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autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data15/4/2019
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O novo livro de Andy Weir traz muita ação em uma cidade lunar. É um bom entretenimento, mas uma ficção científica apenas mediana.

O primeiro romance de Andy Weir, Perdido em Marte (The Martian, 2011), foi um sucesso imediato, com milhões de exemplares vendidos e adaptado para o cinema num estalar de dedos, igualmente faturando centenas de milhões de dólares. E tudo indica que o mesmo vai acontecer com seu segundo livro, Artemis (Artemis, 2017), publicado em 2019 no Brasil, pela Editora Arqueiro. Os direitos para o cinema já foram adquiridos.
Quando comentei sobre Perdido em Marte, disse que o livro tinha momentos bons e outros nem tanto. Bom... as coisas não mudaram muito. Weir não é exatamente um bom escritor, mas sabe lidar com as situações capazes de estimular os leitores e oferecer o que o público quer em um bom entretenimento.
No entanto, seu texto continua apresentando o mesmo problema do excesso de informações científicas e técnicas. Para aqueles menos acostumados com a ficção científica, isso pode parecer estranho, mas é assim que as coisas funcionam. Se o escritor dedicar muitas páginas (e eu digo muitas mesmo) para explicações de como as coisas funcionam, com os personagens explicando suas ações no mínimos detalhes, ele corre o risco de fazer com que o leitor perca o interesse. Ou que faça como eu fiz com o primeiro livro e repeti com esse: eu “pulei” alguns trechos, já que não sou formado em química, física, eletrônica, astrofísica, matemática ou qualquer outra ciência exata; nem sou um estudioso ou curioso sobre esses temas; nem estava procurando um livro técnico de como se livrar de possíveis problemas na Lua.

A história se passa em Artemis, a primeira e até então única cidade construída na Lua. A narração é feita por Jasmine Bashara, mais conhecida como Jazz, cujo trabalho na cidade é como entregadora de mercadorias. Na verdade, Jazz é muito mais do que isso, sendo uma hábil contrabandista, além de ter uma inteligência fora do comum, o que lhe permite circular por várias áreas de conhecimento com uma facilidade que muitos cientistas e técnicos não conseguem.
Jazz se enreda numa trama envolvendo grupos que pretendem obter o controle da cidade e faturar trilhões de dólares, alguns deles violentíssimos, e para conseguir se dar bem ela precisa realizar algumas ações ilegais. O que não é um problema para uma contrabandista.
Jazz é o trunfo de Andy Weir para a história. Uma mulher de origem árabe, independente, inteligentíssima, sempre sem dinheiro, com os homens a seus pés, e com uma boca tão suja que, nos momentos de maior tensão, ela chega a criar novos palavrões. Tem tudo para dar certo entre o público que quer entretenimento e muita ação, desde que consiga ultrapassar a barreira das narrativas técnico-científicas que emperram a leitura.
Existem ainda algumas suposições que talvez sejam exageradas, ainda que a história se situe por volta de 2080 e, até lá, vai saber o que pode acontecer. Uma delas é a de que o Quênia tenha sido a porta de partida para a colonização lunar, devido a uma jogada inteligente da economista Fidelis Ngugi, atual administradora de Artemis, ex-ministra das Finanças do Quênia, que conseguiu criar a “indústria espacial” do país a partir do zero, simplesmente convencendo investidores de que o Quênia não apenas tinha a vantagem de poder lançar naves da região do Equador, como esqueceria totalmente a burocracia e política que emperrava os negócios em outros países. Outra suposição, a de que o crime organizado tenha se estabelecido na Lua, no caso, um dos grupos criminosos mais conhecidos do Brasil, atuante na Lua por meio da Alumínio Sanchez, um sobrenome que certamente não está entre os mais “brasileiros” que o autor poderia escolher.
Jazz se movimenta com inteligência entre os poderosos e políticos, escapando de atentados à sua vida e resolvendo problemas que, para outros, seriam impossíveis de serem resolvidos, em um livro que deverá agradar muitos leitores, mas que pode não agradar tanto aos fãs de ficção científica mais exigentes.
E o filme deverá faturar mais algumas centenas de milhões de dólares.


ARTEMIS (Artemis, 2017)
Andy Weir
Editora Arqueiro
304 páginas