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RELIGIÃO E CONTROLE

FILMES/VE FC E RELIGIÃO

autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data12/9/2018
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Como ocorreu tantas vezes em nossa história, na FC a religião também foi apresentada como uma forma poderosa de controle da sociedade.

O Declínio de Uma Espécie (The Handmaid's Tale. Cinecom).

Em The Visual Encyclopedia of Science Fiction, o verbete sobre a religião na FC lembra que, ao final dos anos 1930, as revistas do gênero estavam passando por mudanças e se tornando mais maduras, com novos autores abordando temas religiosos que seguiam basicamente duas tendências: uma visão do desenvolvimento da religião no futuro; e o conceito de religião em outros mundos.

(Capa: Hubert Rogers).

O primeiro, ou um dos primeiros, textos na linha da primeira tendência foi a história de Robert A. Heinlein Se Isto Continuar (If This Goes On, 1940), originalmente publicado de forma serializada na revista Astounding Science Fiction, e depois na coletânea Revolta em 2100 (Revolt in 2100, 1953).
Brian Stableford (em The Science Fiction Encyclopedia) também vê o conto de Heinlein como iniciador de uma série de histórias desse tipo na FC. “A evolução futura da religião institucionalizada”, ele escreveu, “foi primeiramente considerada em Se Isto Continuar (...) no qual um estado tirânico do futuro opera por meio de uma Igreja estabelecida. Essa história apresenta seu líder religioso como um fanático preconceituoso, uma imagem que persistiu na FC desde então”. E também é muito superior ao que Heinlein escreveria em sua fase final, com histórias preconceituosas, às vezes racistas, e repletas de diálogos tolos
Se Isto Continuar situa-se em 2050 e faz parte do que o autor chamou de sua “história do futuro”. Segundo as observações de Heinlein em seu “quadro cronológico do futuro”, apresentado na versão brasileira do livro Revolta em 2100, nessa época ocorreu a ascensão do fanatismo religioso e a Nova Cruzada, além da Rebelião e Independência das Colônias Venusianas e a Ditadura Religiosa nos Estados Unidos. A história é narrada por John Lyle, um guarda dos Anjos do Senhor, a serviço pessoal do Profeta Encarnado, formado em West Point, que misturava teologia com educação militar.

                                                                                                                                                               (Capa: Stanley Meltzoff/ Signet).

Narrando seus primeiros dias no Palácio do Profeta, ele fala de seu amigo Zebadiah Jones, há mais tempo que ele em serviço, e que lhe ensina alguns fatos à respeito da política local e das coisas não ditas à respeito do Profeta, principalmente após Lyle apaixonar-se por uma das irmãs, Judith, virgem consagrada ao Profeta. Ele, Zeb, Judith e a Irmã Madalena, acabam entrando em contato com a Conspiração – da qual a última faz parte – para livrarem-se da Inquisição e dos serviços ao Profeta. A Conspiração pretende derrubar a rígida ordem estabelecida no país.
O conceito realmente foi utilizado em algumas histórias de FC nos anos seguintes, assim como a ideia do uso de modernas técnicas de comunicação, principalmente a televisão e derivados “futuros”, para fortalecer o poder do governo. Heinlein ainda consegue descrever ações militares sem ser excessivo nos detalhes e sem ter a mão pesada no desenvolvimento de personagens arrogantes, o que seria uma constante em histórias posteriores.

 

 

(Capa: Hubert Rogers).

O conceito de religião em outro mundo pode muito bem ser exemplificado com o conto de Isaac Asimov, O Cair da Noite (Nightfall, 1941), originalmente publicado na revista Astounding Science Fiction e, posteriormente, em várias coletâneas, e também adaptado por Robert Silverberg para o formato de romance. Alguns críticos entendem que se trata de uma das melhores histórias de Asimov, e o Science Fiction Writers of America considerou o melhor conto do gênero até o ano de 1965, quando foi criado o Prêmio Nebula.
A história se passa no planeta Lagash, que tem seis sóis; pelo menos um deles sempre está brilhando no planeta, de modo que não existe noite; mas os sóis estão em vias de desaparecer do céu. Os religiosos do planeta, chamados “cultistas”, afirmam que, de tempos em tempos, o planeta entra em uma imensa caverna e os sóis desaparecem. Quando isso ocorre, surgem coisas chamadas “estrelas”, que privam os homens de suas almas e os transformam em animais irracionais que destroem a civilização que eles próprios criaram. Algumas evidências são apoiadas por descobertas arqueológicas que indicam a existência de um caráter cíclico da civilização em Lagash; são descobertos indícios de séries de civilizações anteriores, com o mesmo grau de desenvolvimento, e todas destruídas.
No momento em que a história inicia, apenas um sol permanece no céu e os astrônomo Aton-77 está certo de que o mundo chegará ao seu fim novamente, tendo alertado a população e construído abrigos para as pessoas serem salvas, enquanto o jornalista Theremon-762 tenta convencê-lo da possibilidade de os cientistas estarem errados em seus cálculos e o mundo não acabar.

                                                                                                                                       (Capa: Rick Sternbach/ Del Rey-Ballantine).

O problema é que os habitantes do planeta estão psicologicamente preparados para viver sempre com a luz do dia, sem que jamais deixe de existir um sol no céu. As experiências de pessoas que ficaram apenas alguns minutos no escuro total foram terríveis, provocando loucura e até mortes. E a escuridão total é o que está vindo, junto com as estrelas. Os astrônomos desejam registrar o ocorrido para passar às gerações seguintes, quando, 2049 anos depois, ocorrer o mesmo fenômeno, mas os cultistas organizam-se e incitam a população a destruir o Observatório.
O momento chega e eles descobrem que se encontram no centro de um aglomerado com 30 mil poderosos sóis. Percebem o que Aton chama de “as Trevas para todo o sempre...”, o espaço infinito e a escuridão; percebem que o universo é muito maior do que eles imaginavam e seu planeta muito mais insignificante. E enlouquecem.
A história é mais interessante em seu formato mais curto; o romance, que muda o nome do planeta para Kalgash, estende demais a ação, repetindo alguns argumentos.

Planeta Infernal (New Horizons).

Adam Roberts (A Verdadeira História da Ficção Científica) escreveu que “Nighfall tem sido citada como a mais popular ou a melhor história de FC já publicada em diversos estudos; e conquistou esse lugar graças, a princípio, ao vigor do sentimento de espanto em seu final, o esplendor estrelado revelando a grandeza do cosmos para um povo que não tinha compreendido a verdadeira escala das coisas e sua diminuta condição nele. Em outras palavras, essa hábil e pequena história recapitula a crise conceitual que tinha, antes de tudo, gerado a ficção científica. Ela acaba com a revolução copernicana em uma única noite. Se é por isso que tem tanta ressonância para leitores envolvidos no gênero, é por isso também que é tão pouco conhecida fora do gênero”.
A história teve uma adaptação para o cinema em 1988, Planeta Infernal (Nightfall), com direção de Paul Mayersberg e produção de Julie Corman, esposa de Roger Corman; e uma adaptação produzida diretamente para o vídeo, Nightfall (2000), com direção de Gwyneth Gibby e produção de Roger Corman. Nenhuma das duas produções é grande coisa, falhando imensamente em captar a grandiosidade do conto.

 

(Capa: Peter Lord/ Penguin Books).

Algumas sociedades e governos teocráticos também podem surgir após holocaustos, como é o caso do bom livro As Crisálidas (The Chrysalids, 1955), de John Wyndham. O holocausto, provavelmente nuclear, já ocorreu há bastante tempo e a história registra a existência do Povo Antigo, uma civilização avançada anterior à destruição que atingiu o mundo.
A sociedade na qual as ações se situam é governada por princípios religiosos rígidos, um Cristianismo fundamentalista, e eles acreditam que a destruição ocorrida no planeta, à qual eles chamam de Tribulação, foi uma resposta de Deus aos pecados dos ancestrais. E, para evitar que outra destruição semelhante ocorra, eles praticam uma forma radical de eugenia, eliminando quaisquer mutações que possam surgir, e elas são muitas, em plantas, animais ou mesmo entre os humanos. No caso dos humanos, as mutações, ou blasfêmias, resultam em morte ou esterilização, além do banimento para uma região afastada da sociedade.
Também em Malevil (Malevil, 1972), de Robert Merle, o holocausto nuclear originou uma sociedade religiosa com padrões rígidos. O centro da narrativa é o castelo de Malevil, um refúgio para sobreviventes da destruição nuclear, com narração na primeira pessoa do líder do grupo, Emmanuel Comte, e proprietário do castelo, que passa a ser visto como propriedade de todos do grupo. Com o tempo, os sobreviventes encontram outras pessoas vivas numa aldeia próxima, e percebem que eles são governados de forma ditatorial por um homem que assume o papel de religioso.
O livro foi adaptado para o cinema em 1981, Malevil, com direção de Christian de Chalonge, que teve recepção um tanto fria por parte da crítica e que foi rejeitado por Robert Merle por ter modificado o final do seu livro.
As sociedades do futuro dominadas por maníacos religiosos, geralmente surgidas após um apocalipse, nuclear ou de outro tipo, tornaram-se bastante comuns no cinema do gênero a partir dos anos 1980. Quase nunca são o ponto central dos filmes, mas funcionam como um quadro geral, como no péssimo A Rebelião Final (Rising Storm, 1989), dirigido por Francis Schaeffer, que apresenta o planeta governado por um ditador maníaco, organizador de um estado baseado numa religião picareta que é sustentado por uma força policial poderosa. Os exemplos de filmes com essas características são muitos, e quase todos são horrendos.

                                                                                                                                                                    (Capa: Chris Foss/ Coronet Books).

A religião também é utilizada como uma das formas de controle da sociedade em Kronk (Kronk, 1970), com história situada na Inglaterra, em um futuro indeterminado e caótico. As pessoas foram afetadas por uma doença sexualmente transmissível chamada P 939, projetada pelo professor Greylaw. O resultado da infecção é que as pessoas afetadas não conseguem mais reagir de forma agressiva, violenta, o que vale também para os animais, também inoculados com o vírus.
Edmund Cooper narra a história em uma avalanche de acontecimentos alucinantes e, aparentemente, sem conexão, e com muito bom humor. Nesse ambiente mundial transformado em um amontoado de ações desconexas e incompetentes, a religião foi totalmente computadorizada, com a criação de aparelhos confessores, chamados Deus-Máquina, que ouvem as confissões dos fiéis ao mesmo tempo em que realizam um controle total das atitudes da população, estando intimamente conectados ao sistema de controle social do Estado e à tentativa de aumentar o consumo. Assim, utiliza-se de frases chamativas e bombásticas como “No Céu tu serás limpo pelo Grande Detergente”.

(Capa: James Starrett/ Doubleday).

Uma sociedade do futuro regida por um código religioso é o excelente Mundos Fechados (The World Inside, 1971), de Robert Silverberg (ver mais na matéria Gente Saindo pelo Ladrão). Nesse mundo do futuro superpovoado – a Terra atingiu 75 bilhões de habitantes – a reprodução humana é vista como algo absolutamente indispensável, e qualquer pensamento no sentido de controlar a reprodução ou tamanho de uma família é mal visto.
Ainda que não seja o centro da história e não seja um tema muito desenvolvido pelo autor, a religião se apresenta com características próprias; apesar de as relações sexuais serem estimuladas, isso não representa um decréscimo do estímulo religioso. “Louvado seja” e “abençoado” são expressões comuns entre os habitantes. E, ainda que inicialmente a vida nos gigantescos aglomerados urbanos, os prédios chamados monurbs, pareça ser equilibrada, aos poucos vamos percebendo sinais evidentes de apatia e de histeria religiosa, como se a frase bíblica “Crescei e multiplicai-vos” fosse levada a extremos.

                                                                                                                                               (Capa: Tad Aronowicz/ McClelland & Stewart).

Um dos livros mais bem elaborados a apresentar uma sociedade fundamentalista cristã é A História da Aia (The Handmaid’s Tale, 1985), de Margaret Atwood, que ganhou ainda maior popularidade após ter sido adaptada para a TV, na série com o mesmo título (2017). O livro ganhou o prêmio Arthur C. Clarke, apesar de Atwood rejeitar enfaticamente o gênero FC como um todo, inclusive afirmando que seu livro (e ainda outros como Oryx e Crake) não é ficção científica, mas ficção especulativa.
Adam Roberts escreveu sobre o livro em A Verdadeira História da Ficção Científica: “A romancista canadense Margaret Atwood tem, vez por outra, irritado membros da comunidade de FC ao negar que escreva essa coisa de ‘ficção científica’, um gênero pulp que ela denegriu como algo que só dizia respeito a ‘lulas inteligentes no espaço’. Mas a despeito das negativas, as três melhores novelas de Atwood são todas francamente de FC. O Conto da Aia (1985), seu título mais famoso, ganhou o primeiro prêmio Arthur C. Clarke pelo nítido retrato de um futuro Estados Unidos distópico, onde o fundamentalismo cristão estabeleceu uma sociedade repressiva e misógina baseada, de forma ostensiva, em princípios bíblicos. A protagonista da novela, Offred [Defred] (anônima, exceto na medida em que pertence, como criada, a seu amo – ela é ‘of Fred’ [de Fred]), torna-se o foco para a indignação mais generalizada do livro ante os muitos meios como os homens transformam as mulheres em objetos e as escravizam. As seções iniciais são incrivelmente claustrofóbicas, não só na representação da existência precária que Offred suporta, mas também da vida limitada que o próprio Fred leva”.

(Capa: Fletcher Sibthorp/ Vintage).

Adams diz que Atwood levanta uma questão muito importante sobre a psicologia humana e, “antes de tudo, sobre como as estruturas de opressão são capazes de subsistir; por que razão seres humanos oprimidos não (como Shelley coloca) se erguem como leões depois do sono. Não acho que seja um livro impecável. O leitor pode sentir certo desapontamento na cena da última metade da novela em que o comandante leva Offred para uma boate-bordel sancionada pelo governo. Até esse momento, O Conto da Aia parece estar fazendo algo mais complexo e interessante que apenas deplorar a hipocrisia da masculinidade. Parece retratar um mundo em que os homens, tendo erigido um proibido edifício teoideológico para manter as mulheres em seu lugar, encontram-se agora enredados nas próprias teias, com as vidas despojadas das gratificações do poder pelas próprias estratégias empregadas para obtê-lo – o que significa dizer, tornaram-se infelizes (menos infelizes que as mulheres que oprimem, é claro, mas ainda assim infelizes) devido às próprias narrativas de autojustificativa. Mas a visão de Atwood é que os homens não acabam na verdade sendo vítimas das hierarquias repressivas que constroem; todos estão se embebedando e fazendo sexo com prostitutas em clubes secretos. Isso, no entanto, me parece questionável. Hitler, afinal, não voltou para seu bunker de Berlim para compartilhar cocaína incrementada por orgias sexuais; voltou para comer aspargos cozidos e chatear os companheiros com entediantes monólogos antes de deitar em uma cama de beliche para sonhar os sonhos áridos de dominação ariana. Um dos (muitos) toques de mestre em 1984, de Orwell, ocorre quando O’Brien revela o nível de opulência negado à ralé, mas concedido pelo Partido aos escalões superiores – e ele é terrivelmente baixo; uma marca ligeiramente melhor de Victory Gin, um conjunto ligeiramente menos surrado de mobiliário. Isso nos gratifica, eu acho. Seja como for, após aquela cena, o Fred de Atwood se torna um vilão mais bidimensional – não o menos verossímil, é evidente, pois muitos autocratas entram apenas com protestos de fidelidade às ideologias que lhes dão suporte, enquanto desfrutam, em segredo, de prazeres ilícitos; mas um personagem menos interessante segundo a lógica fictícia do mundo criado por Atwood. A conclusão da novela, com Offred escapando dos mundos limitantes de Nova Galaad, traz também um certo anticlímax”.
A história é situada numa época futura, após uma guerra realizada nos EUA após o assassinato do Presidente e de membros do Congresso, estabelecendo um estado baseado nos princípios puritanos da Bíblia. É narrada na primeira pessoa por uma Aia, que se tornou uma categoria social específica. E claro que, como tantos estados ditatoriais, os preceitos bíblicos só são seguidos literalmente pelas classes dominadas, com o governo mentindo e alterando as interpretações quando é benéfico para si. Forma-se uma sociedade dogmática, excessivamente moralista, fechada e, por isso mesmo, fascista, repressora e perigosa. Várias categorias sociais começam a surgir, como as Martas, os Guardiões da Fé, os Anjos, os Comandantes e as Esposas dos Comandantes.
Além da repressão interna a outras seitas e a quaisquer atividades intelectuais ou culturais ligadas ao velho estilo de vida, ocorre uma guerra externa. A personagem Defred, a Aia que narra a história, vê além das aparências, descobrindo os desejos ocultos e proibidos. A República chama-se Gilead, mas ela se lembra de como eram as coisas antes da mudança na sociedade.
A noção das proibições impostas às pessoas vai sendo transmitida aos poucos, pela narração da personagem. O que ela tem para fazer, o que ela pode e lhe é permitido, é tão pouco, que ela descreve tudo o que lhe acontece; por exemplo, gastou vários dias para observar o quarto que lhe foi reservado, um quarto onde não existe praticamente nada. Em suas saídas pela cidade qualquer cuidado é pouco, pois qualquer um pode ser um Olho e denunciá-la como herege. A Aia sobrevive à sua prisão a partir de seus pensamentos, de sua imaginação, da lembrança da vida que teve antes, de sua filha e de Luke, seu companheiro.
A função das Aias é procriarem, gerarem filhos dos maridos cujas esposas já não podem fazê-lo. Às vezes, geram antibebês, mutantes, monstros criados pelo excesso de radiação que ainda existe no ar. Elas têm apenas três oportunidades para gerar, após o que recebem a punição adequada.
Defred envolve-se cada vez mais com sua narração, muitas vezes fantasiosa, do passado e do presente, assim como com o grupo de Aias e Guardiões que resistem ao estado totalitário. Também passa a conhecer o lado oculto da sociedade puritana, que é totalmente oposto, com os Comandantes frequentando um Bordel onde tudo é permitido.

Robert Duvall e Natasha Richardson, em O Declínio de Uma Espécie (Bioskop Film/ Cinecom Entertainment Group/ Cinétudes Films/ Daniel Wilson Productions Inc./ Master Partners/ Odyssey).

A história foi filmada em 1990, O Declínio de uma Espécie (The Handmaid’s Tale), com direção de Volker Schlondorff, com roteiro do Prêmio Nobel de Literatura de 2005, Harold Pinter, com Natasha Richardson como a Aia, Robert Duvall como o Comandante, e Faye Dunaway como sua esposa. Não chegou a ser um sucesso de bilheteria, assim como não teve uma recepção das melhores entre os críticos, apesar de alguns cuidados excepcionais nos figurinos e o elenco de peso. No Brasil, ainda foi apresentado com esse título horrendo que nada tem a ver com o título original.
A série de TV, The Handmaid’s Tale (2017-2018), tem Elisabeth Moss no papel principal e foi criada por Bruce Miller. Está em sua segunda temporada e já tem a terceira programada, e já fez mais barulho do que o filme, ainda que três temporadas pareça demais para contar a história.

                                                                                                                                                                (Capa: Frank Kelly Freas/ Ace Books).

Outros ambientes que se tornaram típicos da ficção científica também serviram como suporte para o desenvolvimento de sociedades religiosas opressivas, como no livro The Ballad of Beta-2 (1965), de Samuel R. Delany. O tema central é o das chamadas “generation starships”, naves espaciais que viajam durante muitos anos em direção ao seu objetivo, com várias gerações sucedendo-se. No caso do livro de Delany, é uma expedição com várias naves, que enfrentam diversos problemas durante a longa jornada.
Com o tempo, nas gerações posteriores às que iniciaram a viagem, desenvolve-se uma seita religiosa fanática cujos líderes atuam como juízes e acabam por suplantar a autoridade dos capitães das naves, invariavelmente condenando à morte todos os que não se adequam aos pensamentos e comportamentos definidos por suas normas.
O livro reproduz alguns temas básicos do Cristianismo, em particular na figura de uma capitã de uma das naves. Em determinado ponto da viagem, as naves começam a ser destruídas, e é ela que descobre a existência de um ser que vive no espaço, cujas tentativas de comunicação com os humanos acabou provocando as destruições. Após conseguir se comunicar com o ser e evitar que as demais naves fossem destruídas, o ser do espaço transforma a si mesmo no equivalente masculino dos humanos e a capitã fica grávida. Como todos os nascimentos nas naves são realizados artificialmente, a gravidez da capitã é considerada fora das normas pelos juízes religiosos, e executada após ter dado à luz. Os religiosos ainda realizam uma verdadeira “limpeza”, matando todos os “desajustados”.

(Capa: Peter Cross/ Penguin Books).

Vários mundos alternativos (ver também Mundos Paralelos e Alternativos e Viagens no Tempo) apresentam variações de nossa história baseados nas religiões conhecidas, como em The Shield of Time (1990), de Poul Anderson, livro que faz parte da série de histórias conhecidas como “Patrulha do Tempo”, que o autor começou a publicar em 1955. O livro apresenta um século 20 em que e Europa e controlada pela Igreja Católica, com a Inquisição eliminando qualquer dissidente.
Também situado numa Terra alternativa é The Last Starship From Earth (1968), de John Boyd, que apresenta uma sociedade distópica, num mundo em que Jesus Cristo não só não foi crucificado, mas se tornou um rebelde e provocou a queda do Império Romano pelo uso das armas. Uma teocracia foi estabelecida na Europa e se manteve até o século 20.