aconteceu.
Um conto maravilhoso, com o humor negro e sarcástico do autor em plena forma, e uma crítica ácida, feroz, à forma como a sociedade se comporta, e até mesmo apresentando uma antecipação ao furor do “politicamente correto” que arrasa algumas sociedades atuais.

                                                                                                                       Sean Astin em Harrison Bergeron (Atlantis Films/ Cypress Films).

Em 1972, a produção para TV da PBS, Between Time and Timbuktu, baseou sua história em vários contos de Kurt Vonnegut Jr., inclusive Harrison Bergeron.
Uma adaptação para a televisão foi produzida pelo canal Showtime em 1995, Harrison Bergeron, com direção de Bruce Pittman, e com Sean Astin (o Samwise Gamgee de O Senhor dos Anéis) no papel central.
Em 2006, o curta-metragem Harrison Bergeron foi dirigido por Patrick Horne, com Richard Kindle como Harrison.
Em 2009, outro curta-metragem, 2081, adaptou o conto, com direção de Chander Tuttle e Armie Hammer no papel central.
Até onde pude verificar, nenhuma das obras foi apresentada no Brasil, e todas foram muito bem recebidas pela crítica.

Bem-Vindo à Casa dos Macacos é outra história situada num EUA totalmente transformado, num mundo em que a superpopulação levou à criação de leis para impedir o crescimento populacional. Foram inventados os Salões de Suicídio Ético, nos quais as pessoas eram animadas a entrar para suicidar-se. As pessoas também se tornaram insensíveis ao sexo graças a uma pílula que tornava seus órgãos sexuais inoperantes. Na verdade, as pessoas perdem completamente qualquer atração pelas relações sexuais. Também tomam remédios, duas vezes por ano, que os mantêm sempre com 22 anos. Nesse ambiente surge Billy, O Poeta, que se coloca contra essa sociedade e passa a atacar e violentar as recepcionistas dos Salões de Suicídio Ético. A polícia está atrás dele, desesperadamente, mas não consegue obter qualquer descrição fiel, uma vez que as mulheres atacadas não conseguem defini-lo. Uma das jovens de um Salão de Suicídio é raptada por ele, que a leva para um local onde existem muitos outros homens e mulheres, e ela fica sabendo que as demais mulheres também foram atacadas. Esperam que o efeito das pílulas passe, para torná-las sensíveis ao ato sexual, antes de desvirginá-las. E assim, o grupo cresce cada vez mais. Mais um feroz ataque de KV à falsa moral da sociedade.
 


AS TORRES DE VIGIA (The Watch Towers, 1963)
J.G. Ballard.
Conto do livro Passaporte Para o Eterno.
(ver o especial Mil Cidades, na matéria Cidades Dominadas)



A SÉTIMA VÍTIMA (Seventh Victim, 1953)
Robert Sheckley.

(Capa: Alex Schomburg).

Conto publicado originalmente na revista Galaxy Science Fiction, e também no livro Inalterado Por Mãos Humanas. Em uma sociedade do futuro, para evitar as guerras os homens criam o Escritório de Catarse Emocional, que promove caçadas para que as pessoas aliviem a tensão emocional, a tendência que a raça humana tem à combatividade. Dessa forma, as pessoas inscritas recebem o nome da vítima a quem devem eliminar. Após cada morte, elas devem servir de vítimas, podendo matar seus caçadores, se forem mais espertas.

Ursula Andress (Compagnia Cinematografica Champion/ Les Films Concordia).

Nesse cenário, um homem recebe como vítima uma mulher e, ao tentar matá-la, percebe que ela não age como as demais vítimas, expondo-se publicamente. Ele não consegue atirar nela e resolve conversar e conhecê-la; as vítimas não sabem o nome dos caçadores, e ela lhe diz que está sendo caçada, mas que está arrependida de ter se inscrito no programa de caçadas. Eles jantam, vão passear e, finalmente, ele declara que é o seu caçador, mas que ela não precisa se preocupar porque ele resolveu não matá-la, porque está apaixonado. Ela então diz que não o ama, e o mata.
O conto foi transformado em filme, em 1965, como A Décima Vítima (La Decima Vitima, 1965), com história um tanto modificada e muito inferior. A produção italiana foi dirigida por Elio Petri, com Marcello Mastroianni e Ursula Andress nos papéis centrais. O filme termina como uma comédia, quase um pastelão, o que prejudica e distorce bastante a história.


A NEBULOSA DE ANDRÔMEDA (Tumannost Andromedy, 1958)
Ivan Efremov.
Em The Encyclopedia of Science Fiction, Brian Stableford e Vladimir Gakov ressaltam a importância desse primeiro livro de Efremov para a FC soviética e da Europa Oriental, uma utopia que apresenta um panorama em larga escala do futuro distante, um mundo que foi tornado confortável devido ao controle climático. Ainda que grande parte da obra seja dedicada à conquista do espaço, e considerando distâncias cósmicas, também se destaca pela apresentação dos aspectos sociais e culturais da utopia imaginada.
Adam Roberts (em A Verdadeira História da Ficção Científica) diz que “Com certeza é difícil afirmar se um não marxista acharia A Nebulosa de Andrômeda tão atraente quanto um leitor com simpatias marxistas, mas seu envolvente retrato de uma Terra socialista no quarto milênio, explorando o espaço e fazendo contato com alienígenas da galáxia de Andrômeda, é ainda inspirador”. Em The Visual Encyclopedia of Science Fiction, o conceito que se sobressai na crítica ao livro é o de que do sonho utópico surge uma lição: que o ser humano precisa de trabalho de qualidade mais do que do prazer ocioso.
Efremov escreveu outro livro no mesmo ambiente, Chas Byka (1968. The Bull’s Hour), dessa vez imaginando uma sociedade um tanto diferente, distópica, o que fez com que o livro fosse proibido pelas autoridades soviéticas, seis meses após sua publicação. A história faz referência a uma catástrofe ecológica provocada em grande parte pela ignorância e corrupção de uma elite governante. Segundo Brian Stableford e Vladimir Gakov, “(…) O livro interessantemente confronta uma ‘utopia comunista’ com uma ‘distopia capitalista’, em uma estrutura semelhante à empregada por Ursula K. Le Guin em Os Despossuídos (1974)”.


JUSTIÇA FACIAL (Facial Justice, 1960)
L.P. Hartley.
(Editorial Minotauro, Portugal).

(Capa: Fernando Azevedo).

Publicado na Coleção Órbita, da editora portuguesa Minotauro. Apresenta uma sociedade distópica do futuro, após o planeta passar por uma guerra nuclear que obrigou os sobreviventes a viverem em cavernas subterrâneas, sendo governados por uma ditadura cruel. Um líder que jamais é visto consegue fazer com que uma parte da população resolva abandonar as cavernas e formar uma nova ditadura na superfície, na qual as pessoas usam roupas feitas de sacos de aniagem, de modo que ninguém aparente ser melhor do que os outros. O mesmo ocorre com o aspecto facial da mulher conhecida como Jael 97, denunciada como sendo “facialmente privilegiada”, o que causa descontentamento entre outras mulheres. Ela acaba liderando um movimento de rebelião contra o governo.
John Clute diz que várias regras de sua distopia igualitária satirizam o estado de prosperidade e o socialismo inglês, lembrando que a igualdade verdadeira, no caso, envolve uma igualdade na aparência física, como no conto Harrison Bergeron, de Kurt Vonnegut, comentado acima.


REGRESSO DAS ESTRELAS (Powrot Z Gwiazd/Return From the Stars)
Stanislaw Lem.


ESTE MUNDO PERFEITO (This Perfect Day, 1970)
Ira Levin.
Editora Nova Fronteira.
A distopia tecnocrática de Levin apresenta o mundo controlado por um computador central, UniComp, que mantém a vida de todos os seres humanos sob controle, em nome de estabelecer uma sociedade em que não existem mais guerras. As pessoas estão sempre satisfeitas com suas vidas, uma vez que recebem doses mensais de uma droga calmante. Tudo em suas vidas é controlado, desde o local onde devem morar até quando devem se alimentar, com quem se casar; todos têm um conselheiro que atua como uma espécie de confessor para quaisquer assuntos.
As pessoas morrem por volta dos 62 anos, provavelmente devido a uma overdose, mas uma classe privilegiada de pessoas que têm vidas longas vivem nos subterrâneos e governam o mundo de fato, ainda que uma pessoa se coloque contra esse governo e tente derrubá-lo.

 

 


THE SHOCKWAVE RIDER (1975)
John Brunner.

(Capa: Barclay Shaw/ Del Rey - Ballantine).

O livro de Brunner ficou famoso por apresentar um personagem capaz de hackear computadores, pelo uso da palavra “worm” para descrever um programa capaz de se propagar em uma rede de computadores, por ter se inspirado no livro O Choque do Futuro (Future Shock, 1970.Ed. Artenova/ Ed. Record) e, segundo alguns críticos, por ser um dos ancestrais da FC conhecida como cyberpunk. John Clute o considera o terceiro em uma “trilogia distópica” iniciada com Stand on Zanzibar (1968) e The Sheep Look Up (1972). (ver o especial Mil Cidades, na matéria Gente Saindo Pelo Ladrão).
Trata-se de uma distopia situada no século 21, quando os EUA estão dominados por computadores, em particular um programa do governo chamado Tarnover, cuja função é encontrar crianças superdotadas para que sejam ensinadas e doutrinadas para servir aos interesses do Estado. Esse governo é, na verdade, uma oligarquia formada pelo crime organizado.
O personagem central é Nick Haflinger, que trabalhava para o Tarnover, mas consegue fugir e viver à margem do controle do computador, até ser capturado. Ele havia descoberto que experiências de engenharia genética estavam sendo realizadas, criando crianças fisicamente deformadas e, em seguida, eliminadas.


WOMAN ON THE EDGE OF TIME (1976)
Marge Piercy.

(Capa: Phyllis Mahon/ The Women's Press).

Alguns críticos consideram o livro um clássico moderno na FC utópica, além de ser um clássico do feminismo. David Pringle considerou a obra uma magnífica descrição do destino de uma mulher na América atual, em contraste com uma alternativa feminista sofisticada, em um livro intensamente comovente.
A personagem central é Consuelo Ramos, mexicana-americana do Harlem espanhol de Nova York que é injustamente levada para uma instituição mental por ter “tendências violentas”. Ela tem uma espécie de comunicação com uma personagem do futuro, Luciente, uma viajante do tempo de uma época em que o mundo está bem diferente, com inúmeras conquistas na área social e ambiental. Ela aprende muito com o contato e as visões do futuro, mas também fica sabendo que aquele é apenas um dos futuros possíveis, e outros são apresentados no livro, como uma forma de crítica à situação atual da sociedade no planeta e, em particular, nos Estados Unidos.
 


TEMPO SUSPENSO (Dayworld, 1985)
REBELDE DO TEMPO SUSPENSO (Dayworld Rebel, 1987)
O FIM DO TEMPO SUSPENSO (Dayworld Breakup, 1990)

Philip José Farmer.
Uma trilogia bem conhecida de Philip José Farmer, que ainda teve a adição de um quarto livro em 2016, Dayworld: A Hole in Wednesday, escrito com Danny Adams como uma prequel, algo que se tornou comum principalmente no cinema do gênero.
O mundo distópico apresentado pelo autor mostra um mundo superpovoado, e a solução encontrada para resolver o problema foi fazer com que cada pessoa só possa viver um dia por semana, passando os demais seis dias “pedrado”, ou seja, em animação suspensa.

 

 


NO PAÍS DAS ÚLTIMAS COISAS (In the Country of Last Things, 1987)
Paul Auster.
Editora Bestseller.
Paul Auster, um dos escritores mais importantes da atualidade, apresenta sua história na forma de cartas escritas pela personagem Anna Blume, que vai a uma cidade indefinida, cujo nome não é citado, à procura do irmão jornalista. A cidade vive em estado de colapso total; nada é produzido e a população vive em estado de miséria, vivendo do que consegue coletar no lixo, e Anna tem de aprender a viver dessa forma, coletando as “últimas coisas” que restam da civilização, num ambiente em que as pessoas se suicidam constantemente, sem qualquer esperança em um futuro, num lugar em que sequer sabemos se existe um governo de fato.

 


EU S/A (Jennifer Government, 2003)
Max Barry.
Editora Record.
O mundo apresentado em Eu S/A é totalmente controlado por grandes corporações. Os EUA, que controlam a maior parte do planeta, são dominados pelas empresas, enquanto o governo passou a ter um papel secundário, na verdade, foi privatizado e tem um orçamento bem limitado, o que impede muitas de suas ações. Por exemplo, o governo continua a investigar crimes, mas apenas se as vítimas pagarem pelo serviço.
Como as corporações tomaram conta de tudo, as pessoas passam a assumir como seus sobrenomes os nomes das empresas para as quais trabalham, e é daí que vem o título do livro. Jennifer Governo, é claro, trabalha para o governo e ela investiga uma série de assassinatos de jovens que tentavam comprar o novo lançamento da Nike.
Acontece que os crimes faziam parte de uma campanha da empresa para aumentar o interesse pelo produto, apresentado como muito exclusivo e custando milhares de dólares.


UMA HISTÓRIA DE AMOR REAL E SUPERTRISTE (Super Sad True Love Story, 2010)
Gary Shteyngart.



CÂNTICO (Anthem, 1938)
Ayn Rand.
Vide Editorial.
Distopia situada num mundo após uma guerra que devastou o planeta, fazendo com que a humanidade entrasse numa era de trevas em que o conceito de individualismo foi abolido e todo avanço e pesquisa tecnológica é planejada com muito cuidado. O personagem Equality 7-2521 resolve fazer suas próprias pesquisas científicas, mas quando é descoberto precisa fugir para a floresta, e a mulher que ama o segue. Lá, eles redescobrem o sentido de individualidade.
O livro não teve uma acolhida muito boa por parte da crítica. Ayn Rand ficaria mais conhecida pelos romances A Nascente (The Fountainhead, 1943. Ed. Arqueiro) e Quem É John Galt (Atlas Shrugged, 1957. Ed. Expressão e Cultura. Relançado como A Revolta de Atlas, pela Ed. Sextante), ambos lidando com a questão do individualismo.

 

 


BEND SINISTER (1947)
Vladimir Nabokov.
Esse é o segundo livro de Nabokov escrito em inglês, com ação situada na cidade fictícia de Padukgrad, em algum lugar da Europa, na qual se desenvolve uma filosofia, o “ekwilism”, que não apenas entende ser o estado o bem supremo da sociedade como desencoraja a ideia de que alguém seja diferente de outra pessoa.

 

 

 

 


SÉRIE “CULTURE”
Iain M. Banks.

(Capa: Richard Hopkinson/ Macmillan UK).

A série de livros do escritor escocês situa-se numa sociedade utópica que se espalha pela Via Láctea, formada por humanoides e alienígenas, além de inteligências artificiais. A sociedade galáctica é chamada Culture, e a série é formada por 10 livros: Consider Phlebas (1987); The Player of Games (1988); Use of Weapons (1990); The State of the Art (1991); Excession (1996); Inversions (1998); Look to Windward (2000); Matter (2008); Surface Detail (2010); The Hydrogen Sonata (2012).

                                                                                                                               (Capa: Mark Salwowski/ Orbit).

Até onde pude averiguar, o autor não foi publicado no Brasil, mas foi bastante popular na Inglaterra e EUA, e a série é sua criação mais conhecida. Adam Roberts diz que “Desde o início, estava claro que Banks tinha algo de especial. Na época de sua morte, em 2013, era um dos escritores de FC mais famosos e mais apreciado”. Roberts diz que “A Culture tecnologicamente capacitada de Banks vive um sonho libertário de esquerda: uma sociedade cujas possibilidades de realização pessoal parecem intermináveis e que, ainda assim, tem uma consciência social. Para muitos, era uma mudança bem-vinda do viés direitista de grande parte da FC norte-americana da Era de Ouro (...)”. E ainda: “Que Banks estivesse disposto a escrever uma utopia sem constrangimentos e sem ironia numa época tão tardia da ficção científica é em si mesmo notável. O que estava em voga nos anos 1990, e inclusive em maior grau nas décadas de 2000 e 2010, era o exato oposto, sociedades distópicas num ou noutro grau de hediondez”.
Roberts entende que a série perdeu força enquanto avançava porque enfrenta um antigo problema da utopia: “se todos estão felizes, se tudo são rosas no jardim, sobre o que se vai escrever? Infelicidade e vulnerabilidade são os elementos que fazem as histórias acontecerem”.


TRILOGIA THREE CALIFORNIAS
Kim Stanley Robinson.

(Capa: Lee Gibbons/ Unwin Hyman).

Os livros da série são: The Wild Shore (1983); The Gold Coast (1988); Pacific Edge (1990). A ideia era apresentar três futuros possíveis para o Orange County, na Califórnia. O primeiro lida com os sobreviventes de um ataque nuclear, no que Adam Roberts chamou de distopia pós-nuclear “(...) que funciona de maneira esplêndida recusando-se a se tornar demasiado sombrio”. The Gold Coast apresenta algumas situações atuais do planeta, porém aumentadas, com poluição, superpopulação e corrupção.
Pacific Edge apresenta a Califórnia como uma utopia futura, com os problemas ambientais e políticos resolvidos. Apesar de ter recebido o John W. Campbell memorial Award em 1991, nem sempre foi bem recebido pela crítica.