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CIDADES DOMINADAS
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FILMES/VE Mil Cidades
autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data15/1/2016 19:07:08
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resumoUma cidade pode estar dominada por praticamente qualquer coisa. Pode ser um Mal ancestral e absoluto, ou um Mal específico. Podem ser alienígenas ou os malditos terráqueos. Ou a própria Morte.


Ao pensar em uma cidade dominada por algum tipo de criatura ou criaturas, por um terror que se embrenha na própria estrutura da cidade ou na consciência e imaginação de seus cidadãos, é possível pensar em dezenas de histórias de terror, uma vez que uma das características do gênero é o domínio e/ou destruição e transformação das coisas e pessoas; é o controle, com as mais variadas finalidades, ou até sem finalidade alguma. Mas as cidades dominadas também surgem aos montes na ficção científica e na fantasia, e aqui vamos expandir o conceito de dominação, abrangendo também o perigo diante de situações para as quais não se encontra uma solução imediata aparente.

A Destruição de Sodoma e Gomorra (John Martin, 1852).

Se formos falar das primeiras histórias desse tipo, basta lembrar a Bíblia: Sodoma e Gomorra eram cidades dominadas pelo pecado, pelo mal absoluto, de acordo com o texto religioso. No Gênesis, não bastasse Deus ter inundado a Terra e dispersado as pessoas pelo planeta devido à construção da Torre de Babel, cada um falando uma língua incompreensível para os demais, ele ainda fez cair uma chuva de fogo e enxofre sobre as duas cidades pecadoras, torrando todo mundo.
Assim, imagina-se que o conceito de uma cidade ser dominada por algo, por alguém, por uma ideia ou por atitudes específicas, não é nada novo.

No cinema, um dos primeiros, senão o primeiro exemplo é Die Pest in Florenz (1919), dirigido por Otto Rippert, com roteiro de Fritz Lang. A história foi adaptada do conto A Máscara da Morte Vermelha, de Edgar Allan Poe, mas com muitas alterações. Traz o que os críticos chamam de a primeira mulher fatal, a femme fatale, que Lang utilizaria em vários de seus filmes. No caso, ela seduz o governante da cidade (Florença) e seu filho. O resultado é que o filho mata o pai e domina a cidade, transformando as igrejas em locais de sexo desenfreado. Ao final, a Morte chega à cidade e elimina todos seus habitantes, pobres e ricos, com a praga.

Marga Kierska, como a mulher fatal, e Theodor Becker, como o monge franciscano que também cai sob seu feitiço, em Die Pest in Florenz (Decla-Bioscope).

Outro exemplo pode ser a misteriosa e aterradora burocracia de O Castelo (Das Schloss, 1926), de Franz Kafka, que apresenta o personagem K., que chega a uma vila dominada por um imenso castelo, o centro do poder e que mantém as tradições e um sistema de castas rigoroso. Existem muitas interpretações possíveis para a história, especialmente porque Kafka não chegou a terminar a obra, mas não há dúvida sobre o controle que o sistema burocrático exerce sobre a população local, a ponto de certos assuntos e formas de se expressar serem tabus.
Mas é a partir da literatura e do cinema fantástico dos anos 1950 que os exemplos de cidades dominadas aumentam, a começar por Os Invasores de Corpos (The Invasion of the Body Snatchers, 1955), livro de Jack Finney, com a história já clássica de alienígenas que chegam à cidade de Mill Valley, na Califórnia, na forma de esporos que se transformam em vagens gigantes que se transformam no corpo de humanos, porém com a mente de alienígenas.
A história teve recepções variadas pela crítica, geralmente devido a problemas no desenvolvimento da história e dos personagens. Já em The Science Fiction Encyclopedia, John Clute ressalta o fato de que a história tem a ver com a perda da liberdade na sociedade moderna.


Vampiros de Almas (Allied Artists).

Na verdade, o filme baseado no livro e dirigido por Don Siegel no ano seguinte, Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers), acabou se tornando mais famoso que o livro e, para falar a verdade, muito melhor. Na mesma The Science Fiction Encyclopedia, escrevendo sobre o filme, John Brosnan e Peter Nicholls dizem que, possivelmente, esse é o “filme B” mais discutido na história do cinema americano. Em Dança Macabra (Danse Macabre, 1981), Stephen King lembra que o filme foi primeiramente considerado anti-McCarthy – referindo ao senador Joseph McCarthy, que iniciou uma caçada a comunista que se tornou famosa nos EUA dos anos 1950. Mas isso só durou, segundo Stephen King, “até que alguém atentou para o fato de que a ideologia política de Siegel tinha pouco de esquerdista. Então, começaram a vê-lo como um filme de extrema direita”. E pode até ser, ainda que King continue dizendo que “bem aqui dentro, eu não acredito de forma alguma que Siegel estivesse investido de um objetivo político quando fez o filme. (...) Acredito que ele estivesse apenas produzindo um veículo de diversão e os meios-tons... simplesmente aconteceram”.


Kevin McCarthy, aterrorizado em Vampiros de Almas (Allied Artists).

Walter Mirisch, um dos produtores executivos do filme, afirmou em sua autobiografia (I Thought We Were Making Movies, Not History) que nenhum dos envolvidos no filme, incluindo o diretor Don Siegel, produtores e roteiristas – entre eles o futuro diretor Sam Peckinpah – viu o filme como algo mais do que um thriller. Em entrevista concedida a Alan Lovell em 1975, Don Siegel reforçou essa declaração, dizendo que as referências ao senador McCarthy e ao totalitarismo eram inevitáveis, mas que ele tentou não enfatizar isso por entender que os filmes são feitos, antes de mais nada, para entreter, e ele não queria discursar.
Os meios-tons a que Stephen King se referiu aconteceram de tal maneira que, ainda hoje, resistem diferentes interpretações para o filme. Já distante da paranoia comunista dos anos 1950, é ainda mais fácil encontrar interpretações que se distanciem de uma visão política.
No filme, a cidade muda de nome para Santa Mira, e a invasão que toma conta da cidade é narrada em flash-back pelo médico local, Dr. Miles Bennell (Kevin McCarthy, sem relação com o senador). Na época, muitas invasões alienígenas do cinema foram vistas como mensagens contra o comunismo, e certamente algumas eram isso mesmo, mas basicamente é a versão cinematográfica de um tema recorrente na literatura de ficção científica envolvendo alienígenas, invasores ou não. Trata-se da dificuldade em definir com exatidão o que é e o que não é humano, tema que se estende apropriadamente às histórias de robôs e androides. E também se refere à possibilidade de se perder a condição humana, o que inclui a perda da individualidade e de sua própria identidade. Nesse último quesito, Philip K. Dick teve aproximações mais interessantes, mas ainda assim o filme de Don Siegel é aterrorizante e muito, mas muito bem realizado.


O doutor Bennell e sua namorada fogem da multidão alienígena, em Vampiros de Almas.

O doutor Bennell defende sua condição de ser humano com unhas e dentes, mesmo quando seus amigos convertidos à “não-emoção” que caracteriza os invasores, lhe dizem que se trata de uma existência muito melhor. Muito do terror existente no filme vem desse confronto entre o emocional e a absoluta ausência desse aspecto, que também pode se estender para o medo do desconhecido, de uma transformação tão radical que sequer conseguimos imaginar. Uma das cenas mais poderosas do filme ocorre quando Bennell beija sua namorada Becky Driscoll (Dana Wynter), quando estão escondidos no fundo de uma mina abandonada, e seu rosto se transforma lentamente, assumindo a expressão do mais puro terror ao perceber que ela não retribui o beijo, pois já está transformada.


O doutor está prestes a descobrir que sua namorada já era, inevitavelmente transformada em uma extraterrestre sem emoções.

A história tem tanta força que foi refilmada em 1978, 1994 e em 2007. A primeira refilmagem, Invasores de Corpos (Invasion of the Body Snatchers), teve direção de Philip Kaufman e a presença de Donald Sutherland, Veronica Cartwright e Leonard Nimoy, além de participações especiais do diretor Don Siegel como um taxista e do próprio Kevin McCarthy, o herói do filme original, que aparece numa rua tentando alertar as pessoas sobre a invasão alienígena, ainda desesperado como estava em 1956. A locação sai da pequena cidade e vai para São Francisco.
O filme recebeu algumas críticas bem negativas na época, revistas nos anos posteriores, e apresenta uma abordagem diferente, às vezes com imagens surrealistas e um final mais pessimista do que o original.


Leonard Nimoy, Donald Sutherland e Jeff Goldblum, em Invasores de Corpos (Solofilm/ Warner Home Video).

A versão de 1994, Os Invasores de Corpos (Body Snatchers), foi dirigida por Abel Ferrara. Muda a locação para uma base militar, o que não serve para o propósito desta matéria, mas ainda assim é um bom filme. A terceira refilmagem, Invasores (The Invasion), foi dirigida por Oliver Hirschbiegel e James Mc Teigue (não creditado), com Nicole Kidman no papel principal. A história leva a invasão de volta à cidade (e ao mundo), mas não chega à altura das versões anteriores. Como qualquer versão atual de filmes mais antigos, tem muita ação, perseguições, efeitos visuais mirabolantes e explosões, mas não é dada muita atenção à história em si.

O ano seguinte à apresentação de Vampiros de Almas viu o lançamento de dois livros que são ótimos exemplos de cidades dominadas (ou, talvez, pequenas cidades, ou vilas): Marionetas Cósmicas (The Cosmic Puppets), de Philip K. Dick (quem ainda não é familiarizado com as edições de Portugal, não se surpreenda com o “marionetas” do título em português), e A Aldeia dos Malditos (The Midwich Cuckoos), de John Wyndham.
O livro de PKD mostra o autor já enveredando pelo terreno da religião, misticismo e espiritualidade na qual iria trafegar com maior intensidade em livros como Ubik, Valis e A Invasão Divina. E, apesar de apresentar as duas forças opostas que dominam uma cidade como sendo Ormuzd e Arimã – que são ligadas ao Zoroastrismo – o autor trabalha com as noções gnósticas que iriam atingir seu ápice após os eventos ocorridos na vida pessoal de PKD em 1974.
Basicamente, PKD imagina que o mundo não é exatamente como imaginamos, ou como o vivenciamos, e que existem realidades ocultas, poderes que dirigem o mundo como se fossem Deus, mas que não são. E, como em outras de suas obras, surge uma pessoa capaz de ver através das mentiras elaboradas e construídas por esse poder, ou poderes, para nos manter no desconhecimento. Aqui, Arimã, o mal, chegou a “construir” uma cidade que ocupa o lugar da cidade original, que a substitui, mas sem conseguir apagá-la por completo da realidade.
O livro de John Wyndham retoma o tema da invasão alienígena. O centro da ação é a aldeia de Midwich, na Inglaterra, à qual chega uma nave alienígena que vai originar todos os eventos posteriores. É uma ideia interessante, a de que os invasores que vão dominar a aldeia ainda vão nascer, de mulheres terrestres, impregnadas de alguma forma desconhecida para os humanos.


A Aldeia dos Amaldiçoados (MGM).

A história teve duas versões para o cinema. Em 1960, Wolf Rilla dirigiu A Aldeia dos Amaldiçoados (Village of the Damned); em 1995 foi a vez de John Carpenter, com A Cidade dos Amaldiçoados (Village of the Damned). A versão mais recente, apesar da presença de John Carpenter, foi um fracasso e não conseguiu atingir a mesma dramaticidade do filme de 1960.


 A Cidade dos Amaldiçoados (Universal).

Ray Bradbury sempre foi visto por parte da crítica como um dos principais nomes da ficção científica, muitas vezes apontado como “o poeta” do gênero, apesar de suas histórias terem uma tendência mais para a fantasia do que a fc propriamente dita. E é em uma de suas melhores histórias de fantasia e terror – Algo Sinistro Vem Por Aí (Something Wicked This Way Comes) – que ele apresenta uma cidade sendo dominada.
O livro muitas vezes é apresentado como uma alegoria a respeito da luta entre o Bem e o Mal, assim como uma história sobre a transição da infância para a vida adulta, um tema recorrente nas histórias de fantasia e terror de Bradbury. E foi, no geral, bem recebido pela crítica, alguns entendendo tratar-se do melhor trabalho do autor, outros, nem tanto; Joe R. Lansdale, por exemplo, em Horror: 100 Best Books, entende que O País de Outubro é superior a Algo Sinistro Vem Por Aí. Já para Stephen King, pode ser que se trate de seu melhor livro, ainda que ele pondere que provavelmente não é seu melhor trabalho: “acredito”, escreve King, “que ele sempre considerou o romance uma forma difícil de trabalhar”, referindo-se aos inúmeros e excepcionais contos que Bradbury escreveu ao longo de sua carreira. E ele também discorda da descrição da obra como sendo alegoria: “Bradbury, na verdade, só toma uma direção de alegoria em sua ficção científica. Em sua fantasia, suas preocupações foram com o tema, personagens, simbologia...”.


O circo chega à cidade, em O Tempo das Tentações (Walt Disney Productions/ Bryna Productions/ Buena Vista Distribution).

O livro foi adaptado para o cinema em 1983, com o título O Templo das Tentações (Something Wicked This Way Comes), com direção de Jack Clayton, com roteiro do próprio Bradbury e produção da Walt Disney Productions. E não foi um sucesso de bilheteria. Não chega a captar o clima de fantasia e, principalmente, de terror existente no livro, mas não é um filme ruim.

Capa da primeira edição de Passport to Eternity (Berkley Books).

Em 1963, J.G. Ballard publicou o sensacional livro de contos Passaporte para o Eterno (Passport to Eternity), do qual podemos destacar a história Torres de Vigia (The Watch Towers) como um exemplo de uma cidade dominada pelo medo e paranoia.
As torres do título são imensas e ficam suspensas por cima de uma cidade. Os habitantes não sabem o que elas são ou qual seu significado. Às vezes, conseguem perceber uma movimentação intensa nas janelas das torres, como se muitas pessoas estivessem observando a vida embaixo. O clima na cidade é de tensão e temor constantes e, quando ocorre a maior movimentação nas torres, as atividades da cidade são drasticamente reduzidas; o cinema é fechado, as aulas nas escolas são suspensas. As atividades da cidade são controladas por um Conselho que emite decretos e leis que beiram a paranoia.
O único que tenta fazer algo que vá contra as leis estabelecidas é um professor, decidido a realizar um baile público, mesmo sem a autorização do Conselho, que dá a entender que mantém uma ligação direta com as torres. Só que tudo muda repentinamente, quando as pessoas parecem não mais se preocupar com a presença das torres; elas simplesmente não mais conseguem ver as torres, e sequer têm lembrança delas terem existido, como se suas memórias tivessem sido apagadas ou modificadas.
Como outros contos do livro, este também lida com experiências de caráter psicológico, ainda que jamais fique claro se existe mesmo uma experiência sendo realizada, ou se ela é com toda a comunidade ou só com o professor. Qualquer que seja a interpretação possível – e podemos até mesmo pensar que os habitantes das torres não são humanos – o que sobressai na história é o clima de opressão e o absurdo presente em cada momento, com o personagem do professor como o indivíduo que tenta encontrar caminhos e explicações lógicas numa situação totalmente ilógica.

A pequena cidade de Bodega Bay, ao norte de São Francisco, na Califórnia, foi o cenário de uma dominação totalmente diferente, no mesmo ano de 1963. Ela é o cenário do excepcional Os Pássaros (The Birds), de Alfred Hitchcock. O filme é uma adaptação de um conto da escritora inglesa Daphne Du Maurier (1907-1989), As Aves (The Birds), no qual a ação situa-se na Inglaterra. O conto foi publicado originalmente em 1952, e no Brasil o livro saiu com o título Beija-me Outra Vez, Desconhecido (The Apple Tree. Editora Mérito, 1953).


Os Pássaros (Universal).

Hitchcock já havia adaptado histórias da autora; em 1939, com A Estalagem Maldita (Jamaica Inn, do livro publicado em 1936); e em 1940, com o filme Rebecca, a Mulher Inesquecível (Rebecca, do livro com o mesmo título publicado em 1938, e que foi um gigantesco best-seller). Daphne Du Maurier ainda teve outra história sua adaptada para o cinema por Nicolas Roeg, com o excepcional Inverno de Sangue em Veneza (Don’t Look Now, 1973, do conto com o mesmo título, publicado no livro Not After Midnight, em 1971).


Os Pássaros (Universal).

A transposição para a pequena cidade californiana funcionou bem, criando um ambiente de terror que segue muito de perto o que a autora propôs no conto. Não existe qualquer tentativa de explicação para o comportamento das aves que começam a atacar as pessoas, agrupando-se, mesmo sendo de espécies diferentes, como se houvesse uma inteligência agindo a seu favor, coordenando ações a ataques.
Hitchcock também concentrou a ação em uma família, como fez Du Maurier, e igualmente deixou o final da história em aberto. A cena final de Os Pássaros está entre as mais enigmáticas do cinema moderno, com Bodega Bay e, imagina-se, o resto do planeta, cercado por aves de todos os tipos, esperando sabe-se lá que ação a ser tomada; se a continuação dos ataques a humanos ou o fim das hostilidades. O tom no final do conto é de que as coisas não vão parar, mas no filme é impossível saber.


A imagem final enigmática de Os Pássaros (Universal).

Os conceitos de campo de força e de cidades ou construções protegidas por domos já vinham sendo utilizados pela ficção científica desde os anos 1930, com maior ou menor eficiência e importância para as histórias.
Nos anos 1960, esses conceitos surgem em algumas histórias que nos interessam, como em As Flores Que Pensam (All Flesh is Grass, 1965), livro de Clifford D. Simak cujo título original em inglês reproduz uma passagem da Bíblia (“Porque toda carne é como a erva”). A história situa-se na pequena cidade de Milville, no interior dos EUA, que repentinamente fica cercada por um campo de força invisível que impede as pessoas de saírem do local. Trata-se de uma tentativa de comunicação por parte de seres extraterrestres, na verdade, flores com capacidade mental elevada, um organismo coletivo cujas raízes estendem-se por todo seu planeta natal, e que desejam mais espaço para viver. Elas precisam de tecnologia, uma vez que não têm mãos, e em troca fornecerão novos conhecimentos aos humanos. Na verdade, a barreira que elas criaram é uma espécie de “bolha no tempo”, criando uma ponte entre dois mundos paralelos.
Em 1966, foi a vez do diretor Arch Oboler oferecer sua versão para uma cidade cercada por um campo de força, no fraquinho Odisseia Extraterrestre (The Bubble), no qual ele faz uma nova tentativa de emplacar seu sistema de filmagem 3-D, chamado Space Vision, que já tinha sido abandonado pela maioria das produtoras. Oboler não apenas dirige, mas produz, escreve o roteiro e é o responsável pelos fracos efeitos especiais. Aqui, mais uma vez uma cidade é cercada por um escudo de força que impede que as pessoas abandonem o local. Três pessoas que são obrigadas a pousar seu avião nas proximidades encontram a cidade habitada por pessoas apáticas, como zumbis, dominadas por uma raça extraterrestre com intenções nada boas.
Três definições de Michael Weldon, em seu The Psychotronic Encyclopedia of Film, dão uma boa ideia do que se esperar do filme: “Menos dinheiro e um elenco melhor teriam ajudado um bocado”; “É como um episódio mais longo de Além da Imaginação para o qual não conseguiram encontrar um final”; “Recomendado apenas para fãs pacientes de filmes 3-D ruins”. E como o “campo de força” que cobre a cidade é uma bolha (ou domo), o efeito 3-D foi batizado por algumas pessoas como “Bubblevision”.

Odisseia Extraterrestre (Midwestern MagicVeurs/ Arch Oboler Prod.)





Essas duas utilizações de um campo de força não chegam nem perto da excelente caracterização utilizada por Stephen King em seu Sob a Redoma (Under the Dome), escrito e desenvolvido com maior competência, com um enredo que lida com o isolamento das pessoas e suas respostas a isso, além de conter fortes elementos políticos. King chegou a comentar que o livro contém críticas ao governo Bush, à guerra na qual o governo se envolveu e, principalmente, à incompetência dos governantes. Ao reduzir o ambiente para uma pequena cidade dos EUA, cercada por um domo de energia impenetrável, ele conseguiu ampliar as qualidades, negativas e positivas, das pessoas envolvidas em uma obsessiva luta pelo poder que, pelas condições de isolamento, se transforma em uma luta pela sobrevivência.
Infelizmente, Stephen King concordou com uma adaptação do livro para um seriado de televisão simplesmente horroroso que começou a ser apresentado em 2013 e não manteve o mesmo tipo de desenvolvimento que o autor propôs, perdendo grande parte do impacto do livro. É sabido que qualquer adaptação de um livro ou conto para o cinema ou televisão precisa passar por adaptações, às vezes rigorosas, uma vez que se trata de um veículo e, muitas vezes, de um público diferente. Mas não é o caso de Under the Dome. Confesso que mal consegui sobreviver à primeira temporada, e desisti de assistir depois disso. É incrível que o seriado tenha resistido a três temporadas (foi cancelado em agosto de 2015), enquanto séries muito superiores não tenham aguentado sequer a primeira.

Under the Dome (Amblin Television).
Stephen King provavelmente está entre os escritores de terror e ficção científica com o maior número de histórias adaptadas para o cinema ou para a TV. Muitas delas foram bastante contestadas, tanto pela crítica quanto pelos fãs. Mas duvido que alguma tenha sido uma adaptação tão funesta quanto a de Under the Dome.
Não se trata apenas de uma péssima adaptação com interpretações ruins, às vezes beirando o ridículo. Trata-se de uma total subversão da história, não apenas de seus objetivos mais definidos, mas dos próprios personagens. O mais inacreditável nisso tudo é que o próprio Stephen King assina como um dos produtores executivos, ao lado de Steven Spielberg.

Uma situação totalmente diferente e divertida, ainda que com uma boa dose de drama, é a do excelente filme Esse Mundo é dos Loucos (Le Roi de Coeur, 1966), dirigido por Philippe de Broca, com Alan Bates, Jean-Claude Brialy, Geneviève Bujold e Adolfo Celi.


Alan Bates e Geneviève Bujold em Esse Mundo é dos Loucos (Les Productions Artistes Associés).

A ação se passa na pequena cidade de Marville, na França, ao final da I Guerra Mundial. Os alemães, em retirada, deixaram uma bomba na cidade, e todos os habitantes fugiram. Alan Bates interpreta o soldado relutante enviado para a cidade por seu superior para encontrar e desarmar a bomba, mas tem de fugir dos alemães e se esconde no asilo, onde os doidaços afirmam que ele é o “rei de copas”. Eventualmente, os internos saem do asilo e ocupam as casas vazias da cidade.


Os moradores do asilo e da cidade, em Esse Mundo é dos Loucos.

A discussão interessante proposta no filme é sobre o que é ou não é loucura, como podemos definir quem é insano e quem é são. O cenário da guerra é propício para a discussão, considerando a destruição e matança ocorridas. É um filme muito legal que, na época em que foi apresentado na França, não foi um grande sucesso, mas nos anos seguintes acabou ganhando o status de filme cult e atraindo muitos espectadores.

Também questionando os limites entre normalidade e anormalidade, a imaginária cidade de Itaguaí, no interior do Rio de Janeiro, foi a sede do manicômio Casa Verde, em O Alienista (1882), de Machado de Assis.
O asilo foi fundado pelo Dr. Simão Bacamarte, que retornou ao Brasil após estabelecer uma carreira na Europa.
Dedicando-se à psiquiatria, ele promove uma verdadeira revolução na cidade, internando pessoas pelos motivos mais banais, chegando ao ponto de internar 75% da população. Isso, é claro, antes de propor uma reviravolta em seus conceitos, entendendo que os loucos eram aqueles que apresentavam comportamentos estáveis, liberando os internos e começando a internar outras pessoas.
No final, ele entende que a única pessoa que deve ser mantida no manicômio é ele mesmo.
A história teve inúmeras interpretações por parte dos críticos e, ainda hoje, é motivo para resenhas e ensaios detalhados. Traz algumas das características da obra de Machado de Assis como o humor ácido, a ironia, a crítica social e política. Mas destaca-se mesmo a discussão sobre o que é e o que não é loucura, e como essas definições dependem de quem as elabora, de suas motivações, e do momento em que ocorrem.









Uma localidade conhecida apenas como A Vila é o cenário do seriado inglês O Prisioneiro (The Prisoner, 1968). Patrick McGoohan interpreta um agente secreto que, por razões não explicadas, abandona o serviço, mas é sedado e levado para A Vila, de localização jamais explicada. Lá, ele é tratado como Número Seis, e tem sua vida monitorado pelo Número Dois, que dirige o local e tenta obter informações do ex-agente, sem muito sucesso. Os demais “moradores” do local, a maioria aparentemente bastante satisfeita com sua condição, também não têm nomes, mas apenas números.


Patrick McGoohan, nada satisfeito com sua nova vida, em O Prisioneiro (ITV).

Número Seis também tenta fugir do local, mas A Vila tem estranhas bolas gigantes que guardam o local e impedem qualquer fuga, além de inúmeras câmeras de segurança. Número Seis fica na dúvida sobre os objetivos daquele local ou se ele é dirigido por algum governo.


Uma das mais estranhas formas de segurança de todos os tempos, em O Prisioneiro (ITV).

O seriado tornou-se um cult e, às vezes, chega a ser descrito como a melhor série de fc de todos os tempos, tendo sido apresentada no Brasil na extinta TV Tupi entre 1969 e 1970.
John Brosnan e Peter Nicholls escreveram sobre o seriado em The Science Fiction Encyclopedia, entendendo que em muitos momentos ela foi mal interpretada, pois não se trata de uma série contra a prisão e a favor da liberdade, e sim a luta de um homem forte para impedir que sua mente seja dominada. No livro The Sci-Fi Channel Encyclopedia of TV Science Fiction (1998), de Roger Fulton e John Betancourt, os autores entendem que a série é uma defesa convincente do direito de um homem de expressar sua individualidade diante de uma sociedade cada vez mais conformista; um exemplo disso é sua frase “Eu não sou um número, eu sou um homem livre”. Assim como Brosnan e Nicholls afirmaram a respeito do surrealista e último dos 17 episódios da série, a vila é uma metáfora para a prisão em que as próprias pessoas se colocam. Fulton e Betancourt escrevem que todo mundo é prisioneiro de si mesmo, confinado em sua própria fraqueza.
Uma adaptação da série foi produzida em 2009, em seis episódios, com Jim Caviezel como Número Seis e Ian McKellen como número 2, e com alterações na história. Número Seis não tem lembrança de seu nome e os habitantes da Vila, também tratados por números, não tem ideia da existência de um mundo fora dali. Alguns dos moradores, no entanto, têm flashes de lembranças de uma vida e um mundo fora dali, e começam a questionar se a vida que eles levam no local é real. A série não teve a mesma recepção da crítica, mas não é ruim, mantendo o clima de tensão, apesar de uma história mais confusa.


Ian McKellen e Jim Caviezel, em O Prisioneiro (ITV/ AMC).

Vamos falar da pequena e aparentemente simpática cidade de Stepford, nos EUA. Ela é o cenário de As Possuídas (The Stepford Wives, 1972), livro de Ira Levin que se tornou mais conhecido devido à adaptação para o cinema produzida em 1974, com direção de Bryan Forbes, e que no Brasil recebeu o título Esposas em Conflito (e também como Mulheres em Perigo). No filme, Katharine Ross é a esposa que vai com o marido (Peter Masterson) para a cidade de Stepford, deixando a vida complicada de Nova York para a idílica vidinha do subúrbio.


As mulheres "perfeitinhas" de Stepford, em Esposas em Conflito (Columbia Pic/ Paramount).

O problema é que quando ela começa a estreitar o contato com as demais esposas da cidade, também percebe que algo de estranho ocorre por ali. As mulheres são absolutamente dóceis, sem iniciativa, presas à vida doméstica sem qualquer interesse além de cuidar da casa e dos interesses dos maridos, mantendo conversas fúteis e apáticas. Ela consegue manter amizade com a única moradora local que também acabou de chegar à cidade (Paula Prentiss), e tentam mudar as coisas. Porém, repentinamente sua amiga também muda seu comportamento e torna-se tão dócil quanto as demais.


Katharine Ross em Esposas em Conflito.

A resposta está na Associação dos Homens, um clube local cujos objetivos vão muito além de reunir-se para jogar, beber e conversar; os homens simplesmente mataram as mulheres originais e substituíram-nas por androides, réplicas exatas das esposas, mas com o comportamento que os machistas consideram ideal. As últimas cenas deixam bem claro que não existe final feliz para as esposas em Stepford.
Esse é um dos inúmeros filmes que não foram muito bem de bilheteria e de críticas na época de seu lançamento, mas que conquistaram o status de cult nos anos posteriores.
Infelizmente, duas sequências absolutamente desnecessárias e muito ruins foram produzidas para a TV: Escravidão Matrimonial (Revenge of the Stepford Wives, 1980), e Os Filhos de Stepford (The Stepford Children, 1987). Além disso, o inevitável remake de 2004, Mulheres Perfeitas (The Stepford Wives), com direção de Frank Oz, e Nicole Kidman e Matthew Broderick como o casal que se muda para Stepford. O enredo segue basicamente o mesmo do filme original, ainda que Kidman interprete uma bem, sucedida presidente de uma rede de televisão que cai em desgraça e perde seu emprego. Ela encontra o mesmo ambiente de esposas dóceis e fúteis, e descobre que todas elas tinham sido grandes empresárias, com cargos importantes.


Mulheres Perfeitas (Paramount/ DreamWorks H.E.).

O final foi modificado, para pior, diga-se de passagem. O que originalmente era uma história aterrorizante de ficção científica foi transformado no que os produtores chamaram de um “thriller cômico”, ou “uma verdadeira comédia americana que propõe um olhar subversivo e cômico ao consumismo desmedido e à busca pela perfeição”. De fato, é possível perceber que essas intenções estão presentes em alguns elementos e/ou momentos do filme, mas o objetivo final perdeu-se. O resultado é que nem é uma comédia, nem um thriller e, com a indefinição, perdeu-se igualmente qualquer profundidade nas críticas.


Nicole Kidman, em Mulheres Perfeitas. 


E que tal as cidades dominadas pela vingança? No caso, a vingança chegando à cidade em formas aterradoras. Uma delas na figura de Clint Eastwood, em O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1973), filme que ele não apenas dirige, mas também interpreta um pistoleiro vindo do Além para pôr seus assuntos em dia na pequena cidade de Lago.


Clint Eastwood, pronto para detonar a cidade, em O Estranho Sem Nome (Universal).

Ele não tem nome, sendo chamado apenas de O Estranho. Ele chega à cidade num momento em que seus habitantes estão apavorados com a iminente chegada ao local de três bandidos que serão soltos da prisão e pretendem vingar-se dos habitantes que foram responsáveis por sua prisão, após eles terem assassinado o xerife local. Ocorre que os moradores queriam que o xerife fosse morto, pois ele tinha descoberto atividades ilegais dos poderosos da cidade.
Eles resolvem contratar o pistoleiro para enfrentar os bandidos, mas logo descobrem que talvez não tenha sido a melhor ideia do mundo, uma vez que O Estranho transforma suas vidas num inferno. Na verdade, Inferno é o nome que ele pinta por cima da placa com o nome da cidade, antes de ir embora deixando os moradores abandonados à sua própria sorte.


A cidade transformada em inferno, em O Estranho Sem Nome.

Não existe nenhuma explicação explícita, mas fica implícito que O Estranho é o próprio xerife assassinado, retornando do inferno, ou de algum lugar do Além, para vingar-se daqueles que permitiram que ele fosse brutalmente torturado e assassinado. É um filme excelente, ainda que tenha recebido algumas duras críticas na época de seu lançamento.

Outra vingança do Além atinge a cidade litorânea de Antonio Bay, em A Bruma Assassina (The Fog), filme dirigido por John Carpenter em 1979, cuja história ele repetiu em 2005, produzindo A Névoa (The Fog), dessa vez com direção de Rupert Wainwright.


A vingança chega do Além, em A Bruma Assassina (AVCO Embassy/ Universal).

A Bruma Assassina foi um dos filmes que ajudaram a construir a fama de Carpenter como um dos mais importantes diretores de filmes de terror e ficção científica de seu tempo, fama às vezes plenamente justificada, outras, nem tanto.
Eventos estranhos começam a se verificar na cidadezinha no momento em que ela vai completar 100 anos de idade, e fica-se sabendo que ela foi construída depois que alguns dos fundadores afundaram e roubaram o ouro de um navio que passava pelas proximidades. Não demora muito para que uma estranha névoa avance do mar, encobrindo a cidade e escondendo os seres que vêm com ela para vingar-se nos descendentes dos fundadores e reclamar seu tesouro. É um filme razoável, menos explícito e violento do que a média dos filmes de terror de sua época. O mesmo não se pode dizer do remake que, apesar de apresentar basicamente a mesma história, é bem inferior ao original, para não dizer que é totalmente desnecessário.


Casei-me com um Monstro (Paramount).



Alienígenas invadindo e tomando conta de cidades é um tema constante na ficção científica. E, muitas vezes, eles assumem a aparência dos humanos, só para nos ferrar. Foi assim em Casei-me Com Um Monstro (I Married a Monster From Outer Space, 1958), um daqueles títulos deliciosos dos filmes dos anos 1950.
Como tantos outros do período, chegou a ser visto por alguns críticos como um exemplo da paranoia anticomunista da época, mas também foi recebido como uma paródia ou uma tentativa surrealista de observar o casamento e as relações sexuais. Tom Tryon – que mais tarde escreveria o excelente livro de terror Os Gêmeos – é o sujeito que, às vésperas de seu casamento, é raptado por aliens e levado para a nave deles, estacionada próxima à cidadezinha onde mora. Ele é trocado por uma cópia igualzinha, ou quase, mas sua noiva/esposa percebe que algo está errado. O que será?
Os extraterrestres vieram para cá para encontrar mulheres para gerar seus filhos, pois seu planeta está moribundo – uma premissa repetida muitas vezes nos filmes dos anos 1950/ 60 e, para falar a verdade, sem sentido, quando encarada do ponto de vista biológico. Logo a esposa percebe que seu marido não é o único “estranho” na cidade. O filme tem boas filmagens e fotografia, graças ao trabalho do diretor e produtor Gene Fowler Jr., que trabalhou como editor com Fritz Lang, e também graças aos efeitos especiais de John P. Fulton, um dos pioneiros na área, responsável pelos efeitos dos clássicos Frankenstein (1931) e O Homem Invisível (1933).








Estranhos Invasores (EMI Films).


Outra cidade onde os extraterrestres fizeram a festa foi Centerville que, em 1958, foi invadida pelos caras do espaço, em Estranhos Invasores (Strange Invaders), dirigido por Michael Laughlin em 1983. O filme seria o segundo de uma trilogia que ele chamou de “Strange”, iniciada com Massacre Brutal (Strange Behavior, 1981), e jamais finalizada.
Estranhos Invasores foi planejado como uma homenagem aos filmes de fc dos anos 1950, e ao longo da história podemos encontrar referências ao já citado Casei-me Com um Monstro, Veio do Espaço (1953) e O Dia em que a Terra Parou (1951). Nos anos 1980, a cidade que invadiram continua igual ao que era quando eles chegaram, mas um homem da cidade grande (Paul Le Mat) descobre que a mulher com quem se casou é na verdade uma das alienígenas, que tinha saído da cidade. É uma boa produção, realizada com pouco dinheiro, mas com bons efeitos e maquiagens.









Extraterrestres malvadões e extremamente sacanas, além de mais efetivos, são os de Eles Vivem (They Live, 1988), de John Carpenter, baseado no conto Eight O’Clock in the Morning (1963), de Ray Nelson, publicado em The Magazine of Fantasy and Science Fiction. A mesma história foi adaptada por Ray Nelson e pelo artista Bill Wray como a graphic novel “Nada”, em 1986, publicada na antologia Alien Encounters.
Por acaso ou não, Ray Nelson (Radell Faraday Nelson) chegou a escrever um livro em conjunto com Philip K. Dick em 1967, The Ganymede Takeover. E citei isso porque a história de Eles Vivem diz respeito ao fato de o mundo não ser exatamente o que pensamos, ou o que o personagem central pensava, um tema recorrente na obra de PKD.


A verdadeira face dos invasores, em Eles Vivem (Universal/ Larry Franco Prod.). A mensagem na placa é bem clara e subliminar: obedeça.

É um dos bons trabalhos de John Carpenter, aproveitando o conto para apresentar uma crítica mordaz, porém engraçada, à sociedade de consumo e à busca pelo poder. Segue a inesperada aventura de John Nada (Roddy Piper), um desempregado que consegue um trabalho em uma construção em Los Angeles. Um amigo leva-o até uma favela próxima a uma igreja, onde são servidas sopas para os indigentes. Ele acaba percebendo que a igreja é o centro de uma espécie de resistência, e em seu interior existem aparelhos de transmissão e uma caixa repleta de óculos.
E são os óculos que mudam sua vida. Eles têm a estranha propriedade de mostrar o mundo como ele realmente é, ou seja, que existem milhares de alienígenas vivendo na cidade, e em todo o planeta, disfarçados como humanos. Quando usa os óculos, a verdadeira face dos extraterrestres é revelada, e não é nada agradável.


Roddy Piper, descobrindo a verdade do seu mundo, em Eles Vivem.

O que se fica sabendo é que um grupo de empresários extraterrestres tomou conta do planeta e tratam-no como o seu terceiro mundo, exaurindo todos os recursos sem compaixão. Hipnotizam os humanos por meio de transmissões de TV e mensagens subliminares, de modo que os terrestres não podem perceber o que acontece. As mensagens subliminares surgem em todo tipo de produtos, cartazes, livros, discos e até nas cédulas de dinheiro, sempre levando o povo a obedecer, não questionar, procriar e manter-se submisso.


As mensagens subliminares de conformismo e obediência, em Eles Vivem. 


Duas pequenas cidades dos EUA foram dominadas por seres ancestrais: Snowfield, no livro Fantasmas (Phantoms, 1983), de Dean R. Koontz; e Derry, em A Coisa (It, 1986), de Stephen King.
O livro de Dean Koontz traz um tema semelhante ao de Stephen King, mas não tão bem desenvolvido. Também tem alguma proximidade com o sensacional Cerimônias Satânicas (The Ceremonies, 1984), de T.E.D. Klein, e todos esses livros são inspirados, em maior ou menor grau, pelas obras de Arthur Machen e H.P. Lovecraft.
Fantasmas faz referência à existência de um ser que, além de malévolo, tem idade incalculável, e habita os subterrâneos da cidade. Uma jovem médica, natural da cidade, retorna para lá com sua irmã adolescente, mas logo descobrem que todos os moradores estão mortos. Claro que foi o ser terrível que habita os subterrâneos e que tem a capacidade de assumir a forma que bem entender.
O ser em questão alimenta-se de seres humanos e, segundo ficamos sabendo ao longo da história, ele vem fazendo isso há milhares, ou talvez milhões de anos. Alguns cientistas que posteriormente participam das investigações e luta contra o ser chegam a propor que se trata de uma entidade alienígena que teria chegado ao planeta muito antes do surgimento da raça humana, mantendo-se escondido, porém “alimentando-se” de tempos em tempos.

Fantasmas (Miramax/ Dimension Films).

A história foi adaptada para o cinema com Fantasmas (Phantoms, 1998), com direção de Joe Chappelle, e Peter O’Toole no elenco, como o especialista em lidar com a criatura, muito distante de seus melhores momentos, como em Lawrence da Arábia. Se o livro não chega a ser nada de espetacular, o filme consegue ser inferior.








Bem melhor é A Coisa, de Stephen King, livro no qual o autor consegue penetrar na mente infantil com uma capacidade que só igualou em sua história O Corpo (The Body), incluída na coleção Quatro Estações (Different Seasons, 1982), que foi adaptada para o cinema com o excelente Conte Comigo (Stand By Me, 1986, com direção de Rob Reiner).
Em A Coisa, King conta a história de um grupo de amigos que se inicia na cidade de Derry, em 1958, e termina no mesmo local, em 1985. Sete crianças com problemas únicos, alguns que muita gente grande teria dificuldades para enfrentar, unidas numa associação que atinge momentos mágicos. A amizade desenvolve-se para uma missão única: combater o mal que corrói as entranhas da cidade: A Coisa. Trata-se de um ser que chegou ao nosso planeta há milhares ou milhões de anos, penetrando na terra e esperando o surgimento dos seres humanos que irão alimentá-la com seus temores. Um ser que já é aterrorizante só quando pensamos na paciência com que elaborou seus planos e esperou que chegasse o momento deles se concretizarem.
Em Derry, ele desperta e começa a se alimentar, quase sempre manifestando-se com a aparência de um palhaço. Mas o terror pode assumir qualquer forma que ele desejar, penetrando na mente dos humanos e descobrindo seus segredos, seus medos, e alterando sua forma para corromper e conquistar suas presas.
A associação entre os jovens modifica suas vidas para sempre. Em 1958, superando seus problemas, combatem e pensam ter destruído o terror. Mas têm de encontrá-lo mais uma vez quando adultos. Para eles, não há alternativa. A Coisa sabe que eles fizeram um juramento, e eles sabem que não podem fugir, porque uma parte da Coisa continua vivendo com eles, e continuará enquanto o trabalho não for completado.
Mais uma vez, a influência de temas abordados por H.P. Lovecraft é visível, com Stephen King criando um monstro de idade incalculável, vindo sabe-se lá de onde, das profundezas do universo, e capaz de penetrar na mente dos humanos a ponto de enlouquecê-los. As imagens são diferentes das de Lovecraft, apesar de terem a mesma grandiosidade – mesmo porque Stephen King não costuma utilizar a mesma forma narrativa.


A forma terrestre escolhida pelo ser alienígena para aterrorizar as crianças, na versão para a TV de It/ A Coisa (Warner Bros/ Lorimar Prod.).

A história foi adaptada para a TV, com uma minissérie com mais de 3 horas de duração, que recebeu críticas que iam de medíocre a excelente. Foi dirigida por Tommy Lee Wallace e, apesar de algumas críticas nada boas. O livro continua sendo um dos melhores momentos do escritor e, como quase sempre ocorre, a adaptação televisiva não atinge a mesma qualidade, mas certamente é um bom trabalho. Falha ao não mostrar a forma gradativa pela qual a infância e juventude de cada personagem vão sendo drenadas pelo conhecimento de algo grande demais para ser encarado abertamente e, ao mesmo tempo, terrível demais para ser mantido totalmente escondido.


Os jovens de Derry, prontos para enfrentar um mal ancestral, em A Coisa (Warner Bros/ Lorimar Prod.).

Stephen King parece gostar de criar cidades dominadas pelos mais variados tipos de mal. E é assim em Trocas Macabras (Needful Things), apresentado na época do lançamento como a última história do autor situada em Castle Rock; na verdade, ele escreveu mais um conto na cidade, A Gente Se Acostuma (It Grows on You), publicado na coletânea Pesadelos e Paisagens Noturnas.
É a essa cidade que chega Leland Gaunt, inaugurando sua loja Coisas Necessárias (Needful Things). Gaunt não tem antecedentes confiáveis e ninguém sabe de onde ele veio; se de algum lugar onde reside o Mal ou se foi criado pelos próprios habitantes da cidade, do fundo de suas mentes, de certa forma atendendo a seus desejos mais secretos. O problema, e sempre tem um problema, é o que Gaunt exige em troca de atender a esses desejos.
A história de sua loja e dos negócios que ele realiza é simples. Gaunt consegue ver no fundo da alma das pessoas e descobre o objeto que elas mais desejam, aquilo que elas procuram há muito tempo, ou algo que elas já possuíram e não têm mais. Então, acena com a possibilidade de obter o que desejam, por um “precinho razoável”. Tudo o que ele deseja é que elas façam uma troca com ele, prestando alguns favores, fazendo algumas “brincadeiras” com outras pessoas, ações aparentemente inocentes, mas que criam um verdadeiro clima de guerra na cidade, com as pessoas entrando em confronto e os ódios surgindo por todos os lados. E assim Gaunt se alimenta, uma vez que o verdadeiro pagamento que sempre desejou eram essas emoções exaltadas de ódio e desejo de vingança. Ele dá as “coisas necessárias” às pessoas, que lhe devolvem o que é necessário a ele.
A história foi filmada em 1993 com o mesmo título, com direção de Fraser C. Heston, e resultados apenas razoáveis. O final é menos apoteótico que o do livro, o que até parece adequado, mas o maior problema ficou na elaboração do clima necessário e na abordagem dos problemas íntimos dos personagens, que é por onde o livro prende o leitor. E isso apesar de trazer no elenco Max von Sydow e Ed Harris.


Ed Harris e Max von Sydow, em Trocas Macabras (New Line/ Columbia).

Em Insônia (Insomnia, 1994), King retornou à já maltratada cidade de Derry, onde o palhaço de A Coisa aterrorizou as pessoas. E, como em tantos de seus livros, aqui Stephen King parte do comum, do cotidiano, para chegar ao absolutamente aterrorizante, e com frequência o leitor nem se dá conta do ponto exato em que essa transição ocorre. De repente, percebemos que existe um outro mundo, subjacente ao nosso e com o qual às vezes podemos ter contato; e muitas vezes esse outro mundo é de alguma forma composto por imagens que sempre existiram em nossas mentes, porém adormecidas, esperando que alguém abra a porta.
Em Derry vive o senhor Ralph Roberts, um homem comum, aposentado, viúvo que sofre de insônia e que, aos poucos, não só começa a perceber a aura das pessoas como começa a ter a percepção de seres que ele chama de “doutorezinhos carecas” que entram e saem da casa das pessoas carregando imensas tesouras.
Uma cena descreve uma das caminhadas de Ralph pela cidade, e mais se parece com uma viagem de LSD descrita por um jovem dos anos 1960. Ele vê tudo como energia, raios, balões e outras figuras geométricas, mudando de cor conforme o estado de saúde de cada pessoa ou conforme o estado de espírito em que se encontram.
A partir desse ponto a história poderia muito bem ser entendida como a própria alucinação de Ralph, quem sabe provocada pela falta de sono, ainda que os eventos que ocorrem sejam bem reais. Ele e sua amiga Lois, que também sofre de insônia e vê o mesmo que ele, percebem que existe um terceiro “doutorzinho”, um ser com jeito de alguma coisa ruim que foi solta no mundo e que gosta de cortar a aura das pessoas como quem corta a linha de um balão de gás. E, para aqueles que têm suas auras cortadas, não há qualquer esperança.
A história tem relação direta com a série A Torre Negra (The Dark Tower, 1982-2004/ 2012) – certamente a obra mais longa e conhecida de Stephen King – uma vez que o doutor malévolo está a serviço de ninguém menos do que o Rei Rubro, o vilão central de A Torre Negra. Assim, para quem já tem familiaridade com a série é possível entender que os acontecimentos em Derry ocorrem em níveis diferentes de realidade, em dimensões nas quais os seres humanos comuns não podem passear num domingo pela manhã.
King faz referência ao que chamou de “as quatro constantes do universo”, ou pelo menos da nossa Terra: Vida, Morte, Desígnio e Acaso. Essas constantes são representadas por seres de outras dimensões; não anjos, mas algo diferente. A Morte e o Desígnio andam juntos e não são maus. Mas o Acaso foi solto no mundo e o resultado de suas ações é imprevisível



Stephen King também apresentou uma cidade dominada pelo mal em Desespero, livro que fez par com Os Justiceiros. Porém, mais interessante é a pequena cidade dominada de A Tempestade do Século (Storm of the Century, 1999), uma minissérie com roteiro que King escreveu diretamente para a TV, sem ser baseado em qualquer história sua.
A direção é de Craig R. Baxley, que também dirigiu outros filmes baseados em obras de Stephen King, como a minissérie Rose Red – A Casa Adormecida (2002) e o alucinante seriado Kingdom Hospital (2004), este último adaptado da série Riget (1994), de Lars von Trier.
A história se passa na pequena cidade localizada na Little Tall Island, local fictício localizado na costa do Maine, no momento em que a chamada “tempestade perfeita” isola completamente a cidade do resto do mundo. A tempestade é uma metáfora para a tempestade maior e mais terrível que domina a cidade com a chegada de um ser que chama a si mesmo André Linoge, uma criatura sobrenatural que conhece todos os segredos mais profundos e terríveis dos habitantes. Ele assassina uma senhora de idade em sua residência e espera calmamente pela chegada da polícia.
Além de conhecer os segredos das pessoas, ele também tem o poder de fazer com que eles cometam atos alucinados; alguns suicidam-se sob sua influência; outros, cometem crimes. Ele sempre tem uma frase enigmática, “me deem o que quero e eu irei embora”, mas ninguém consegue entender exatamente o que é que ele deseja. O policial local percebe que seu nome é um anagrama para Legion, Legião, a horda de demônios citada em tantas histórias de terror (e na Bíblia, é claro).


André Linoge (Colm Feore), em sua forma humana, impõe suas condições aos moradores de Little Tall Island, em A Tempestade do Século (Warner Bros. Television/ Walt Disney Television/ ABC TV).

Quando a cidade fica finalmente isolada pela tempestade, Linoge reúne os moradores numa assembleia e diz que o que ele deseja é uma das crianças locais, para levar e treinar para ser seu sucessor. A natureza humana é revelada de forma dramática quando os moradores, sem ver outra solução, concordam com sua exigência e resolvem realizar um sorteio para saber qual criança será levada. O único contra isso é o policial, mas ele é dominado pelos demais moradores. E, é claro, o filho dele é o escolhido.
Essa é uma minissérie um pouco diferente de tantas outras apresentadas na TV – especialmente por ter sido apresentada no canal ABC, uma das grandes dos EUA com sinal aberto – por apresentar um final nada agradável. O policial abandona o emprego, a esposa, que concordou com o sorteio, os amigos, e vai embora da cidade, sem conseguir aceitar a opção feita pelas pessoas. Anos depois, encontra Legião e seu filho andando pelas ruas de São Francisco, com o rapaz já devidamente transformado num demônio, ou seja lá que tipo de criatura eles sejam.

Uma das cidades dominadas mais espetaculares dos últimos tempos surgiu no filme Cidade das Sombras (Dark City, 1997), dirigido por Alex Proyas, com Rufus Sewell, Kiefer Sutherland, William Hurt e Jennifer Connelly.
Quando o filme inicia, aparentemente os personagens estão numa cidade dos anos 1940, com a diferença de que é sempre noite. Além disso, logo percebemos que em determinada hora, todas as pessoas da cidade dormem, todo o trânsito cessa, nada mais se move. Depois de algum tempo, a vida recomeça como se nada tivesse acontecido, só que algumas pessoas deixaram de ser quem elas eram antes, com suas personalidades alteradas pelos seres chamadas apenas de Estranhos, que vivem nos subterrâneos da cidade e raramente são vistos pela população.


A arquitetura em constante mutação de Cidade das Sombras (New Line/ Warner H.V.).

A situação começa a mudar quando John Murdoch (Sewell) não dorme como os demais e mantém sua personalidade, graças a algo que o dr. Schreber (Sutherland) fez a ele. E Murdoch, perseguido pelos Estranhos, começa a desvendar os segredos da cidade.
Para quem ainda não assistiu ao filme, não leia mais nada a partir daqui.
Mais tarde, descobrimos que a cidade é, na verdade, uma espécie de nave gigantesca, um habitat espacial, e os Estranhos, segundo o dr. Schreber, são parasitas extraterrestres cuja existência está sob risco de extinção, utilizando-se dos corpos de alguns habitantes da cidade. Murdoch consegue reverter a situação dos humanos e dar início a uma nova existência da cidade.


Os Estranhos que controlam a vida de todos, em Cidade das Sombras.

No geral o filme recebeu boas críticas, mas foi um fracasso de bilheteria. Ainda assim, é espetacular, com cenários sensacionais e grandes interpretações de um elenco de primeira categoria. Com o passar do tempo, acabou se tornando um cult, e no ano seguinte foi indicado para os prêmios Hugo e Saturno.

E por falar em cidades espetaculares, ainda que estranhíssimas, o que dizer da cidade de Brazil, O Filme (Brazil, 1985)? Muitos podem achar que não se enquadra no tema “cidade dominada”, mas poucas cidades do cinema estiveram mais dominadas do que aquela, na qual uma burocracia impiedosa e um governo autoritário transtornam a vida dos cidadãos, com requintes de crueldade. Claro que tudo isso com uma dose de humor negro que só mesmo Terry Gilliam, um dos integrantes do grupo inglês Monty Python, seria capaz de arquitetar.


Sam Lowry (Jonathan Pryce), dominado pela burocracia impiedosa, em Brasil, O Filme (Embassy Int. Pic./ 20th Century Fox).

A cidade não é especificada; no início do filme é dito que a história é situada em algum lugar do planeta, no final do século 20. Claro que não é o século 20 que nós vivenciamos, mas um apavorante, uma junção amplificada de muitas coisas ruins do século 20, entre elas o total desprezo pelo indivíduo e a valorização de algo que nem mesmo pode ser chamado de governo, mas um sistema de controle das ações que ultrapassa qualquer tentativa de organização, como uma verdadeira máquina para a qual os seres humanos são apenas peças que podem ser substituídas ou amoldadas de acordo com os interesses dessa máquina.


As máquinas estranhas dominam a vida, em Brazil, O Filme.

Gilliam dá o tom do que é a vida nesse ambiente de opressão e incompreensão constante ao mostrar uma barata caindo numa impressora, provocando um erro de digitação no nome de uma pessoa e transformando sua vida num inferno instantâneo.
O contraponto à vida nessa cidade infernal é apresentado pelos sonhos do personagem Sam Lowry (Jonathan Pryce), uma das peças da burocracia estatal, que tem um emprego entediante como tantas outras pessoas. Mas nos sonhos ele é um herói alado, à procura da mulher que considera ideal, e que encontra na vida real.


A mulher dos sonhos de Sam Lowry, e a própria, na vida real (Kim Greist), em Brazil, O Filme. 
 


Lowry constantemente bate de frente com a burocracia e seus meandros impenetráveis, envolvendo-se numa trama que envolve o especialista em ar condicionados renegado, Tuttle (Robert De Niro), e que o leva a um final surpreendente, porém tão triste quanto a sociedade apresentada.
Grande parte do sentimento de opressão transmitido pelo filme deve-se aos cenários espetaculares, uma cidade que não se situa em qualquer lugar do tempo, com referências do passado, de um possível futuro e repleta de máquinas e tubos sem utilidade aparente; esses objetos estão por toda parte, integrados ao ambiente, como extensões da máquina.


Sam Lowry, dominado pela máquina estatal, em Brazil, o Filme.

Terry Gilliam construiu um pesadelo do qual se tem a impressão de que é impossível sair, a não ser por meio dos sonhos. E, em meio a tudo isso, ele consegue fazer rir e apresenta críticas mordazes à sociedade de consumo.
É estranho que o filme tenha sido um fracasso de bilheteria, apesar da quantidade de críticas favoráveis e de ter sido indicado a dois prêmios da Academia. Claro que, eventualmente, tornou-se um cult, como costuma acontecer com filmes excepcionais que são ignorados pelo grande público.
Um crítico de cinema brasileiro – desculpem, mas não lembro quem foi – escreveu que o título do filme em nossas terras ganhou o subtítulo “O Filme” para não ser confundido com o próprio país.

Entre as versões mais recentes de cidades dominadas estão as comunidades da série Jogos Vorazes, uma trilogia escrita por Suzanne Collins; Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2008), Em Chamas (Catching Fire, 2009) e A Esperança (Mockingjay, 2010).

     


Os livros foram adaptados para o cinema em quatro filmes: Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012), Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire, 2013), Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 (The Hunger Games: Mockingjay – Part 1, 2014) e Jogos Vorazes: A Esperança – O Final (The Hunger Games: Mockingjay – Part 2, 2015).
Tanto os livros quanto os filmes são muito bons, lidando com um futuro distópico no qual várias cidades são dominadas por uma capital repleta de pessoas absolutamente vazias e apenas preocupadas com a aparência, o consumo e a diversão, totalmente alheias às reais preocupações e dificuldades dos habitantes das cidades que produzem tudo o que eles precisam para viver.


Jennifer Lawrence como Katniss Everdeen, em Jogos Vorazes (Lions Gate/ Color Force/ Paris Filmes).

Sob o pretexto de que essas comunidades tentaram se rebelar, muitos anos antes, o governo mantém um controle rígido sobre suas atividades, utilizando a força militar sem pensar duas vezes. E ainda obriga seus jovens a participarem dos chamados “jogos vorazes”, nos quais são jogados num ambiente desconhecido, no qual precisam matar os demais concorrentes. Só um deve sobreviver e, assim, conseguir que sua comunidade tenha um pouco mais de alimentos e vantagens durante o ano. Na verdade, não é difícil perceber que os jogos são mais uma forma de dominação e humilhação, além de serem o maior entretenimento para os moradores da capital.

Na mesma linha distópica, a trilogia Divergente também fez sucesso, tanto nos livros quanto no cinema. Os livros foram escritos por Veronica Roth e, como em Jogos Vorazes, traz como personagem central uma jovem heroína: Divergente (Divergent, 2011), Insurgente (Insurgent, 2012) e Convergente (Allegiant, 2013). A autora ainda escreveu mais uma obra no mesmo ambiente, Quatro (Four, 2014), que traz contos com narrativa sob o ponto de vista de outro personagem.

     


No cinema, o primeiro filme, com o mesmo título do livro, surgiu em 2014; o segundo, A Série Divergente: Insurgente (The Divergent Series: Insurgent), estreou em 2015. O terceiro livro, como ocorreu com Jogos Vorazes, foi dividido em dois filmes que devem surgir em 2016 e 2017. A voracidade das produtoras não tem limites; essa tendência de dividir um livro em dois filmes vem de Harry Potter, continuando com a decrépita série dos vampiros apaixonados Crepúsculo (Twilight).
A história se passa na cidade de Chicago, num futuro pós-apocalipse, a sociedade foi dividida em cinco facções, organizadas a partir de suas supostas, ou alegadas, personalidades. Em determinado momento de suas vidas, os jovens passam por um teste de aptidão que determina a qual das facções deverá se ligar a partir de então. A ideia é manter um equilíbrio entre as facções para que os problemas do passado não voltem a perturbar a sociedade.
Só que as coisas não são tão simples, é claro. Existem pessoas que não se enquadram em qualquer das facções, os “divergentes”, além do que existe um grupo tentando assumir o poder total da sociedade.