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THE LOBSTER

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autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data1/3/2016
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O excelente filme do diretor grego Yorgos Lanthimos lida com os relacionamentos, em ambiente distópico e absurdo.
Uma mulher dirige o carro por uma pequena estrada até chegar a um campo onde dois burros estão pastando. Ela estaciona de qualquer maneira e sai com uma arma na mão; aproxima-se de um dos burros, dispara três tiros no coitado e volta para o carro.
Essa é a cena inicial do alucinante The Lobster, do diretor grego Yorgos Lanthimos, filme vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, em 2015. Lanthimos já era conhecido por seus filmes Dente Canino (Kynodontas, 2009) e Alpes (Alpeis, 2011), e aqui faz seu primeiro filme em inglês, com Colin Farrell, Rachel Weisz e Léa Seydoux no elenco.
No Brasil, foi apresentado no Festival do Rio de 2015, e até agora, até onde consegui averiguar, não teve lançamento oficial, nem em DVD. Mas, certamente, é um daqueles que vale a pena procurar, especialmente pelos cinéfilos que estão cansados de assistir ao óbvio nas telas do cinema (ou da TV).
Já vi críticas dizendo que se trata de uma distopia futurista, uma metáfora das relações sociais e pessoais, e otras cositas mas. Parece que é um pouco de tudo, amarrado com cenas surrealistas ou absurdas, mas que fazem cada vez mais sentido à medida que a trama prossegue.
Apresenta as relações sociais colocadas em compartimentos, como seções numa loja de departamentos. Para isso, apresenta uma sociedade em que não é permitido permanecer solteiro, ou solitário. É obrigatório, por lei, ter um companheiro ou companheira. Os que não têm, ou perdem – como no caso do personagem David, interpretado por Colin Farrell, que se separa da esposa – são levados para um hotel. Lá, têm até 45 dias para encontrar alguém. A opção para quem não encontra sua cara metade é ser transformado em um animal. Ou seja: se você não está com alguém, não é humano.

No hotel, com outros desesperados, começa a procura pela companheira (Element Pictures).

A necessidade e o desespero para encontrar uma companhia nos 45 dias cria situações grotescas e relacionamentos dos mais estranhos. David, por exemplo, tenta mudar seu modo de pensar e sentir apenas para se aproximar de uma mulher que não tinha sentimento algum, com resultados catastróficos.

Os que chegam ao hotel ainda passam por um ritual que consiste em caçar os “solitários”, um grupo totalmente oposto que vive na floresta nas cercanias do hotel. Neste outro grupo, o radicalismo também impera; ou você é solitário ou é punido. A violência marca as ações dos dois grupos, e as pessoas têm de se encaixar de qualquer maneira ou sofrer as consequências. Como os seres humanos normalmente não são tão simples e têm comportamentos e sentimentos variados, eles estão sempre tensos e com tendência a mentir, escondendo como realmente são ou fingir o que não são, tentando se encaixar nos relacionamentos.

Saindo para caçar "solitários".

É uma situação amplificada do que ocorre em nossa sociedade, com os dois grupos simplesmente não conseguindo conviver; os solitários revidam as caçadas a que são submetidos realizando ações terroristas, com as quais mostram como os casais que foram formados na marra são falsos.
Os opostos, igualmente terríveis, ficam evidentes; no hotel, a pessoa precisa fingir um sentimento que não tem para não sofrer as consequências; entre os solitários, a pessoa precisa esconder os sentimentos que tem para não sofrer as consequências.
Os dois grupos também têm líderes, que ditam as regras de forma tirânica. Porém, é uma tirania que não é desafiada. Os componentes de cada grupo apenas aceitam as ordens, mesmo que os líderes não demonstrem ser particularmente fortes ou capazes de impor as consequências, caso sejam confrontados. As pessoas são dóceis, conformadas e simplesmente aceitam as regras.

Farrell e Weisz, tentando se opor às regras da sociedade.

Claro que o filme é uma crítica social, antes de qualquer coisa, e uma história sobre amor e relacionamentos. O que leva as pessoas a ficarem juntas, a se amarem? O que as separa? O quanto elas estão dispostas a lutar por seus relacionamentos?
E, é claro, também é sobre como as pessoas procuram pontos em comum para dar continuidade a um relacionamento. É como se, quando elas perdem o que têm ou tinham em comum, o relacionamento não é mais possível.
E o final do filme certamente não propõe uma solução, o que é mais um ponto a favor do diretor Lanthimos. Ficamos esperando para saber qual será a decisão de David com relação ao seu novo amor, sua provável nova vida. E continuamos esperando.