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Na matéria Outros Mundos, no especial Mundos Paralelos e Alternativos, vários especialistas em ficção científica apresentaram suas visões a respeito das diferenças entre as denominações mundos (ou universos) paralelos e alternativos. Um desses especialistas, o crítico e escritor Brian Stableford, disse que essa noção é uma das mais antigas da literatura e das lendas, afirmando que esses mundos paralelos surgem de muitas formas, como a “terra das fadas”, ou o “plano astral” dos espiritualistas. E mais, que essas formas propagaram-se na ficção científica e ajudaram a compor um dos temas mais abordados do gênero.
Foi a partir desse ponto de vista que resolvemos apresentar algumas ideias sobre o tema que não seguem necessariamente a abordagem a partir do ponto de vista científico, geralmente relacionado a ramificações da mecânica quântica, mas as ideias que estão ligadas a lendas, mitos, religiões e diferentes pensamentos esotéricos.
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Uma noção bastante difundida nos meios não científicos (e, talvez, também nos científicos) é a de que em um universo infinito, as possibilidades de mundos e universos diferentes têm de ser obrigatoriamente infinitas. E, partindo desse pressuposto, tudo que é possível de existir, existe de fato, em algum lugar, em alguma época, em alguma dobra do espaço e do tempo. Assim, por mais que a noção da existência de mundos ou universos paralelos nos quais a vida seguiu caminhos diferentes do nosso pareça um tanto bizarra, ela pode ser encarada do ponto de vista religioso, místico ou esotérico como uma das concepções mais impressionantes e instigantes para explicar a natureza múltipla da Criação, entendendo esta com “c” maiúsculo, atribuída a um ser superior.
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Para vários pesquisadores da área, é bem possível localizar a origem da noção de mundos paralelos em tempos antigos. O físico Fritjof Capra (1939-), por exemplo, afirmou que só agora a ciência começou a compreender o que os ocultistas já diziam desde tempos imemoriais. Cita-se frequentemente o pensamento filosófico hindu de que o mundo é maya, ou seja, é ilusão, pressupondo, segundo algumas interpretações, a existência de realidades invisíveis, paralelas à nossa; algumas mais, outras menos ligadas ao nosso mundo material.
Uma das concepções espiritualistas é a de que existem mundos invisíveis à nossa volta, como camadas de realidades distintas, que corresponderiam aos diferentes estágios pelos quais a alma humana deve passar após a morte, percorrendo um caminho que, quando nos encontramos em nosso corpo material, não conseguimos ver ou sequer perceber, com exceção de algumas pessoas que teriam essa capacidade. A escritora Prêmio Nobel de Literatura, Doris Lessing (1919-2013), abordou essa possibilidade em seu livro de FC, Shikasta (Shikasta, 1979), combinando várias das versões místicas, lendárias, religiosas e esotéricas em um fundo de ficção científica.
O físico-químico Ilya-Prigogine (1917-2003), um dos mais importantes teóricos de sua época, entende que a oposição entre ciência e religião é coisa do passado. Segundo ele, a ciência surgiu da teologia criada no século 17 para “colocar o homem mais próximo ao conhecimento de Deus”. Considerando-se que a ideia predominante na época era a de que para Deus não há diferença entre passado, presente e futuro, o cientista tinha de eliminar o tempo. “Eu diria que, por essa razão, o tempo foi excluído da ciência clássica e da ciência básica. Feito isso, a ciência tornou-se essencialmente um tipo de mecanismo, e houve uma espécie de oposição”, explicou o físico.
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Prigogine disse que esse tipo de pensamento criou o que chamou de uma espécie de “esquizofrenia ocidental”, que implica na oscilação entre um mundo que funciona como um autômato e outro governado pela teologia. “Estamos todos pasmos”, ele disse, “diante deste mundo tão rico, tão variado, tão diferente daquele autômato que a ciência clássica imaginou. Eu diria que esta é uma das forças impulsionadoras da criação de uma nova utopia, um novo diálogo com a natureza. Mas não gostaria de chamar isso, necessariamente, de religião. Preferia chamar de comunidade com o universo, pertencente e possuindo uma interação com ele”.
As especulações em torno da possibilidade da existência dos universos paralelos – a maioria delas vinculada à mecânica quântica – levam em consideração que a imaginação humana é capaz de criar universos. Qualquer decisão tomada por uma pessoa criaria um novo ou novos universos: um dos universos é aquele no qual a pessoa vive; outro, ligeiramente distinto, é aquele no qual em determinado momento a pessoa tomou uma decisão diferente e alterou o rumo dos acontecimentos. Assim, a cada momento, vários universos paralelos vão sendo criados – situação que pode se estender literalmente para tudo, de modo que existiriam universos compostos por absolutamente tudo o que já foi imaginado e criado na face da Terra.
Para o ponto de vista não científico, essas especulações, que têm feito a delícia dos escritores e leitores de ficção científica e quebrado a cabeça de vários físicos, não são muito diferentes da ideia sobre a criação de formas-pensamento, tão conhecidas pelos estudiosos da Teosofia. A especulação propõe que o universo, e obviamente a Terra, sejam vistos como uma sucessão de planos, aos quais poderíamos ter acesso em determinado momento, sob certas circunstâncias, e a filosofia teosófica explica que “vontade de realizar” é sinônimo de “realização de fato” em um outro plano de existência.
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O Budismo também afirma que a mente influencia a matéria. Assim, o que se chama de “projeção dos desejos” pode ser vista como o momento da criação de novas linhas de universos paralelos ao nosso. Um desejo projetado criaria um novo curso de existência, ao qual nós teríamos acesso e que funcionaria como uma fonte de instrução.
Podemos imaginar uma realidade paralela à nossa, quase idêntica, mas habitada pelos espíritos de pessoas que já passaram por este planeta, como preconiza o Espiritismo. Um exemplo marcante de um universo desse tipo foi fornecido pelo espírito André Luiz, manifestado por meio de Chico Xavier, que descreveu com detalhes impressionantes o Nosso Lar, uma cidade em um mundo semelhante ao nosso.
Esses pensamentos místicos, esotéricos ou religiosos geralmente imaginam que o contato com os universos paralelos pode ser mais ou menos difícil, dependendo das circunstâncias e de quem esteja envolvido. No entanto, para alguns, a existência desses mundos poderia explicar uma série de fenômenos verificados em nosso planeta ao longo dos séculos e que se mantêm como um mistério.
Em tempos mais recentes, alguns ufólogos levantaram a hipótese de que os OVNIs viriam de uma dimensão ou mundo paralelo, chegando ao nosso planeta através de passagens que uma ciência mais desenvolvida conseguiria abrir. Alguns chegaram a relacionar essa ideia aos relatos mais recentes ligados ao que alguns chamaram de ufologia mística. Não são poucas as pessoas ligadas a essas linhas de pensamento que afirmaram terem visto passagens se abrindo no céu, ou em montanhas, como portas para outros mundos.
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Muitas crenças afirmam que existem sete planos de existência em torno da Terra; outras falam em números um pouco diferentes. No entanto, para a teoria dos universos paralelos, números não querem dizer muito, já que tais planos ou dimensões seriam infinitos. Pode-se imaginar que alguns estejam mais próximos de nós, o que poderia facilitar o contato e a abertura dos chamados portais dimensionais. O acesso a esses universos poderia se dar, por exemplo, por meio de projeções astrais, visões e sonhos proféticos.
Existem relatos de pessoas que afirmam terem visitado cidades em outras dimensões, muitas vezes habitadas por extraterrestres, às quais apenas alguns poucos privilegiados poderiam ter acesso. Fala-se em “limpeza mental” ou “pureza de alma e intenções” como características necessárias para se ter acesso a essas dimensões, mas também se diz que estaríamos mais próximos da verdade se falarmos de capacidades psíquicas mais desenvolvidas, que permitiriam algumas pessoas enxergarem o que a maioria não consegue.
Não faltam aqueles que consideram a oração como um instrumento para abrir passagens a outros níveis, da mesma forma que nos contatos com extraterrestres cita-se a “elevação do nível vibratório” como condição indispensável. Os hindus dizem que os mantras são a chave para alcançar realidades diferentes da nossa, ao passo que outros grupos preferem usar técnicas de relaxamento. Os caminhos são tantos que acabam até se confundindo. Seria preciso uma discussão mais aprofundada da questão, talvez com a participação de cientistas de diversas áreas, para separar o joio do trigo.
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A literatura tem registrado uma série de casos insólitos ao longo dos anos, alguns ligados à possível existência de universos paralelos e sua comunicação com o nosso mundo. Segundo algumas abordagens, fadas, gnomos, duendes, elfos, dragões e demais seres considerados mágicos poderiam ser habitantes de um ou mais desses mundos mais próximos. De tempos em tempos, uma passagem dimensional possibilitaria que nós os víssemos de relance, ou permitiria que eles viessem à Terra para cumprir alguma função.
O escritor de ficção científica Clifford D. Simak chegou a desenvolver o tema em inúmeros livros, sustentando ideias interessantes. Uma delas refere-se à possibilidade de que, em uma época distante, o mundo dos homens e dos duendes era um só. Com o tempo e a crescente propensão humana para o materialismo, as duas realidades foram se distanciando, dificultando o acesso e contato entre si.
Em várias regiões do planeta surgiram relatos de pessoas que viram, durante alguns instantes, um local que não pertencia a Terra, ou pelo menos não a Terra que nós conhecemos. Diz-se que, no deserto do Arizona, alguns viajantes vislumbraram o que parecia ser a miragem de uma cidade fantástica, um fenômeno semelhante à pirâmide vista no chamado Triângulo das Bermudas, ou da ilha de San Brandan, que se diz que costuma aparecer e sumir em locais diferentes do oceano. São tantas as histórias do gênero que o relato pormenorizado de todas ocuparia vários livros, para não falar das discussões teóricas sobre o assunto.
Seja como for, é possível que, como disse Brian Stableford, essas noções mais antigas tenham influenciado as histórias de ficção científica, talvez tanto quanto a mecânica quântica.