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DURANTE O FIM DO MUNDO
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FILMES/Matérias
autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data19/5/2015 16:18:19
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resumoHoje em dia, os livros e filmes em que a Terra é arrasada por uma guerra nuclear são mais raros, mas houve época em que representavam grande parte das produções do gênero.


O medo de uma guerra nuclear acompanhou a humanidade durante muito tempo. Para ser mais exato, de agosto de 1945 – quando as primeiras bombas nucleares arrasaram as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki – até 1989, com a queda do muro de Berlim e o consequente fim da guerra fria e o decréscimo da beligerância entre EUA e URSS. Não que o perigo real tenha acabado a partir desse período, mas certamente não voltou a atingir a paranoia dos anos 1950, 60 e 70. Em 1962, por exemplo, com a famosa crise dos mísseis em Cuba, o mundo chegou realmente muito perto de um confronto nuclear. E, ainda hoje, é mantida a contagem do chamado “relógio do juízo final”.
Após a Segunda Guerra Mundial e as explosões de armas nucleares – tanto as utilizadas no ataque ao Japão quanto os inúmeros testes nucleares realizados pelas potências nas décadas seguintes – surgiram centenas de histórias que tinham o apocalipse nuclear como tema central, na literatura e no cinema, variando do absolutamente pavoroso e ridículo até obras de altíssima qualidade.
O filme considerado mais próximo da “realidade” da época foi Limite de Segurança (Fail Safe, 1964), dirigido por Sidney Lumet. A história é extremamente parecida com a de Doutor Fantástico (Dr. Strangelove), dirigido por Kubrick, no mesmo ano. Na verdade, os enredos são tão parecidos que originaram uma série de acusações de plágio.


Henry Fonda, em Limite de Segurança (Columbia).

O que o filme de Kubrick tem de humor, o de Lumet tem de suspense, encarando a possibilidade de destruição nuclear como algo a ser evitado a todo custo. Ocorre um defeito nos computadores do Comando Estratégico dos EUA, fazendo com que um ataque nuclear em larga escala seja iniciado contra a URSS. Quando o governo percebe o que está acontecendo, tenta deter os aviões, mas um deles consegue atingir seu objetivo. Em Limite de Segurança, o presidente dos EUA, interpretado por Henry Fonda, consegue evitar a guerra mundial dando a ordem para que Nova York seja bombardeada.


Henry Fonda é o presidente dos EUA, e Larry Hagman o tradutor, tentando negociar a paz com o premiê soviético, em Limite de Segurança. 

Apesar de todo o clima do filme de Kubrick ser de humor negro, a perspectiva final é bem mais terrível do que a do filme de Lumet, com a bomba sendo jogada e originando uma série de explosões nucleares que destruirão o planeta.


Peter Sellers como o doutor Fantástico (Columbia).

O filme se destaca como uma das mais alucinantes versões para um final do mundo devido a um conflito nuclear, uma das grandes comédias de humor negro do cinema. O ator Peter Sellers é um dos destaques da produção, excelente nos três papéis que representa: ele é o doutor Fantástico do título nacional, um ex-nazista que passou a trabalhar para o governo norte-americano, e o construtor da bomba do juízo final; além de ter imensas dificuldades em controlar seu próprio braço, que insiste em fazer a saudação nazista.


Peter Sellers, como o oficial britânico.

Sellers também interpreta o amedrontado oficial inglês servindo na base do oficial americano mais paranoico de todos os tempos, responsável por enviar os aviões para bombardearem a União Soviética. E também interpreta o presidentes dos EUA, tentando de todas as formas evitar a catástrofe, mas cercado por incompetentes ou loucos varridos, e tendo de lidar com o premiê soviético pelo telefone, apesar do russo estar completamente bêbado.


Slim Pickens, na alucinada cavalgada da bomba nuclear, uma das cenas mais marcantes do cinema.

A possibilidade de uma guerra nuclear mundial continuava a ser uma realidade nos anos 1980. Em 1983, o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, propôs o projeto popularmente conhecido como Guerra nas Estrelas. Talvez isso tenha originado as duas produções do mesmo ano, O Dia Seguinte (The Day After) e O Testamento (Testament, também conhecido como Herança Nuclear), com aproximações bem diferentes do tema.
Produzido para a TV pela ABC, O Dia Seguinte registrou uma das maiores audiências da história da televisão, com mais de 100 milhões de espectadores nos EUA, e foi um espetáculo completo, com uma grande discussão sobre o tema sendo realizada ao vivo, após a apresentação, com a participação de Carl Sagan.


Uma das impressionantes cenas de explosões nucleares em O Dia Seguinte (ABC TV).

O diretor Nicholas Meyer disse que se tratava de um filme de “utilidade pública”, mostrando os momentos iniciais de um conflito nuclear e as consequências da destruição. A produção deu grande atenção aos detalhes técnicos, ainda que os cientistas que falaram sobre o filme tenham dito que ele não retratava nem uma pequena parte do que realmente aconteceria com o planeta, no caso de uma destruição em larga escala.


Os mísseis partem em retaliação aos ataques, em O Dia Seguinte. 

Por outro lado, o que O Dia Seguinte tem de explícito, O Testamento tem de dramático, e só não foi mais efetivo no efeito causado no público porque não teve o mesmo número de espectadores. Mas em tudo mais o filme dirigido por Lynee Littman é superior.


A família reunida para orar pela sobrevivência, com Kevin Costner (então, com 28 anos e ainda não famoso) em primeiro plano, e Jane Alexander como a mãe que tenta manter a situação em ordem, em O Testamento (Paramount).

Não há qualquer efeito especial, nenhuma explosão nuclear é mostrada, com a história girando em torno da vida na pequena cidade de Hamelin, mais exatamente na família Wetherly. O pai está longe, viajando, quando notícias desencontradas começam a chegar à cidade, dando conta de que algumas cidades dos EUA foram atacadas por armas nucleares. A partir de então, os eventos mostram a transformação lenta e sem retorno pela qual o mundo está passando. A mãe tenta manter as crianças alheias ao fato de que, com o tempo, ninguém irá sobreviver, mas até isso se torna impossível.


Jane Alexander, em O Testamento. 

É um filme com clima pesado, mas certamente é a melhor produção do gênero de sua época.
Dois anos depois, a BBC inglesa produziu a sua versão de O Dia Seguinte, com Catástrofe Nuclear (Threads), dirigido por Mick Jackson. Os efeitos especiais são menos espetaculares, mas o efeito na audiência foi igualmente impactante, em parte devido ao estilo de documentário do filme.
Tem o mesmo defeito do filme norte-americano ao subestimar os efeitos de uma guerra nuclear, prevendo um número maior de sobreviventes do que o que os especialistas no assunto realmente imaginavam. Por outro lado, estende-se sobre os possíveis efeitos da radiação nas gerações futuras. Comete o erro de, ao contrário das duas produções dos EUA, abertamente atribuir aos soviéticos a culpa pelo início da guerra.
Em 1988, outro filme abordava o período imediatamente anterior a uma guerra nuclear. Trata-se de Miracle Mile, que no Brasil recebeu o criativo título de Miracle Mile. E, por alguma razão misteriosa, na época a crítica brasileira detestou o filme. A direção é de Steve De Jarnatt, e o filme é um achado entre as produções que tratam da hecatombe nuclear, porque apresenta os minutos que antecedem o final, a queda das bombas nucleares, do ponto de vista de um músico (Anthony Edwards, que fez o dr. Mark Greene no seriado Plantão Médico/ ER). Por acaso, ele atende um telefone público e ouve uma mensagem desesperada de alguém que trabalha num silo de mísseis nucleares, avisando que o fim está chegando, e Los Angeles será atingida em 70 minutos. A notícia se espalha e a cidade se transforma num pandemônio.


Anthony Edwards atende o telefonema que inicia a confusão, em Miracle Mile (Hemdale/ Columbia).

Até os minutos finais não se tem uma ideia clara se o fim está realmente próximo ou se era apenas um trote com repercussões imprevistas. Nesse sentido, o filme também funciona muito bem como um estudo do comportamento das massas, do poder dos boatos, tanto quanto do desespero, da falta de objetivo e da estupidez humana. É muito melhor do que os críticos acharam na época.


Em poucos minutos, a anarquia toma conta da cidade (Miracle Mile).